"Chegou a casa ensopada. O cabelo colado ao rosto dava-lhe um ar simultaneamente sexy e digno de pena, pensou, enquanto subia a escada e procurava a chave na mala. Meu Deus! Porque é que trazia tanta coisa na mala?!?
Ouviu logo o telefone a tocar, assim que abriu a porta. Não conhecia o toque.
Descalçou-se à pressa, enfiando os pés encharcados e com meias nos fofos chinelos que mantinha sempre ao pé da porta. Pensou tarde demais que não o deveria ter feito...
«- Amor? Estás em casa? - o toque continuava - Amo-or?»
Finalmente descobriu o telemóvel, debaixo da cama. Era o dele. Deve ter caído sem dar por isso...Número privado? Vou atender, pode ser importante...
«Querido: Estou à tua espera há 15 minutos! Já percebeste que perdemos 15 minutos?...E o que já podíamos ter feito nestes 15 minutos...»
Largou o telefone, com o choque. Não ouviu mais nada. Ter-se-ia desligado?...Que importa?...De trabalho não era, naquele tom sussurrado...
«Quem?...como?...»
«Podia ser engano...»
«Não sejas parva!»
Estava presa ao chão do meio do quarto. Não conseguia mover-se.
Lá fora começaram a ribombar os trovões. Os relâmpagos iluminaram-na molhada, roupa colada ao corpo. Sexy ou digna de pena.
«Eu pensava que as trovoadas eram sempre efeitos especiais das cenas dramáticas nos filmes...» pensou surpreendida."
Em ortografia de antes do AO de 1940...
ResponderEliminarO echo
Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!
Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta.
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma!
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe.
- Outra que não Ella chamára tambem por Elle.
Almada Negreiros
Quantas vezes é o eco dos nossos maiores temores que ouvimos ao auscultarmos a realidade, não acha?
Sem dúvida! Os quiproquós que a nossa mente é capaz de inventar, nem nos passam pela cabeça. :-)
ResponderEliminarTouché!
ResponderEliminarMas se são inventados pela nossa mente, então passam-nos pela cabeça – o pior dos sítios para passagens...
A piada da frase era essa ironia. E eu hoje estou muito contentinha com as minhas frases - p'ra compensar os dias das pedrinhas da calçada!
ResponderEliminarObrigada por este estimulante ping-pong de textos. Não sei como cansegue...mas eu aprecio muito e lá me vou esforçando por corresponder.
Quanto à ironia, convoco o poeta como testemunha:
ResponderEliminarIronia
De tanto pensar na morte
Mais de cem vezes morri.
De tanto chamar a sorte
A sorte chamou-me a si.
Deu-me frutos duradoiros
A paz, a fortuna, o amor.
As musas vieram pôr
Na minha fronte os seus loiros...
Hoje o meu sonho procura
Com saudade a poesia
Dos tempos em que eu sofria...
— Que triste coisa a ventura!
Pedro Homem de Mello
Quanto ao como eu consigo, é simples: cada vez que alguém escreve um comentário por baixo de um meu, sou avisado por e-mail...
Mas não conte a ninguém!
(Estamos bonitos, estamos...)
ResponderEliminarComo é que consegue encontrar sempre um poema adequado!
A Escrivaninha conhece o "Livro do Desassossego"?
ResponderEliminarCada vez que leio um texto, ele adequa-se às circunstâncias. Se eu estou triste, ele é triste; se alegre, ele aumenta-me a alegria; se deprimido, quão deprimente ele é...
Acho que é a Escrivaninha que vê a adequação nos poemas...
Touché!
ResponderEliminar(mas não fica inteiramente isento de culpa)
Beijinhos
Sonhinhos coloridos, com ferragens arte-nova!
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