Abre amanhã, no Vaticano, a exposição sobre Galileu.
Há 400 anos atrás, os poderosos da época, que se consideravam guardiões dos segredos do conhecimento, condenaram Galileu Galilei, pela audácia de afirmar a sua descoberta do heliocentrismo.
A novidade e a lógica - a evidência - foram consideradas perigosas e, como tal, extirpadas.
Galileu na humildade da sua sabedoria, teve de ceder perante a Autoridade da época
"Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las - ,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal e qual
conforme suas eminências desejavam, e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal."
António Gedeão, Poema para Galileu
Em 1992 (!) a Igreja reconheceu o erro da condenação de Galileu e homenageia-o agora, com uma exposição que se anuncia como muito completa, para assinalar o Ano da Astronomia.
Galileu morreu sem ser aceite pelos «aceitadores de verdades» da época; sabendo que tinha razão e tendo de aceitar a estupidez instituída e modeladora do mundo, os que utilizam o Poder na sua auto-manutenção, disparando 'a matar' sobre todo e qualquer movimento do Conhecimento. Porque viviam no medo, no medo de que alguém tivesse conhecimento suficiente para perceber a insustentabilidade racional da sua Autoridade, no medo que os impedia de tentar Compreender, de poder ter o prazer de aprender, de se entregar ao diálogo profícuo, da troca de saberes...pois, se eles não tinham para a troca... se não consideravam ser possível viver na segurança de nunca estar certo, de saber que o Conhecimento é um processo interminável.
Gedeão descreve Galileu como um homem misericordioso perante a ignorância feita instituição. Será que era assim? Esperemos que sim, que ele tenha podido desfrutar das suas certezas, sem se angustiar com o atraso irremediável a que a civilização se vota a si mesma ao deixar-se chefiar por aqueles que lhe oferecem o conforto e segurança de uma Verdade Eterna.
"Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos.
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade."
António Gedeão, Poema para Galileu
Afinal, o que quereria Gedeão dizer? Que a busca do saber é uma missão tormentosa? Que os desígnios divinos explicam os diferentes caminhos na terra? Que o conhecimento traz consigo a intranquilidade?
E de quem será o Reino dos Céus, afinal?
Porque o da Terra, ao que vem constando, pertence dos pobres de espírito!
400 Anos depois! Astrum 2009 ou a impossibilidade de sufocar para sempre o Conhecimento.
como existem dois tipos de explicação do mundo, a das religiões e a proposta pela ciência, e todas sempre conviveram entre os homens que as viveram - o conflito teria sido sempre inevitável...
ResponderEliminarquando galileu, um velho doente de quase 70 anos, foi julgado em 1633 pelo tribunal do santo ofício, não era já de todo o heliocentrismo que estava a ser avaliado (e condenado). a igreja, pelo menos uma parte dela, quis dar um exemplo - e não teve a clarividência necessária para perceber que esse mesmo julgamento iria marcá-la para sempre com o selo da intolerância e do obscurantismo... o processo de galileu, resumido por muita gente pela expressão "eppur, si muove" tornou-se 400 anos depois uma espécie de exemplo de negação da própria justiça.
curioso é hoje haver quase a certeza de que galileu nunca pronunciou aquela frase (que teria sido uma invenção romântica) e muita gente estudiosa afirmar que galileu, um cientista consagrado e admirado por toda a gente, inclusive pelo papa urbano viii, só foi a julgamento por se ter tornado num desafio a uma autoridade - e não por revelar uma abordagem nova dada pela ciência...
o processo galileu é o processo intentado por uma crença a uma certa ciência, por um dogma a um génio intelectual - mas é também o de um homem de ciência cuja arrogância e superioridade intelectual terá desesperado uma certa facção da igreja que - sabe-se hoje - até estaria eventualmente disposta a mostrar-se bem mais tolerante, antes de exasperar o papa, que se sabe hoje ter sido um seu amigo sincero.
galileu serviu também de bode expiatório, e de arma contra o crescimento do protestantismo - e foi essa dimensão das lutas internas da igreja e da resistência dos estados laicos que sempre terá escapado a galileu - um espírito genial que sabia ter razão mas que julgou que a verdade poderia ser mais forte que os dogmas...
estes e outros comentários foram-me transmitidos pelo meu muito querido e saudoso professor de química rómulo de carvalho, na altura já jubilado no liceu pedro nunes, mas que ainda gostava de dar certas aulas especiais para despertar nos seus alunos o interesse pela ciência...
é claro que na altura desconhecíamos que ele era antónio gedeão, eu só o soube um ou dois anos depois, logo depois de 74 - numa altura em que já se tinha retirado definitivamente.
por isso lhe quero agradecer este seu post - voltei a galileu, voltei ao liceu e, claro, a gedeão... já viu do que as palavras são capazes?
Galileu, um homem que sofreu pela intolerância da Igrja Católica Apostólica Romana.
ResponderEliminarÉ pena que ainda hoje ainda não se possa ser livre no seu proprio pais.
Mas enquanto que hoje se calam a ver tal problema para o Homem, continua-se a pisar erros passados, ja encerrados para o mundo.
Em vez de se aprender com os erros de uns e tentar que não se voltem a concretizar, contudo é mais facil falarmos do passado, mas muito dificil ver os erros desta sociedade contemporanea.
Não nos limitemos a olhar mas tentarmos sim fazer parte desta grande comunidade, ainda tão semlhante à da idade media.
[…]
ResponderEliminarMal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores
deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões
de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer,
homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
António Gedeão
Ena! Tantas «partículas de felicidade» me trouxe este post!
ResponderEliminarTão bom quando as palavras se tornam veículos de viagens a lugares maravilhosos da nossa memória! E que fantástico deve ser poder recordar "ao vivo" Rómulo de Carvalho, que tenho ouvido ser invocado como o protótipo do Professor.
Mas é verdade que nos é muito mais fácil julgar o passado enquanto ignoramos o presente. E que somos muito «medievais» sobretudo a restaurarmos prontamente o Medo, que afinal sempre foi Rei das nossas atmosferas colectivas.
Seria bom que nos servíssemos de analogias com tempos passados para compreender os «quadrados dos tempos» em que vivemos e que pudéssemos fazer «cair, cair, cair sempre» as Autoridades Barrocas e Bacocas que se sentem senhoras de pequenos mundos, exercendo o seu poder sem sentido; seria bom que não esperássemos 400 anos para nos congratularmos com a justiça feita.
Precisamos muito de herois, mas todos os que encontramos estão mortos, nas páginas dos livros de História.
Talvez aa palavras em Poesia nos ajudem a ter coragem, a não desistir, a enfrentar os dragões dos tempos modernos.
Obrigada pelos vossos comentários!