quarta-feira, 14 de julho de 2010

Companheiro

Na minha família sempre houve a mania de dar nomes aos carros. Ou, talvez seja só eu mesma que o faça...Não, o meu pai chamava «Boguinhas» ao carro. Lembro-me que um dia instalou lá um boneco muito giro, daqueles com uma cabeça que balança...creio que era cor de laranja e tinha um tufo de pelos brancos no peito. Estava no «tablier». O meu pai disse-me que ele se chamava Mikim e eu acrescentei Tremeliques, Peludinhas, evidenciando já a falta de economia em palavras.

O meu padrasto tinha uma carrinha de trabalho, que baptizei de «Bota Botilde», que só tinha dois lugares. Eu viajava em cima do motor - sem cinto, completamente «fora-da-lei» - e detestava quando ele parava a falar com alguém, deixando o carro ligado, pois o motor aquecia e o meu assento tornava-se insuportável.

Resisti muito a ser condutora, preferindo sempre mais ser conduzida que conduzir. Em transportes públicos, aproveitando o tempo para ler ou em carros particulares, comentando a paisagem e observando pormenores...Momentos gloriosos foram aqueles em que eu trabalhei num local que tinha motoristas para os chefes e, como me dava muito bem com um dos motoristas, às vezes ele dava-me boleia para almoçar ou sair do emprego e insistia sempre para que eu me sentasse lá atrás. «Faça de chefe, vá treinando. Eu já estou habituado a ser motorista.»

Bem, seja como for, a veracidade da frase (creio que do Eça) «O país é Lisboa e o resto é paisagem», obrigou-me, se queria ter a paz da província e a autonomia do feitio, a comprar um veículo. Não foi fácil a minha adaptação ao papel de condutora. (E, se calhar, a adaptação dos outros motoristas, ao meu papel de condutora, também não terá sido fácil!)

Não me consigo recordar dos nomes que dei - certamente dei - aos meus dois primeiros veículos, que tão torturados foram! Recordo-me que o primeiro tinha as letras de matrícula «AV», o que, inexplicavelmente (!), lhe valeu a designação de «Azelha ao Volante», colocada por um colega de trabalho da altura. O segundo tinha as letras «VC», o que não me inspirava para o nomear, até ter partilhado esta preocupação com um amigo «informático», que o apelidou de video-conferência. Mas, nunca me identifiquei muito com tal nome: as minhas conferências preferidas são presenciais, à roda de uma mesa de café, com um bom grupo de amigos. (Isto deve ser um pleonasmo, porque um mau grupo de amigos não chega a ser um grupo de amigos. Haverá «maus amigos»? Bem...fica p'ra próxima).

Tudo isto vinha a propósito da perfeita simbiose que tenho com o meu terceiro carro («Não há amor como o terceiro, nem luar como o de Janeiro!») que tem não uma, mas duas designações, que demonstram o meu amor incondicional por ele.

Sendo um Opel Corsa, baptizei-o logo de corsário, pirata arrebatador que me ofereceu o verdadeiro prazer de conduzir. Mas a ternura existente entre nós, em momentos bem complicados da minha vida, trouxeram-lhe a segunda designação: O meu corcel.

O meu corcel faz-me voar, em viagens necessárias, exteriores e interiores. O meu corcel que me garante uma viagem feliz, por montes e vales, planícies e costas, até onde eu encontro o momento perfeito. Às vezes no Sul, para «deslanchar» um texto difícil, outras vezes em S. Pedro de Moel, como no dia da escrita da Conclusão, em que tenho a certeza que ele aumentou as janelas para que eu pudesse escrever até ao fim, quase só com uma réstia de luz natural e sem olhar para o relógio, que está por cima do rádio - nesse dia emudecido - até ao ponto final, passava da hora do jantar.

Ele sabe os locais certos para despertar emoções, para despertar o choro catártico ou a reflexão profunda. Ele sabe as paisagens da minha alegria. Ele conhece os programas de rádio adequados ao meu estado de espírito. Ele não é muito aventureiro, para me garantir a segurança e só segue, sem qualquer temor, as setas castanhas que indicam sempre «um Portugal desconhecido, que espera por si».

Um dia vamos viajar mais longe, arriscar-nos no estrangeiro, pois tenho a certeza que ele também sabe línguas. Com ele, sinto-me o Trinitá e um dia arrisco riscar um fósforo na sola das botas para acender um cigarro ao canto da boca.

O meu corcel das viagens necessárias, sofridas, sorridas, sonhadas; o meu corsário das pilhagens de paisagens. O contador da kilometragem da minha vida, o confidente de todas as horas, o autor de tantas possibilidades...impossíveis, até.

1 comentário:

  1. Ideia-despertador: carro = calhambeque = Roberto Carlos no tempo em que cantava coisas menos místicas:

    http://www.youtube.com/watch?v=VlwefDKWAXM&feature=related

    O Calhambeque

    "Essa é umas das muitas histórias
    Que acontecem comigo
    Primeiro foi Suzy
    Quando eu tinha lambreta
    Depois comprei um carro
    Parei na contra-mão
    Tudo isso sem contar
    O tremendo tapa que eu levei
    Com a história
    Do Splish Splash
    Mas essa história
    Também é interessante"

    Mandei meu Cadillac
    Pr'o mecânico outro dia
    Pois há muito tempo
    Um conserto ele pedia
    E como vou viver
    Sem um carango prá correr
    Meu Cadillac, bi-bi
    Quero consertar meu Cadillac
    Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

    Com muita paciência
    O rapaz me ofereceu
    Um carro todo velho
    Que por lá apareceu
    Enquanto o Cadillac
    Consertava eu usava
    O Calhambeque, bi-bi
    Quero buzinar o Calhambeque
    Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

    Saí da oficina
    Um pouquinho desolado
    Confesso que estava
    Até um pouco envergonhado
    Olhando para o lado
    Com a cara de malvado
    O Calhambeque, bi-bi
    Buzinei assim o Calhambeque
    Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

    E logo uma garota
    Fez sinal para eu parar
    E no meu Calhambeque
    Fez questão de passear
    Não sei o que pensei
    Mas eu não acreditei
    Que o Calhambeque, bi-bi
    O broto quis andar
    No Calhambeque
    Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

    E muitos outros brotos
    Que encontrei pelo caminho
    Falavam: "Que estouro
    Que beleza de carrinho"
    E fui me acostumando
    E do carango fui gostando
    E o Calhambeque, bi-bi
    Quero conservar o Calhambeque
    Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

    Mas o Cadillac
    Finalmente ficou pronto
    Lavado, consertado
    Bem pintado, um encanto
    Mas o meu coração
    Na hora exata de trocar
    Aha! Aha! Aha! Aha! Aha!
    O Calhambeque, bi-bi
    Meu coração ficou com
    O Calhambeque
    Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

    -"Bem! Vocês me desculpem
    Mas agora eu vou-me embora
    Existem mil garotas
    Querendo passear comigo
    Mas é por causa
    Desse Calhambeque
    Sabe!
    Bye! Eh! Bye! Bye!"
    Arrãããããããããmmmm!


    Erasmo Carlos

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