domingo, 27 de setembro de 2009

A luz do entardecer

incidindo sobre os rendilhados de pedra do Mosteiro da Batalha.

1 comentário:

  1. Poema da pedra lioz

    Álvaro Góis,
    Rui Mamede,
    filhos de António Brandão,
    naturais de Catanhede,
    pedreiros de profissão,
    de sombrias cataduras
    como bisontes lendários,
    modelam ternas figuras
    na lentidão dos calcários.

    Ali, no esconso recanto,
    só o túmulo, e mais nada,
    suspenso no roxo pranto
    de uma fresta geminada.
    Mas no silêncio da nave,
    como um cinzel que batuca,
    soa sempre um truca...truca...
    lento, pausado, suave,
    truca, truca, truca, truca,
    sob a abóbada romântica,
    como um cinzel que batuca
    numa insistência satânica:
    truca, truca, truca, truca,
    truca, truca, truca, truca.

    Álvaro Góis,
    Rui Mamede,
    filhos de António Brandão,
    naturais de Cantanhede,
    ambos vivos ali estão,
    truca, truca, truca, truca,
    vestidos de surrobeco
    e acocorados no chão,
    truca, truca, truca, truca.

    No friso, largo de um palmo,
    que dá volta a toda a arca,
    um cristo, de gesto calmo,
    assiste ao chegar da barca.
    Homens de vária feição,
    barrigudos e contentes,
    mostram, no riso dos dentes
    o gozo da salvação.
    Anjinhos de longas vestes,
    e cabelo aos caracóis,
    tocam pífaro celestes,
    entre cometas e sóis.
    Mulheres e homens, sem paz,
    esgaseados de remorsos,
    desistem de fazer esforços,
    entregam-se a Satanás.

    Fixando a pedra, mirando-a,
    quanto mais o olhar se educa,
    mais se estende o truca...truca...
    que enche a nave, transbordando-a,
    truca, truca, truca, truca
    truca, truca, truca, truca.

    No desmedido caixão,
    grande senhor ali jaz.
    Pupilo de Satanás?
    Alma pura, de eleição?
    Dom Afonso ou Dom João?
    Para o caso tanto faz.


    António Gedeão

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