sábado, 26 de junho de 2010

É isso aí...

Minha medida

Meu espaço é o dia
de braços abertos
tocando a fímbria de uma e outra noite
o dia
que gira
colado ao planeta
e que sustenta numa das mãos a aurora
e na outra
um crepúsculo de Buenos Aires

Meu espaço, cara,
é o dia terrestre
quer o conduzam os pássaros do mar
ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil
o dia
medido mais pelo meu pulso
do que
pelo meu relógio de pulso

Meu espaço - desmedido -
é o pessoal aí, é nossa
gente,
de braços abertos tocando a fímbria
de uma e outra fome,
o povo, cara,
que numa das mãos sustenta a festa
e na outra
uma bomba de tempo


Ferreira Gullar

colhido em poemblog e postado aqui, em homenagem ao «espírito brasileiro» de que tanto gosto.

E, para completar, «fulanizar» era a palavar do dia no Priberam, a que tive de recorrer, por causa de uma dúvida quanto a empregar, na escrita, um termo mais popular.

2 comentários:

  1. Este Gullar é bem catita, poeta da desordem de palavras arrumadas em ideias — e em verdades por vezes feitas pedras.

    Por oposição, na ordem que não nas ideias:

    Esta é a Cidade

    Esta é a Cidade, e é bela.
    Pela ocular da janela
    foco o sémen da rua.
    Um formigueiro se agita,
    se esgueira, freme, crepita,
    ziguezagueia e flutua.

    Freme como a sede bebe
    numa avidez de garganta,
    como um cavalo se espanta
    ou como um ventre concebe.

    Treme e freme, freme e treme,
    friorento voo de libélula
    sobre o charco imundo e estreme.
    Barco de incógnito leme
    cada homem, cada célula.
    É como um tecido orgânico
    que não seca nem coagula,
    que a si mesmo se estimula
    e vai, num medido pânico.

    Aperfeiçoo a focagem.
    Olho imagem por imagem
    numa comoção crescente.
    Enchem-se-me os olhos de água.
    Tanto sonho! Tanta mágoa!
    Tanta coisa! Tanta gente!
    São automóveis, lambretas,
    motos, vespas, bicicletas,
    carros, carrinhos, carretas,
    e gente, sempre mais gente,
    gente, gente, gente, gente,
    num tumulto permanente
    que não cansa nem descansa,
    um rio que no mar se lança
    em caudalosa corrente.

    Tanto sonho! Tanta esperança!
    Tanta mágoa! Tanta gente!


    António Gedeão

    [Fulanizemos, fulanizeis, fulanizem — mas mantenhamo-nos todos incógnitos que nestes tempos nunca sabemos quando (e para quê) nos colocam um "chip"...]

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  2. A cidade é um chão de palavras pisadas


    A cidade é um chão de palavras pisadas
    a palavra criança a palavra segredo.
    A cidade é um céu de palavras paradas
    a palavra distância e a palavra medo.

    A cidade é um saco um pulmão que respira
    pela palavra água pela palavra brisa
    A cidade é um poro um corpo que transpira
    pela palavra sangue pela palavra ira.

    A cidade tem praças de palavras abertas
    como estátuas mandadas apear.
    A cidade tem ruas de palavras desertas
    como jardins mandados arrancar.

    A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
    A palavra silêncio é uma rosa chá.
    Não há céu de palavras que a cidade não cubra
    não há rua de sons que a palavra não corra
    à procura da sombra de uma luz que não há.


    José Carlos Ary dos Santos

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