quarta-feira, 21 de abril de 2010

Efeitos Especiais

"Chegou a casa ensopada. O cabelo colado ao rosto dava-lhe um ar simultaneamente sexy e digno de pena, pensou, enquanto subia a escada e procurava a chave na mala. Meu Deus! Porque é que trazia tanta coisa na mala?!?
Ouviu logo o telefone a tocar, assim que abriu a porta. Não conhecia o toque.
Descalçou-se à pressa, enfiando os pés encharcados e com meias nos fofos chinelos que mantinha sempre ao pé da porta. Pensou tarde demais que não o deveria ter feito...
«- Amor? Estás em casa? - o toque continuava - Amo-or?»
Finalmente descobriu o telemóvel, debaixo da cama. Era o dele. Deve ter caído sem dar por isso...Número privado? Vou atender, pode ser importante...
«Querido: Estou à tua espera há 15 minutos! Já percebeste que perdemos 15 minutos?...E o que já podíamos ter feito nestes 15 minutos...»
Largou o telefone, com o choque. Não ouviu mais nada. Ter-se-ia desligado?...Que importa?...De trabalho não era, naquele tom sussurrado...
«Quem?...como?...»
«Podia ser engano...»
«Não sejas parva!»
Estava presa ao chão do meio do quarto. Não conseguia mover-se.
Lá fora começaram a ribombar os trovões. Os relâmpagos iluminaram-na molhada, roupa colada ao corpo. Sexy ou digna de pena.
«Eu pensava que as trovoadas eram sempre efeitos especiais das cenas dramáticas nos filmes...» pensou surpreendida."

9 comentários:

  1. Em ortografia de antes do AO de 1940...

    O echo

    Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!
    Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta.
    Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
    Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
    Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
    Foi-se triste para a tenda.
    Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma!
    E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe.
    - Outra que não Ella chamára tambem por Elle.


    Almada Negreiros

    Quantas vezes é o eco dos nossos maiores temores que ouvimos ao auscultarmos a realidade, não acha?

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  2. Sem dúvida! Os quiproquós que a nossa mente é capaz de inventar, nem nos passam pela cabeça. :-)

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  3. Touché!

    Mas se são inventados pela nossa mente, então passam-nos pela cabeça – o pior dos sítios para passagens...

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  4. A piada da frase era essa ironia. E eu hoje estou muito contentinha com as minhas frases - p'ra compensar os dias das pedrinhas da calçada!
    Obrigada por este estimulante ping-pong de textos. Não sei como cansegue...mas eu aprecio muito e lá me vou esforçando por corresponder.

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  5. Quanto à ironia, convoco o poeta como testemunha:

    Ironia

    De tanto pensar na morte
    Mais de cem vezes morri.
    De tanto chamar a sorte
    A sorte chamou-me a si.

    Deu-me frutos duradoiros
    A paz, a fortuna, o amor.
    As musas vieram pôr
    Na minha fronte os seus loiros...

    Hoje o meu sonho procura
    Com saudade a poesia
    Dos tempos em que eu sofria...

    — Que triste coisa a ventura!


    Pedro Homem de Mello


    Quanto ao como eu consigo, é simples: cada vez que alguém escreve um comentário por baixo de um meu, sou avisado por e-mail...
    Mas não conte a ninguém!

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  6. (Estamos bonitos, estamos...)
    Como é que consegue encontrar sempre um poema adequado!

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  7. A Escrivaninha conhece o "Livro do Desassossego"?

    Cada vez que leio um texto, ele adequa-se às circunstâncias. Se eu estou triste, ele é triste; se alegre, ele aumenta-me a alegria; se deprimido, quão deprimente ele é...

    Acho que é a Escrivaninha que vê a adequação nos poemas...

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  8. Touché!
    (mas não fica inteiramente isento de culpa)
    Beijinhos

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  9. Sonhinhos coloridos, com ferragens arte-nova!

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