sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Algumas pessoas pensam que para ser pastor basta encostar-se ao cajado

4 comentários:

  1. Quem pastoreia por amor, não há cajado que lhe valha...

    Sete anos de pastor Jacob servia

    Sete anos de pastor Jacob servia
    Labão, pai de Raquel, serrana bela;
    Mas não servia ao pai, servia a ela,
    E a ela só por prémio pretendia.

    Os dias, na esperança de um só dia,
    Passava, contentando-se com vê-la;
    Porém o pai, usando de cautela,
    Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

    Vendo o triste pastor que com enganos
    Lhe fora assi negada a sua pastora,
    Como se a não tivera merecida;

    Começa de servir outros sete anos,
    Dizendo: – Mais servira, se não fora
    Para tão longo amor tão curta a vida!


    Luís de Camões

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  2. A minha mãe enunciava muitas vezes estes versos! Já me tinha esquecido...
    Como a sua referência, num outro comentário, ao Casimiro, personagem das palavras de Sérgio Godinho, de quem também não me recoradava; e havia também uma Etelvina...
    (Isto hoje está a sair-me mais ao género «RTP Memória»)

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  3. Etelvina

    Etelvina com seis meses já se tinha de pé
    Foi deixada num cinema depois da matinée
    Com um recado na lapela que dizia assim
    «Quem tomar conta de mim,
    quem tomar conta de mim
    Saiba que fui vacinada,
    Saiba que sou malcriada.»

    Etelvina com dezasseis anos já conhecia
    Todos os reformatórios da terra onde vivia
    Entregaram-na a uma velha que ralhava assim
    «Ai menina sem juízo
    nem mereces um sorriso
    Vais acabar num bueiro
    sem futuro nem dinheiro.»

    "Eu durmo sozinha à noite
    Vou dormir à beira rio à noite, à noite
    Acocorada com o rio à noite, à noite"

    Etelvina era da rua como outros são do campo
    Sua cama era um caixote sem paredes nem tampo
    Sua janela uma ponte que dizia assim:
    «Dentro das minhas cidades
    já não sei quem é ladrão
    Se um que anda fora de grades
    se outro que está na prisão.»

    Etelvina só gostava era de andar pela cidade
    A semear desacatos e a colher tempestades
    A meter-se c’os ricaços, a dizer assim:
    «Você que passa de carro
    Ferre aqui a ver se eu deixo
    Venha cá que eu já o agarro
    Dou-lhe um pontapé no queixo.»

    "Eu durmo sozinha à noite
    Vou dormir à beira rio à noite, à noite
    Acocorada com o rio à noite, à noite"

    Etelvina já cansada de viver sem ninguém
    A não ser de vez em quando amores de vai e vem
    Pôs um anúncio no jornal que dizia assim:
    «Mulher desembaraçada
    Quer viver com alma irmã
    De quem não seja criada
    De quem não seja mamã.»

    Etelvina já sabia que não ia encontrar
    Nem um príncipe encantado nem um lobo do mar
    Só alguém com quem pudesse dizer assim:
    «O amor já não é cego
    Abre os olhinhos à gente
    Faz lutar com mais apego
    A quem quer vida diferente.»

    O seu homem encontrou-o à noite
    A dormir à beira rio, à noite, à noite
    Acocorado com frio à noite, à noite.


    Sérgio Godinho

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