terça-feira, 22 de junho de 2010

Poder Temporal e Poder Espiritual

Ainda imbuída do espírito da reconstituição histórica de domingo e do choque pela reacção da Igreja (a Santa Sé!) à morte de Saramago, mas sem tempo para escrever muito, lembrei-me que tinha aqui na estante um livro de trovas populares sobre a Gerra Civil, que acaba por versar estes temas todos ao mesmo tempo.
É a terceira edição do Cancioneiro Popular Político, de A. Tomás Pires, integrada na colecção Reaver (só sobre este título/tema apetecia-me falar tanto...) e comprada na Amadora uma Livraria que se chamava Abril/Abril (já fechou, claro!)

Trovas dos Liberais:


"O cheiro de um só corcunda
Enterrado na igreja,
É capaz de empestar
Quanta gente nela esteja

(...)

Até os próprios pastores,
Encostados ao bordão,
Gritam todos à porfia:
Liberal Constituição

(...)

Senhor padre, largue a moça,
Não seja tão maganão,
Pegue nas contas e reze:
Liberal Constituição.

(...)

Com carne, pão e vinho
Sustenta-se o Miguelinho
Sem carne, vinho e pão
Sustenta-se a Constituição."


(este último merecia umas observaçõezitas, mas pode ser que alguém as faça por mim...)

Trovas dos Miguelistas:

"(...)

Ando triste pelos montes,
Nem por isso passo mal,
Antes triste realista,
Que alegre const'cional.

(...)

Quando o Silveira se viu
Entre o meio dos liberais,
Prantou as mãos ao céu:
«Ó meu Deus, que determinais?»

Os anjos lhe responderam:
«Silveira, não tenhas medo,
Podem mais as Cinco Chagas,
Que as constituições de Pedro.»

(...)"


Eu sei, eu sei, sou parcial: coloquei uma trovazita a mais nos liberais...

4 comentários:

  1. Por falar em liberalismo, tomo a liberalidade de escarrapachar aqui um poema que já hoje me provocou lágrimas.

    Se o achar demasiado liberal, faça o favor de o apagar, combinado?

    A rainha careca

    De cabeleira farta
    De rígidas ombreiras
    De elegante beca
    Ula era casta
    Porque de passarinha
    Era careca.
    À noite alisava
    O monte lisinho
    Co'a lupa procurava
    Um tênue fiozinho
    Que há tempos avistara.
    Ò céus! Exclamava.
    Por que me fizeram
    Tão farta de cabelos
    Tão careca nos meios?
    E chorava.
    Um dia...
    Passou pelo reino
    Um biscate peludo
    Vendendo venenos.
    (Uma gota aguda
    Pode ser remédio
    Pra uma passarinha
    De rainha.)
    Convocado ao palácio
    Ula fez com que entrasse
    No seu quarto.
    Não tema, cavalheiro,
    disse-lhe a rainha
    Quero apenas pentelhos
    Pra minha passarinha.
    Ó Senhora! O biscate exclamou.
    É pra agora!
    E arrancou do próprio peito
    Os pêlos
    E com saliva de ósculos
    Colou-os
    Concomitantemente penetrando-lhe os meios.
    UI! Ui! Ui! gemeu Ula
    De felicidade.
    Cabeluda ou não
    Rainha ou prostituta
    Hei de ficar contigo
    A vida toda!
    Evidente que aos poucos
    Despregou-se o tufo todo.
    Mas isso o que importa?
    Feliz, muito contentinha
    A Rainha Ula já não chora.


    Moral da estória:
    Se o problema é relevante,
    apela pro primeiro passante.


    Hilda Hilst

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  2. A última vez que aqui comentei um tema histórico, o vale de lágrimas por invasão de campos alheios ia provocando cheias nas Penhas da Saúde...

    Longe de mim a ideia sequer de provocar sanha escrivânica similar...

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  3. Também li esse, mas não me atrevi a posta-lo. Assim sempre a responsabilidade não é minha...E já que cá está, não vou apagar: o blogue também é de quem o lê.

    E quanto aos temas históricos: o bom feitio e o espírito cristão do perdão também não demoram muito aí por casa, não? :-)

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  4. Bom feitio não, não pára por aqui.

    Quanto aos atributos religiosos, pensava eu que estava a ser caridoso, misericordioso e outras coisas terminadas em -oso de que não me recordo agora...

    Ou bater duas vezes no mesmo ceguinho com a mesma vara é espírito cristão?

    (Por essas e por outras é que sou ateu, graças aos deuses!)

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