sábado, 7 de agosto de 2010

E este? Irresistível!

3 comentários:


  1. Dá-me a tua mão


    Dá-me a tua mão:
    Vou agora te contar
    como entrei no inexpressivo
    que sempre foi a minha busca cega e secreta.
    De como entrei
    naquilo que existe entre o número um e o número dois,
    de como vi a linha de mistério e fogo,
    e que é linha sub-reptícia.

    Entre duas notas de música existe uma nota,
    entre dois factos existe um facto,
    entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
    existe um intervalo de espaço,
    existe um sentir que é entre o sentir
    — nos interstícios da matéria primordial
    está a linha de mistério e fogo
    que é a respiração do mundo,
    e a respiração contínua do mundo
    é aquilo que ouvimos
    e chamamos de silêncio.


    Clarice Lispector

    Quebremos o silêncio, nem que seja com voos de moscardo...

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  2. Há quem diga que o silêncio é de ouro...

    Eu prefiro sempre o doirado do sol das palavras ou mesmo as suas tempestades, que vão enchendo o cofre virtual onde as vou guardando e enriquecendo o meu léxico e a minha vida.

    Saudemos pois o regresso das palavras!

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  3. Desfecho


    Não tenho mais palavras.
    Gastei-as a negar-te...
    (Só a negar-te eu pude combater
    O terror de te ver
    Em toda a parte).
    Fosse qual fosse o chão da caminhada,
    Era certa a meu lado
    A divina presença impertinente,
    Do teu vulto calado,
    E paciente...
    E lutei, como luta um solitário
    Quando, alguém lhe perturba a solidão
    Fechado num ouriço de recusas,
    Soltei a voz, arma que tu não usas,
    Sempre silencioso na agressão.
    Mas o tempo moeu na sua mó
    O joio amargo do que te dizia...
    Agora somos dois obstinados,
    Mudos e malogrados,
    Que apenas vão a par na teimosia.


    Miguel Torga

    (Longe de mim comparar-me a algo em que não acredito, mas o que menos desejo é ser um dos «dois obstinados, mudos e malogrados»...)

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