quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Resistência

"(...)
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
(...)
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
(...)
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"


José Régio, Cântico Negro

3 comentários:

  1. «Não queiras […] ser um navio perdido.»


    Nuvens correndo num rio

    Nuvens correndo num rio
    Quem sabe onde vão parar?
    Fantasma do meu navio
    Não corras, vai devagar!

    Vais por caminhos de bruma
    Que são caminhos de olvido.
    Não queiras, ó meu navio,
    Ser um navio perdido.

    Sonhos içados ao vento
    Querem estrelas varejar!
    Velas do meu pensamento
    Aonde me quereis levar?

    Não corras, ó meu navio
    Navega mais devagar,
    Que nuvens correndo em rio,
    Quem sabe onde vão parar?

    Que este destino em que venho
    É uma troça tão triste;
    Um navio que não tenho
    Num rio que não existe.


    Natália Correia

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  2. Obrigada.
    A navegação está muito difícil, nos «caminhos de olvido», imersos em brumas de incoerência e vacuidade.

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  3. «Quem […] conhece o equilíbrio das evidências serenas?»


    Um astro

    Ouve a longa incoerência da palavra e a memória
    do sangue que se apaga. Ouve a terra taciturna.
    Tudo é furtivo e as sombras não acolhem. Nenhum jardim
    de segredos. Nenhuma pátria entre as ervas e a areia.
    Onde é que nasce a sombra e a claridade?
    Eis as vertentes da terra árida e negra. Quem
    reconhece o equilíbrio das evidências serenas?
    Estas palavras têm o odor de portas enterradas.
    Como dominar a desmesura da ausência e a vertigem?
    Como reunir o obscuro em palavras evidentes?
    Escuta, escuta a longa incoerência da terra
    e da palavra. Ao longo da distância
    murmura a perfeição monótona de um mar.
    Num pudor de esquecimento um astro se aveluda
    em denso azul na corola do silêncio.


    António Ramos Rosa

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