terça-feira, 18 de maio de 2010

Saudade - a 7ª palavra do mundo mais difícil de traduzir

"Saudade rima com verdade, com amizade, rima com tudo o que acaba em «ade», como prosperidade ou globalidade. Mas também rima com amor, com família e sobretudo, com a vontade inexplicável de percorrer qualquer distância que seja para aliviar esta dor que não se mede com régua nem termómetro.

As saudades não se guardam à espera que passem, simplesmente matam-se."

Carlos Coelho, Mercado da Saudade in Portugal Genial, pp. 111-113

3 comentários:

  1. Ontem, dia 17, foi um dia importante para a igualdade de todos os cidadãos, independentemente da sua orientação sexual. O cadáver ambulante que nos preside lá deixou passar a lei que não obriga ninguém, mas dá liberdade a muitos.

    Por isso, deixo aqui um poema de um poeta enorme, que foi perseguido por ter assumido a sua homossexualidade.

    Espero que a Escrivaninha não se importe desta minha homenagem.

    De saudades vou morrendo

    De Saudades vou morrendo
    E na morte vou pensando:
    Meu amôr, por que partiste,
    Sem me dizer até quando?
    Na minha boca tão linda,
    Ó alegrias cantae!
    Mas, quem se lembra d'um louco?
    - Enchei-vos d'agua, meus olhos,
    Enchei-vos d'agua, chorae!


    António Botto

    (Claro, com a ortografia anterior ao AO de 1940...)

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  2. Mas também deixo um retrato de um poeta também já quase esquecido porque...

    A minha saudade tem o mar aprisionado

    A minha saudade tem o mar aprisionado
    na sua teia de datas e lugares.
    É uma matéria vibrátil e nostálgica
    que não consigo tocar sem receio,
    porque queima os dedos,
    porque fere os lábios,
    porque dilacera os olhos.
    E não me venham dizer que é inocente,
    passiva e benigna porque não posso acreditar.
    A minha saudade tem mulheres
    agarradas ao pescoço dos que partem,
    crianças a brincarem nos passeios,
    amantes ocultando-se nas sebes,
    soldados execrando guerras.
    Pode ser uma casa ou uma rede
    das que não prendem pássaros nem peixes,
    das que têm malhas largas
    para deixar passar o vento e a pressa
    das ondas no corpo da areia.
    Seria hipócrita se dissesse
    que esta saudade não me vem à boca
    com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
    Imagino-a distante e extinta, e contudo
    cresce em mim como um distúrbio da paixão.


    José Jorge Letria

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  3. De forma alguma me ia importar que se guardassem por aqui essas palavras.

    Foi um passo importante, embora, como em muitas outras coisas, o facto de a igualdade e liberdade estar na lei não faz desaparecer os preconceitos. Mas todas as caminhadas são feitas de muitos passos e este não é sequer o primeiro...

    Recordo que deve haver por aqui umas palavras guardadas a respeito do filme Milk, que versa sobre o mesmo assunto e que muito me impressionou. E dá-me o mote para 'postar' mais uma frase daquelas que considero muito grandes.

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