segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pata ante pata

Toda a mudança causa um certo desconforto, mesmo quando é causa de excitação, de entusiasmo. Somos seres rotineiros, por mais que o não queiramos e, frequentemente, quando operamos mudanças, estas conduzem-nos a novas rotinas que nos absorvem.
Não é necessariamente mau...

Vem tudo isto a propósito de eu estar a preparar com algum cuidado - com consciência disso, pelo menos - a mudança que se vai aproximando.
Afastada das leituras «light» (ou porque sim, gosto mais de uma expressão portuguesa e anti-anoréctica) durante os últimos anos, desaficionada (isto existe?) de novelas desde a última que acabou para aí há um mês, desinteressada de concursos e um pouco desiludida de séries, resolvi «começar a abrandar».

Todos os livros que enchem as estantes lá de casa me parecem sérios de mais ou, pelo menos, inapropriados para este interregno. Comprar um livro nunca me parece despesa escusada e lá fui eu à procura.

Batendo mentalmente nas mãos que se enredavam na História, na Sociologia, na Metodologia das Ciências Sociais, ou, já a medo, nos romances históricos, fui excluindo as hipóteses. Considerei rapidamente a culinária ou os trabalhos manuais, arrepiei-me com os preços de belos livros de imagens (e com tão pouco que ler...) e estava quase a render-me a Nora Roberts (não falo por falar, já li dois romances dela; não eram maus, o único problema é que eram iguais) quando ele me apareceu pela frente. Assim, deitado na estante, com olhos azuis suplicantes, entre o desafio para a brincadeira e o pedido descarado de mimo. O livro chama-se «O Novo Inquilino» e o título está enquadrado entre dois novelos de lã. Já perceberam de que tipo é o inquilino, claro. Meti-o numa mala sem fecho - para poder respirar - e trouxe-o comigo para a capital. Redescobrir o prazer de ler nos transportes públicos.

A história é muito «british», com muita vida no campo, muitos animais e aquele cunho de isolamento e autosuficiência que me recorda o que vi no Quebéc: os vizinhos mais próximos ficavam a uma distância que não viam um aceno da porta de casa. Aquilo para mim não eram vizinhos: eram primos afastados. Imagine-se! Ter de ir de carro para todo o lado, ou de galochas, ou aprender a ser canalizador e carpinteiro para resolver os problemas durante o loooongo Inverno, quando as casas ficam isoladas pela neve ou pela chuva!

Portanto já estou farta de tanto «light» e tanto rom-rom. Quero voltar a ler um romance a sério, com uma intriga, que seja, no mínimo, intrigante.

Mas, para colocar aqui qualquer coisa, cá fica um pedacinho de texto, daqueles que só os amantes de gatos compreendem:

"«A esperança é a última a morrer» é, sem dúvida, o mote de qualquer dono de siameses. Os gatos desfazem os estofos das cadeiras, transformam tapetes em perfeitas imitações de astracã, destroem loiça como se tivessem acções em alguma olaria...é mesmo assim, quando o dono substitui a peça pensa que desta vez vai correr tudo bem. Tomando uma ou duas precauções talvez, como colocar mantas em cima da mobília mais sensível, tirar a loiça do traçado da corrida de obstáculos siamesa e, quando se apanha os culpados no acto, ordenar-lhes com firmeza, muita rispidez, a desisitir...
Claro que nunca funciona." Doreen Tovey, pp. 82-83

A sério! Procurem a capa: é lindíssima! Se eu estivesse perto do meu scanner oferecia-vos a imagem.

E agora, continuar as obrigações, que o tempo absolutamente livre, ainda tarda.

4 comentários:


  1. Lição de um gato siamês


    Só agora sei
    que existe a eternidade:
    é a duração
    finita
    da minha precariedade

    O tempo fora
    de mim
    é relativo
    mas não o tempo vivo:
    esse é eterno
    porque afectivo
    — dura eternamente
    enquanto vivo

    E como não vivo
    além do que vivo
    não é
    tempo relativo:
    dura em si mesmo
    eterno (e transitivo)


    Ferreira Gullar

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  2. Soneto do gato morto


    Um gato vivo é qualquer coisa linda
    Nada existe com mais serenidade
    Mesmo parado ele caminha ainda
    As selvas sinuosas da saudade

    De ter sido feroz. À sua vinda
    Altas correntes de eletricidade
    Rompem do ar as lâminas em cinza
    Numa silenciosa tempestade.

    Por isso ele está sempre a rir de cada
    Um de nós, e ao morrer perde o veludo
    Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

    Acaba, é o antigato; porque nada
    Nada parece mais com o fim de tudo
    Que um gato morto.


    Vinicius de Moraes

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  3. Quem há-de abrir a porta ao gato


    Quem há-de abrir a porta ao gato
    quando eu morrer?
    Sempre que pode
    foge prá rua,
    cheira o passeio
    e volta pra trás,
    mas ao defrontar-se com a porta fechada
    (pobre do gato!)
    mia com raiva
    desesperada.
    Deixo-o sofrer
    que o sofrimento tem sua paga,
    e ele bem sabe.
    Quando abro a porta corre pra mim
    como acorre a mulher aos braços do amante.
    Pego-lhe ao colo e acaricio-o
    num gesto lento,
    vagarosamente,
    do alto da cabeça até ao fim da cauda.
    Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
    olhos semi-cerrados, em êxtase, ronronando.
    Repito a festa,
    vagarosamente.
    do alto da cabeça até ao fim da cauda.
    Ele aperta as maxilas,
    cerra os olhos,
    abre as narinas.
    e rosna.
    Rosna, deliquescente,
    abraça-me
    e adormece.
    Eu não tenho gato, mas se o tivesse
    quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


    António Gedeão

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  4. Também se pode sonhar um gato? Companhia perfeita, qual Príncipe das histórias?
    Só um Poeta para ter um Gato Sonhado!

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