sábado, 7 de novembro de 2009

Perplexidade

Se existem, nos supermercados, produtos próprios para os que são intolerantes a diversas substâncias - como o glúten ou a lactose - porque é que não existem nos locais de trabalho, chefias próprias para os que são intolerantes à estupidez e à prepotência?

4 comentários:

  1. minha amiga, algo parecido com isso ando eu a perguntar há anos...

    (espero sinceramente que tenha mais sorte)

    ResponderEliminar

  2. A fábula do chefe perfeito


    Pouco tempo depois de o Senhor Deus criar o homem do pó da terra e insuflar-lhe pelas narinas o sopro da vida, transformando-o num ser vivo, todos os órgãos do corpo recém-criado queriam ser o chefe. E os argumentos que cada um deles apresentou para assumir a chefia foram os mais diversos.

    O cérebro dizia com a arrogância própria dos cérebros: "Eu penso por todos vocês. Eu sou a inteligência. Eu controlo tudo por meio das ações dos meus neurônios. Então, se alguém aqui tem que ser chefe, esse alguém sou eu."

    "Nós é que devemos assumir a chefia, pois somos nós que transportamos todo o corpo aos mais diversos lugares. Ainda que o cérebro queira ir a algum lugar, se nós não quisermos levá-lo então o corpo não vai a lugar algum" falaram as pernas em coro recusando o falacioso argumento da cinzenta massa.

    E as mãos: "Isso é pura bobagem. Nós executamos todo o trabalho e é com ele que ganhamos dinheiro para o corpo sobreviver. É com esse dinheiro que todo o resto do corpo se mantém. Nós vamos ser o chefe."

    "Onde não há sangue não há vida. Quem manda o sangue a todas as partes do corpo sou eu. Portanto, eu devo ser o escolhido". Foi o que o coração falou tentando deixar de lado toda a emoção do momento.

    A certa altura, ninguém entendia mais o que os outros falavam, pois todos falavam ao mesmo tempo, até a própria boca. Os pulmões ficaram arquejantes. Os olhos, irritados. O fígado e os rins reclamavam e, até mesmo, os intestinos se manifestaram provocando um grande mal-estar.

    De repente, fez-se um inexplicável silêncio e ouviu-se uma voz muito grave e solene:

    - Quem vai ser o chefe sou eu.

    Quem falava isso era o Olho do Cu. E todos deram uma sonora gargalhada. Afinal de contas, ele nunca havia sido levado a sério. Nunca nada fizera por merecer qualquer atenção, a não ser alguns ruídos ininteligíveis e fedorentos. E merda, muita merda. Mas o Olho do Cu insistiu:

    - Quem vai ser o chefe sou eu. Querem ver?

    E mais não disse. Nem fez. Fechou-se em si mesmo, ou em copas como dizem alguns, numa imagem bem apropriada. Enfim, deixou de funcionar.

    Em poucos dias, o cérebro não mais conseguia raciocinar direito. Não pensava mais quase nada e o controle, de que ele tanto se orgulhava, quase sucumbiu. Os olhos ficaram embaçados. As pernas não mais se punham em pé e as mãos pendiam flácidas sob braços enfraquecidos. As batidas do coração ficaram imperceptíveis de tão débeis. Os pulmões estavam nas últimas. Todos sobreviviam com dificuldade. O corpo estava à beira da falência total: a morte.

    Sem alternativa, todos os órgãos concordaram em reunir-se ao final do expediente. A essa altura, você, inteligente e perspicaz leitor já deve ter imaginado qual o desfecho da reunião. Isso mesmo: o Olho do Cu foi designado, aclamado e aceito por todos como Chefe.

    A partir daí, as coisas começaram a se normalizar. Cada uma das partes do corpo fazia o seu trabalho enquanto o Olho do Cu a tudo observava, organizava e dirigia. Mas, principalmente, fazia o que dele se esperava: merda, muita e muita merda tal como convém a qualquer chefe digno dessa função.

    É comum essas fábulas terminarem com uma Moral da História. Para não destoar do padrão, aí vai a grande mensagem:

    Não é necessário ser um cérebro nem ter uma grande inteligência para ser o Chefe. Um simples Cu, que passa todo o tempo a fazer merda, pode muito bem ser o Chefe.

    E se, neste momento, você estiver em seu trabalho, em sua repartição dê uma olhada de soslaio para o seu chefe e veja se isso não é a pura verdade.


    (roubado aí pela net...)

    ResponderEliminar
  3. Meus amigos!
    Muito obrigada pela solidariedade e pela hilariedade.
    Eu, que estava mais ou menos desesperada, já chorei a rir.
    Mendes, eu não sei como consegue...mas não há palavras às quais não consiga fazer uma ligação!
    Caramba! Está tudo explicado!
    E a tentação que eu tenho agora de fazer fotocópias da fábula para afixar, distribuir!...:-)
    Muitas Partículas de Felicidade recebi esta tarde de sábado, em que já houve quem questionasse a Criação do Homem. Será que os outros animais têm sentido de humor? Creio que é uma discussão que anda por aí também...
    Mais uma vez, josé luis e Mendes, muito obrigada!

    ResponderEliminar
  4. Desconfio que sim, os animais têm sentido de humor.

    Vejamos este relato:

    Cão

    Cão passageiro, cão estrito
    Cão rasteiro cor de luva amarela,
    Apara-lápis, fraldiqueiro,
    Cão liquefeito, cão estafado
    Cão de gravata pendente,
    Cão de orelhas engomadas,
    de remexido rabo ausente,
    Cão ululante, cão coruscante,
    Cão magro, tétrico, maldito,
    a desfazer-se num ganido,
    a refazer-se num latido,
    cão disparado: cão aqui,
    cão ali, e sempre cão.
    Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
    cão a esburgar o osso
    essencial do dia a dia,
    cão estouvado de alegria,
    cão formal de poesia,
    cão-soneto de ão-ão bem martelado,
    cão moído de pancada
    e condoído do dono,
    cão: esfera do sono,
    cão de pura invenção,
    cão pré-fabricado,
    cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
    cão de olhos que afligem,
    cão problema...
    Sai depressa, ó cão, deste poema!


    Alexandre O'Neill

    ResponderEliminar