domingo, 18 de julho de 2010

Faz de conta que ainda é cedo e se entrega na sedução

7 comentários:

  1. «Ó pra mim a desenvolver competências!» :-))

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  2. Louvor do aprender


    Aprende o mais simples! Pr‘àqueles
    Cujo tempo chegou
    Nunca é tarde de mais!
    Aprende o abc; não chega, mas
    Aprende-o! E não te enfades!
    Começa! Tens de saber tudo!
    Tens de tomar a chefia!

    Aprende, homem do asilo!
    Aprende, homem na prisão!
    Aprende, mulher na cozinha!
    Aprende, sexagenária!
    Tens de tomar a chefia!

    Frequenta a escola, homem sem casa!
    Arranja saber, homem com frio!
    Faminto, pega no livro: é uma arma.
    Tens de tomar a chefia.

    Não te acanhes de perguntar, companheiro!
    Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
    Vê c'os teus próprios olhos!
    O que tu mesmo não sabes
    Não o sabes.
    Verifica a conta:
    És tu que a pagas.
    Põe o dedo em cada parcela,
    Pergunta: como aparece isto aqui?
    Tens de tomar a chefia.


    Bertold Brecht

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  3. A todos e a cada um dos meus amigos


    Por um por todos por nenhum
    faço o meu canto canto a minha mágoa
    num desencanto aberto pelo gume
    deste pranto tão limpo como a água.

    Por nenhum por todos ou por um
    eu dou o meu poema o meu tecido
    de palavras gravadas com o lume
    do medo que na voz trago vencido.

    Por nenhum por um mesmo por todos
    sou a bala e o vinho sou o mesmo
    que pisa as uvas os versos e o lodo
    num chão onde a coragem nasce a esmo.


    Joaquim Pessoa

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  4. Identidade


    Matei a lua e o luar difuso.
    Quero os versos de ferro e de cimento.
    E em vez de rimas, uso
    As consonâncias que há no sofrimento.

    Universal e aberto, o meu instinto acode
    A todo o coração que se debate aflito.
    E luta como sabe e como pode:
    Dá beleza e sentido a cada grito.

    Mas como as inscrições nas penedias
    Têm maior duração,
    Gasto as horas e os dias
    A endurecer a forma da emoção.


    Miguel Torga

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  5. O único amigo


    Não me alcançarás, amigo.
    Chegarás ansioso, louco;
    mas eu já terei partido.

    (E que medonho vazio
    tudo o que tiveres deixado
    atrás, para vir comigo!

    Que lamentável abismo
    tudo quanto eu tenha posto
    entre nós, sem culpa, amigo!)

    Não poderás ficar, amigo.
    Voltarei talvez ao mundo.
    Mas tu já terás partido...


    Juan Ramón Jiménez

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  6. Assombros


    Às vezes, pequenos grandes terremotos
    ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

    Fora, não se dão conta os desatentos.

    Entre a aorta e a omoplata rolam
    alquebrados sentimentos.

    Entre as vértebras e as costelas
    há vários esmagamentos.

    Os mais íntimos já me viram
    remexendo escombros.
    Em mim há algo imóvel e soterrado
    em permanente assombro.


    Affonso Romano de Sant'Anna

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  7. Negrume


    De tanto olhar o sol, queimei os olhos.
    De tanto amar a vida, enlouqueci,
    Agora sou no mundo esta negrura,
    À procura
    Da luz e do juízo que perdi.

    Cego, tacteio em vão a claridade;
    Louco, cuspo no rosto da razão;
    E deambulo assim
    Dentro de mim,
    Negação a negar a negação.


    Miguel Torga

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