domingo, 26 de setembro de 2010

«Tell me why, I don't like mondays»

O tempo vai ficando escasso para escrever.
Encerrada em horários rígidos, foge-me a inspiração...
O trabalho acumulado em casa, sem esperança de ser realizado de semana, corta-me os passeios no mar. E eu escrevo bem é no mar, em frente ao mar, no cheiro do mar, num passeio à beira-mar.
Sinto o sol a escoar-se numa nostalgia outonal que me esfria por antecipação a vontade de caminhar, de cheirar, de escrever...
Todos os dias passo por palavras que me apetece guardar, desdobrar, conversar, recordar: o guarda-vestidos, a demasia, a iogurteira, a sombrinha...
Hoje gastei a tarde a sorver o sol de outono no meu terraço, enquanto procurava as memórias locais da república.
É estranho falar em memórias da República. Nós vivemos numa República. Desde 1910 nunca mais o país deixou de ser uma República. Mas quão esquecidos estão os ideais fundadores!...
Mergulho no dourado escuro do fim da tarde a pensar que amanhã é segunda-feira. Que tenho uma rotina pela frente. Que o despertador vai tocar amanhã e nos outros dias às sete horas, que vai estar frio, que um dia destes tenho de calçar meias e luvas, meter os pés em botas e proteger as orelhas com gorros.
Este ano não me apetecia Inverno, nem rotinas, nem horários...Queria dourar mais um bocadinho ao sol e sorver o som das gaivotas na beira-mar...
Eu não queria que amanhã fosse segunda-feira e com este não-querer perco o domingo, antecipando as contrariedades. Que desperdício!

6 comentários:


  1. O tempo


    O despertador é um objeto abjeto.
    Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem
    nós, para não parar.
    E todas as manhãs nos chama freneticamente como
    um velho paralítico a tocar a campainha atroz.
    Nós
    é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de
    rodas.
    Nós, os seus escravos.
    Só os poetas
    os amantes
    os bêbados
    podem fugir
    por instantes
    ao Velho...Mas que raiva dá no Velho quando
    encontra crianças a brincar de roda
    e não há outro jeito senão desviar delas a sua
    cadeira de rodas!
    Porque elas, simplesmente, o ignoram...


    Mário Quintana

    Se pudesse ser criança, Miss...

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  2. Ah, Mestre, hoje as crianças também são escravas do tempo.
    Não têm avós a fazer os lanches, nem a oportunidade de dizer «já vou». Entram para a creche aos 3 meses, com horários e espaços delimitados, na escola, têm aulas de susbtituição quando um professor falta e frequentam muuuuiiitas actividades extra-curriculares para serem o orgulho dos pais que os evitam, ganhando muito dinheiro para lhes satisfazer os caprichos.
    Não sei se o Tempo hoje se desvia das crianças...restam alguns hippies, teimosamente anacrónicos...todos os outros correm a favor do Tempo.

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  3. Miss, não estará sendo demasiado "bichinho de betão", como diria o Carlos Tê?

    Mesmo nas cidades, gente pobre não põe os filhos a não ser na rua ou nalguma vizinha desempregada...

    É ir aos bairros mais pobres e vê-los jogando à bola e correndo, quiçá a treinar futuras malfeitorias.

    E nos meios rurais, nos poucos que subsistem?

    Ná, a Miss está tomando a árvore pela floresta...

    Ainda é possível encontrar muitos deuses como este:

    http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v020.txt

    (Desculpe não passar o texto para aqui, mas é enormérrimo...)

    Beijito. Sonhe com sextas-feiras de um mês por inventar...

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  4. Beijito. Sonhe que vai ter sempre força para convencer as pessoas de que o mundo tem muitos poetas e rebeldes e pessoas que insistem em esquivar-se das quadrículas do Tempo que a Sociedade lhes destinou. Obrigada!

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  5. pois olhe, enquanto o Tempo não acaba - e com a sugestão do título do seu post - lá fui ouvir a canção dos boomtown rats...

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  6. Uma outra dama que se sentia presa quando longe do mar:

    Cidade

    Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
    Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
    Saber que existe o mar e as praias nuas,
    Montanhas sem nome e planícies mais vastas
    Que o mais vasto desejo,
    E eu estou em ti fechada e apenas vejo
    Os muros e as paredes, e não vejo
    Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

    Saber que tomas em ti a minha vida
    E que arrastas pela sombra das paredes
    A minha alma que fora prometida
    Às ondas brancas e às florestas verdes.


    Sophia de Mello Breyner Andresen

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