domingo, 3 de abril de 2011

Domingo

Talvez porque uma tarde de domingo a trabalhar se adia o mais possível, talvez por ter aqui escrito o nome do texto, lá fui eu ler a entrevista com o Tolentino, que desconhecia completamente. Padre, Escritor e Professor Universitário, também me cativou pelas palavras, sobretudo sobre a Bíblia, que eu tenho tentado explicar aos meus pequeninos como um texto muito complicado, absorvente e fascinante na perspectiva histórica, de tentar considerá-lo um documento, ainda que seja impossível eliminar completamente a parte mística, a Fé. Tenho tido uns interessantes diálogos com os meus pupilos sobre as contradições e guerras entre a Ciência e a Religião, entre a Razão e a Fé, procurando que eles compreendam que o desejável é a convivência e mesmo miscigenação entre ambas as perspectivas, que não são estanques.
Gostei então particularmente desta palavras de Tolentino:
"Penso que mesmo antes de folhearmos a Bíblia já a folheámos. A Bíblia ensopa a experiência de todas as nossas histórias e a experiência espiritual que o cristianismo é." A que gostaria de acrescentar «ensopa a nossa cultura, porque o sistema de valores no qual tem estado assente a nossa civilização é o conjunto de valores veiculados pelo Cristianismo».
E "São Francisco de Assis dizia que caminhar a pé é ja rezar. Se for assim, já tenho rezado muito."
Com esta frase identifiquei-me muito e recordei o fascínio que tive quando fiz um trabalho, ainda na Licenciatura, sobre Francisco de Assis. Como fiquei fascinada pela sua vida, pelo seu pensamento, pelo abalo que inicialmente criou numa Igreja materialista e presa das tradições que vem acrescentando à Bíblia ou ao Cristianismo inicial.
Sempre sinto que caminhar - como uma actividade consciente, planeada - em locais escolhidos, me conduz a uma maior proximidade com a minha fé, com os agradecimentos que faço à Natureza de me ter incluído nela, com o fascínio que tenho pela possibilidade de apreender diversos aspectos deste mundo magnífico e deste país fascinante que somos. Sempre que volto de uma caminhada - pelas palavras ou pelo espaço - sinto que fiz uma renovação da minha alma e dos meus votos de felicidade pela fruição de tudo o que a vida me tem dado.
Talvez por ser domingo - e a educação e a tradição não deixam que este seja um dia asséptico em termos de sentimentos e emoções - este texto teve muito impacto em mim.
O mínimo que posso fazer agora é tentar conhecer algum texto de Tolentino Mendonça, em prosa ou em poesia.

3 comentários:


  1. O nosso mundo é este


    O nosso mundo é este
    Vil suado
    Dos dedos dos homens
    Sujos de morte.

    Um mundo forrado
    De pele de mãos
    Com pedras roídas
    das nossas sombras.

    Um mundo lodoso
    Do suor dos outros
    E sangue nos ecos
    Colado aos passos…

    Um mundo tocado
    Dos nossos olhos
    A chorarem musgo
    De lágrimas podres…

    Um mundo de cárceres
    Com grades de súplica
    E o vento a soprar
    Nos muros de gritos.

    Um mundo de látegos
    E vielas negras
    Com braços de fome
    A saírem das pedras…

    O nosso mundo é este
    Suado de morte
    E não o das árvores
    Floridas de música
    A ignorarem
    Que vão morrer.

    E se soubessem, dariam flor?

    Pois os homens sabem
    E cantam e cantam
    Com morte e suor.

    O nosso mundo é este….

    (Mas há-de ser outro.)


    José Gomes Ferreira

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  2. pois aqui vai uma amostra:


    Da verdade do amor
    Da verdade do amor se meditam
    relatos de viagens confissões
    e sempre excede a vida
    esse segredo que tanto desdém
    guarda de ser dito

    pouco importa em quantas derrotas
    te lançou
    as dores os naufrágios escondidos
    com eles aprendeste a navegação
    dos oceanos gelados

    não se deve explicar demasiado cedo
    atrás das coisas
    o seu brilho cresce
    sem rumor

    José Tolentino Mendonça, in "Baldios"

    há um livro de poesia reunida, "A noite abre meus olhos" que vale a pena. E há "A leitura infinita", sobre a interpretação dos textos bíblicos, ambos da Assírio & Alvim.

    Bom domingo.

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  3. A rede é fantástica, de facto! Quando se tem a ventura de ter os amigos certos, parece que basta fazer um pedido. Quase como se, afinal, houvesse fadas madrinhas, assim, prestes a realizar os nossos desejos...
    Muito obrigada!

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