sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

"Uma parte de nós é mimosa"

4 comentários:

  1. O poeta achava que mimosa era uma parte importante da vida dele...

    Noite de amores

    Mimosa noite de amores,
    Mimoso leito de flores,
    Mimosos, lânguidos ais!
    Vergôntea débil ainda,
    Tremia! Lua tão linda,
    Lembra-me ainda... Jamais!

    Aquela dália mimosa,
    Aquele botão de rosa
    Dos lábios dela... Senhor!
    Murchavam; mas, como a Lua,
    Passava a nuvem: «Sou tua»!
    Reverdeciam de amor!

    E aquela estátua de neve
    Como é que o fogo conteve
    Que não a vi descoalhar?
    Ondas de fogo, uma a uma,
    Naquele peito de espuma
    Eram as ondas do mar!

    Como os seus olhos me olhavam,
    Como nos meus se apagavam,
    E se acendiam depois!
    Como é que ali confundidas
    Se não trocaram as vidas
    E os corações de nós dois!

    Mimosa noite de amores,
    Mimoso leito deflores,
    Mimosos, lânguidos ais!
    Vergôntea débil ainda,
    Tremia! Lua tão linda,
    Lembra-me ainda... Jamais!


    João de Deus

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  2. Será que o poeta tinha mimo a mais?

    Fome indecisa

    Como hei-de saber o que desejo,
    Se tudo o que não tenho me apetece?
    A minha vida é mesmo essa quermesse
    Negativa.
    Vivo
    A sonar ser conviva
    Doutro banquete.


    Miguel Torga

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  3. A insatisfação não se consegue explicar...sente-se.
    Às vezes escreve-se, às vezes canta-se, às vezes cansa-se.
    António Variações deixou-nos um bom testemunho disso. Eu gosto particularmente do título:
    «Estou Além

    (...)
    Esta insatisfacao
    Nao consigo compreender
    Sempre esta sensacao
    Que estou a perder

    Tenho pressa de sair
    Quero sentir ao chegar
    Vontade de partir
    P'ra outro lugar

    Vou continuar a procurar
    A minha forma
    O meu lugar
    Porque até aqui eu só:
    Estou bem aonde eu nao estou
    Porque eu só quero ir
    Aonde eu nao vou
    Porque eu só estou bem
    Aonde eu nao estou
    Porque eu só quero ir
    Aonde eu nao vou
    Porque eu só estou bem
    Aonde nao estou
    (...)»

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  4. Que melhor mimo do que aquele que é acompanhado por um sorriso?

    Poeminha de insatisfação absoluta

    O que me dói
    É que quando está tudo acabado
    Pronto pronto
    Não há nada acabado
    Nem pronto pronto
    Pintou-me a casa toda
    Está tudo limpado
    O armário fechado
    A roupa arrumada
    Tudo belo, perfeito.
    E no mesmo instante
    Em que aperfeiçoamos a perfeição
    Uma lasca diminuta, ténue, microscópica,
    Não sei onde,
    Está começando
    Na pintura da casa
    E as traças, não sei onde,
    Estão batendo asas
    E a poeira, em geral, está caindo invisível,
    E a ferrugem está comendo não sei quê
    E não há jeito de parar.


    Millôr Fernandes

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