domingo, 10 de janeiro de 2010

Um auto-retrato

"Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinquenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinquenta anos, mas tudo bem).
(...)
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho, ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda."
Antonio Prata, do texto "Bar Ruim é lindo, bicho"(2004), publicado na Antologia de Crônicas, Boa Companhia

4 comentários:

  1. Lá pelos Brasis a coerência é... realista.

    Corrida de amor

    Quando partiste, em pranto, descorada
    a face, o lábio trêmulo... confesso:
    arrebatou-me um verdadeiro acesso
    de raivosa paixão desatinada.

    Ia-se nos teus olhos, minha amada,
    a luz dos meus; então, como um possesso,
    quis arrojar-me atrás do trem expresso
    e seguir-te correndo pela estrada...

    "Nem há dificuldade que não vença
    tão forte amor!" pensei. Ah! como pensa
    errado o vão querer das almas ternas!

    Com denodo, atirei-me sobre a linha...
    Mas, ao fim de uns três passos, vi que tinha
    para tão grande amor, bem curtas pernas...


    Vicente de Carvalho

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  2. Este sabia tudo sobre o que queria e sobre o que não queria comer.

    Não comerei da alface a verde pétala

    Não comerei da alface a verde pétala
    Nem da cenoura as hóstias desbotadas
    Deixarei as pastagens às manadas
    E a quem maior aprouver fazer dieta.

    Cajus hei de chupar, mangas-espadas
    Talvez pouco elegantes para um poeta
    Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta
    Que acredita no cromo das saladas.

    Não nasci ruminante como os bois
    Nem como os coelhos, roedor; nasci
    Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

    E um bife, e um queijo forte, e parati
    E eu morrerei feliz, do coração
    De ter vivido sem comer em vão.


    Vinicius de Moraes

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  3. O auto-retrato


    No retrato que me faço
    – traço a traço –
    às vezes me pinto nuvem,
    às vezes me pinto árvore...

    às vezes me pinto coisas
    de que nem há mais lembrança...
    ou coisas que não existem
    mas que um dia existirão...

    e, desta lida, em que busco
    – pouco a pouco –
    minha eterna semelhança,

    no final, que restará?
    Um desenho de criança...
    Corrigido por um louco!


    Mário Quintana

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