Será que as palavras ficam presas no tempo?
Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil?
Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?...
Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto.
Por puro prazer!
terça-feira, 16 de novembro de 2010
José Saramago teria feito hoje 88 anos
Uma coisa bonita, que tenho observado nas homenagens que vão sendo notícia, é a leitura de excertos das suas obras. Parece-me a melhor homenagem para um escritor.
— Onde nasceu a ciência?... — Onde nasceu o juízo?... Calculo que ninguém tem Tudo quanto lhe é preciso!
GLOSAS
Onde nasceu o autor Com forças p'ra trabalhar E fazer a terra dar As plantas de toda a cor? Onde nasceu tal valor?... Seria uma força imensa E há muita gente que pensa Que o poder nos vem de Cristo; Mas antes de tudo isto, Onde nasceu a ciência?...
De onde nasceu o saber?... Do homem, naturalmente. Mas quem gerou tal vivente Sem no mundo nada haver? Gostava de conhecer Quem é que formou o piso Que a todos nós é preciso Até o mundo ter fim... Não há quem me diga a mim Onde nasceu o juízo?...
Sei que há homens educados Que tiveram muito estudo. Mas esses não sabem tudo, Também vivem enganados; Depois dos dias contados Morrem quando a morte vem. Há muito quem se entretém A ler um bom dicionário... Mas tudo o que é necessário Calculo que ninguém tem.
Ao primeiro homem sabido, Quem foi que lhe deu lições P'ra ter habilitações E ser assim instruído?... Quem não estiver convencido Concorde com este aviso: — Eu nunca desvalorizo Aquel' que saber não tem, Porque não nasceu ninguém Com tudo quanto é preciso!
E há 51 dias falecia o poeta popular António Aleixo...
ResponderEliminarOnde nasceu a ciência e o juízo?
MOTE
— Onde nasceu a ciência?...
— Onde nasceu o juízo?...
Calculo que ninguém tem
Tudo quanto lhe é preciso!
GLOSAS
Onde nasceu o autor
Com forças p'ra trabalhar
E fazer a terra dar
As plantas de toda a cor?
Onde nasceu tal valor?...
Seria uma força imensa
E há muita gente que pensa
Que o poder nos vem de Cristo;
Mas antes de tudo isto,
Onde nasceu a ciência?...
De onde nasceu o saber?...
Do homem, naturalmente.
Mas quem gerou tal vivente
Sem no mundo nada haver?
Gostava de conhecer
Quem é que formou o piso
Que a todos nós é preciso
Até o mundo ter fim...
Não há quem me diga a mim
Onde nasceu o juízo?...
Sei que há homens educados
Que tiveram muito estudo.
Mas esses não sabem tudo,
Também vivem enganados;
Depois dos dias contados
Morrem quando a morte vem.
Há muito quem se entretém
A ler um bom dicionário...
Mas tudo o que é necessário
Calculo que ninguém tem.
Ao primeiro homem sabido,
Quem foi que lhe deu lições
P'ra ter habilitações
E ser assim instruído?...
Quem não estiver convencido
Concorde com este aviso:
— Eu nunca desvalorizo
Aquel' que saber não tem,
Porque não nasceu ninguém
Com tudo quanto é preciso!
António Aleixo