" Natal
Percorro o dia, que
esmorece
Nas ruas cheias de
rumor;
Minha alma vã
desaparece
Na muita pressa e
pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei
um anjo,
dos que anunciam no
jornal;
Mas houve um etéreo
desarranjo
E o efeito em casa
saiu mal.
Valeu-me um príncipe
esfarrapado
A quem dão coroas
no meio disto,
Um moço doente,
desanimado...
Só esse pobre me
pareceu Cristo."
Vitorino Nemésio
Obrigada. Feliz Natal!
ResponderEliminarHistória antiga
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga
Há quanto tempo não tinha um Torga?
ResponderEliminarNatal à beira-rio
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
David Mourão-Ferreira
Até já os «meus meninos» aprenderam a ler Torga (muito mais cedo que eu...) pois alguns destes poemas «migram» para o blogue de poesia que eu e outra colega criámos na escola, para dar espaço à criatvidade dos nossos alunos. E Torga é, claro, uma das inspirações que por lá vamos pondo.
ResponderEliminar