Sei que é um dia como os outros, sei que nada distingue (do ponto de vista objectivo, físico) estas horas que marcam o fim de um ano e o início de outro de todas as outras que passamos ao longo de cada ano, mas também sei que o Homem ( e a Mulher, ainda mais) vive de coisas que não são só concretas: são simbólicas. E que esse simbolismo é tão concreto para certas pessoas que se torna numa coisa real, palpável quase.
É mais um dia, eu sei.
Mas não é um dia qualquer: é uma oportunidade. De começar de novo. Pode ser tudo outra vez ou um pretexto para inovar.
Eu sei, pode parecer ridículo, mas esta época enche-me de esperança e de entusiasmo.
A festa está marcada, a mesa reservada, as passas compradas, os desejos pensados...Junto à porta estão vários sacos com coisas que quero estrear amanhã - este ano, surpreendentemente para a casa: relógios, tapetes e louça, marcam uma nova roupagem para 2012. A minha casa vai assinalar "A Virada".
Necessariamente sou pessoa de fazer o balanço do ano que agora termina.
Este ano foi um ano de conclusões. Conclusões a que cheguei. Conclusões de coisas começadas, conclusões de coisas percebidas. Foi talvez um ano de finalização, de fechos, de arrumações, de vitórias (grandes vitórias!) e becos sem saída ou cuja saída lógica é concluir pela inversão de marcha ou talvez (muito mais do meu agrado) esclar a parede e enfrentar todo um mundo novo do outro lado.
Preciso que este ano seja um ano de novos começos.
Olho à volta: a música de Natal toca aos berros na aparelhagem, o telemóvel, que está a carregar para ter energia toda a noite, agita-se de quando em quando, para assinalar a chegada de mais uma mensagem dos que se lembram de mim. E são tantos, caramba! Agradeço mentalmente todos os amigos que fui fazendo e mantendo ao longo da vida. Alguns perdi-os, mas muito poucos, felizmente.
A minha gata repousa em cima do artigo sobre o arquivo de Eduardo Lourenço. De vez em quando levanta a focinho para mim. Faço-lhe festas, vaidosamente, apreciando como fica bem uma mão de unhas vermelhas sobre o pelo preto de um gato, perdão, uma gata.
A vida segue daqui a pouco, mas com outra força: a força de m recomeço, de uma renovação, de uma oportunidade, de um pretexto, que espero saber aproveitar.
Feliz Ano Novo!
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sábado, 31 de dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Tempo de Decisões
"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração"
António Ramos Rosa
colhido em [poedia] s/ título
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração"
António Ramos Rosa
colhido em [poedia] s/ título
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
"- muito bem, crianças, intervalo de meia hora! sintam-se livres para fazerem o que quiserem !
- professora?
- sim?
- o que eu quero fazer?"
J.R.Lima in http://miniminimos.blogspot.com/
- professora?
- sim?
- o que eu quero fazer?"
J.R.Lima in http://miniminimos.blogspot.com/
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Palavras Doridas
Chorar, com propriedade
Às vezes penso que o facto de chorarmos ao ler um livro ou ver um filme, depende mais da nossa vontade de chorar do que daquilo que lá está escrito.
Procurei um livro de Alice Vieira que tinha visto há meses nos escaparates e comprei-o ontem, já tarde, num centro comercial.
Hoje tenho dia inteiramente livre! Livre, de todo. Sem qualquer compromisso.
(Claro que tenho de limpar e arrumar, espreitam papéis e sobejam roupas a precisar de escolha, mas, para além de estender uma roupa que a máquina lavou durante a noite, hoje nada ficará por fazer, porque não há nada para fazer).
O sol brilha lá fora, iluminando muito as folhas que ainda persistem nas árvores e apetece-me imitar a roupa e colocar-me ao sol, a beneficiar do sol, no imenso terraço que comprei, quando percebi que trazia um pequeno apartamento anexo e dava para dormir de noite depois de tomar sol dia fora.
Coloquei em cima da mesa o Jornal de Letras e o livro de crónicas de Alice Vieira.
(Podia ter lido o JL na biblioteca pública, mas, comprá-lo, ostentá-lo debaixo do braço...reconheço que é uma vaidade que procura convencer-me - a mim e ao mundo - de que sou uma intelectual).
As crónicas de Alice Vieira são sempre de uma veracidade desconcertante. O texto parece ser de uma mulher como nós próprias, de alguém que sabe transmitir para o papel uma vida simples e verdadeira.
De repente, a despropósito, as lágrimas omeçaram a correr. Acho que foi no texto do Pai Natal, depois no dos amigos, na festa de fim de ano do Diário de Notícias, até no da camisola verde, que só poderia despertar um sorriso.
As lágrimas rolaram por muitos textos fora. Mesmo nas crónicas do JL, mesmo nas sugestões de leitura.
Acabei exausta e feliz. Como se chegasse a casa depois de um exercício revigorante.
Precisava tanto de chorar! De ter tempo para chorar.
As revistas não falam disto: alongam-se em artigos sobre o tempo de sorrir, de nos mimarmos, de nos divertirmos, de encher a nossa vida de actividades frenéticas e estonteantes...
Pois eu só precisava de tempo para estar, para olhar para as letras, para me sentir em casa e chorar.
Por vezes penso que o riso está sobrevalorizado. Desconfio de pessoas que sorriem muito, como se tivessem pintado um sorriso no rosto a despropósito, ou fossem surdas e não estivessem a acompanhar a conversa, ou fossem parvas, ou ignorantes, como aqueles todos que continuámos com os auscultadores sem som a ouvir a comunicação dos suecos, depois de ter terminado o turno da tradução simultânea naquele longínquo congresso internacional sobre cultura. Tenho pena das pessoas que soltam gargalhadas estridentes durante festas inteiras: não podem ser sérias. A sério, ninguém tem vontade de rir assim, todos os dias, as festas todas, ano após ano, que nos encontramos...
Também não tenho paciência para as pessoas que choramingam. Até o verbo parece um diminuitivo desgraçado de uma acção a sério: choramingar, mingar, minguar, diminuir, ficar pequenino ou sinsignificante, ou irritante, ou liliputiano agarrando-nos por um um tornozelo, montado no nosso sapato, choraminguando o nosso dia a dia...
Já chorar a sério é um exercício de respeito. Grossas lágrimas brotam do fundo de nós, sacodem o pó dos dias, limpam as alergias recorrentes. Porque choro assim? Não sei. Mas sabe-me a ritual de purificação. Como o chá de Hipiricão do Gerês depois dos excessos das festas, como os abdominais, tentando limpar a banhita teimosa de filhoses e batatas fritas, como afirmar que estou viva e me recomendo para lá do torpor dos dias cheios de pequeninas irritações, de sorrisos falsos e de mesuras, de revirar de olhos contidos no cruzar quotidiano com aqueles que partilham connosco títulos de que os achamos imerecedores. E que dores! São dores quotidianas, arrumadas em caixas insonorizadas, mas que afinal estão cá todas.
Este primeiro período lectivo foi extenuante! Centenas de crianças a que lecciono só uma vez por semana, dúzias de testes e trabalhos que me ocuparam as noites todas, para quase não ter tempo de exprimir nas reuniões a minha opinião, porque tínhamos de preencher o impresso A e agrelha B, não nos esquecermos do plano de recuperação, de rectificar os sumários, que a inspecção do ano anterior viu a nossa incompetência nos que se esqueceram de cortar a caneta o quadradinho das faltas nos dias de casa cheia. Como pode um professor ser tão incompetente - ainda por cima sabendo que está a ser avaliado! - mesmo inconsciente e não cumprir uma das suas obrigações primeiras para com o saber? Escrever o sumário, assinalar as faltas ou indicar a ausência delas. Ah! Sentimo-nos agora muito mais competentes! Agora que sei que é mais importante assinar o sumário que dar a aula, preencher o impresso que ouvir a criança, ou escrever num quadradinho a actividade que se fez, mesmo que não se tenha feito.
Tanta competência e convivência reprimida tinha de sair por algum lado. As minhas lágrimas grossas vinham escuras, como a água das torneiras que estão muitos dias por abrir. Precisava tanto de chorar. Precisava tanto de limpar, de saber que sou dona das minhas lágrimas, do meu silêncio, da minha força de existir. Assim, sozinha, num espaço sem obrigações, numa tarde sem impressos para preencher. Sozinha, com a emoção de estar sozinha, de poder ser eu, de não ter de fingir, de poder não cumprir, de me cumprir só a mim. A mim, dona do meu ser, da escolha dos livros com que quero chorar, das letras que quero ler, dos autores com quem me quero partilhar. Sem dar explicações. Sem ter explicações, nem para mim própria.
Ter um dia para existir assim, é de viver e chorar por mais.
Procurei um livro de Alice Vieira que tinha visto há meses nos escaparates e comprei-o ontem, já tarde, num centro comercial.
Hoje tenho dia inteiramente livre! Livre, de todo. Sem qualquer compromisso.
(Claro que tenho de limpar e arrumar, espreitam papéis e sobejam roupas a precisar de escolha, mas, para além de estender uma roupa que a máquina lavou durante a noite, hoje nada ficará por fazer, porque não há nada para fazer).
O sol brilha lá fora, iluminando muito as folhas que ainda persistem nas árvores e apetece-me imitar a roupa e colocar-me ao sol, a beneficiar do sol, no imenso terraço que comprei, quando percebi que trazia um pequeno apartamento anexo e dava para dormir de noite depois de tomar sol dia fora.
Coloquei em cima da mesa o Jornal de Letras e o livro de crónicas de Alice Vieira.
(Podia ter lido o JL na biblioteca pública, mas, comprá-lo, ostentá-lo debaixo do braço...reconheço que é uma vaidade que procura convencer-me - a mim e ao mundo - de que sou uma intelectual).
As crónicas de Alice Vieira são sempre de uma veracidade desconcertante. O texto parece ser de uma mulher como nós próprias, de alguém que sabe transmitir para o papel uma vida simples e verdadeira.
De repente, a despropósito, as lágrimas omeçaram a correr. Acho que foi no texto do Pai Natal, depois no dos amigos, na festa de fim de ano do Diário de Notícias, até no da camisola verde, que só poderia despertar um sorriso.
As lágrimas rolaram por muitos textos fora. Mesmo nas crónicas do JL, mesmo nas sugestões de leitura.
Acabei exausta e feliz. Como se chegasse a casa depois de um exercício revigorante.
Precisava tanto de chorar! De ter tempo para chorar.
As revistas não falam disto: alongam-se em artigos sobre o tempo de sorrir, de nos mimarmos, de nos divertirmos, de encher a nossa vida de actividades frenéticas e estonteantes...
Pois eu só precisava de tempo para estar, para olhar para as letras, para me sentir em casa e chorar.
Por vezes penso que o riso está sobrevalorizado. Desconfio de pessoas que sorriem muito, como se tivessem pintado um sorriso no rosto a despropósito, ou fossem surdas e não estivessem a acompanhar a conversa, ou fossem parvas, ou ignorantes, como aqueles todos que continuámos com os auscultadores sem som a ouvir a comunicação dos suecos, depois de ter terminado o turno da tradução simultânea naquele longínquo congresso internacional sobre cultura. Tenho pena das pessoas que soltam gargalhadas estridentes durante festas inteiras: não podem ser sérias. A sério, ninguém tem vontade de rir assim, todos os dias, as festas todas, ano após ano, que nos encontramos...
Também não tenho paciência para as pessoas que choramingam. Até o verbo parece um diminuitivo desgraçado de uma acção a sério: choramingar, mingar, minguar, diminuir, ficar pequenino ou sinsignificante, ou irritante, ou liliputiano agarrando-nos por um um tornozelo, montado no nosso sapato, choraminguando o nosso dia a dia...
Já chorar a sério é um exercício de respeito. Grossas lágrimas brotam do fundo de nós, sacodem o pó dos dias, limpam as alergias recorrentes. Porque choro assim? Não sei. Mas sabe-me a ritual de purificação. Como o chá de Hipiricão do Gerês depois dos excessos das festas, como os abdominais, tentando limpar a banhita teimosa de filhoses e batatas fritas, como afirmar que estou viva e me recomendo para lá do torpor dos dias cheios de pequeninas irritações, de sorrisos falsos e de mesuras, de revirar de olhos contidos no cruzar quotidiano com aqueles que partilham connosco títulos de que os achamos imerecedores. E que dores! São dores quotidianas, arrumadas em caixas insonorizadas, mas que afinal estão cá todas.
Este primeiro período lectivo foi extenuante! Centenas de crianças a que lecciono só uma vez por semana, dúzias de testes e trabalhos que me ocuparam as noites todas, para quase não ter tempo de exprimir nas reuniões a minha opinião, porque tínhamos de preencher o impresso A e agrelha B, não nos esquecermos do plano de recuperação, de rectificar os sumários, que a inspecção do ano anterior viu a nossa incompetência nos que se esqueceram de cortar a caneta o quadradinho das faltas nos dias de casa cheia. Como pode um professor ser tão incompetente - ainda por cima sabendo que está a ser avaliado! - mesmo inconsciente e não cumprir uma das suas obrigações primeiras para com o saber? Escrever o sumário, assinalar as faltas ou indicar a ausência delas. Ah! Sentimo-nos agora muito mais competentes! Agora que sei que é mais importante assinar o sumário que dar a aula, preencher o impresso que ouvir a criança, ou escrever num quadradinho a actividade que se fez, mesmo que não se tenha feito.
Tanta competência e convivência reprimida tinha de sair por algum lado. As minhas lágrimas grossas vinham escuras, como a água das torneiras que estão muitos dias por abrir. Precisava tanto de chorar. Precisava tanto de limpar, de saber que sou dona das minhas lágrimas, do meu silêncio, da minha força de existir. Assim, sozinha, num espaço sem obrigações, numa tarde sem impressos para preencher. Sozinha, com a emoção de estar sozinha, de poder ser eu, de não ter de fingir, de poder não cumprir, de me cumprir só a mim. A mim, dona do meu ser, da escolha dos livros com que quero chorar, das letras que quero ler, dos autores com quem me quero partilhar. Sem dar explicações. Sem ter explicações, nem para mim própria.
Ter um dia para existir assim, é de viver e chorar por mais.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Afinal o tempo não cura tudo.
Há 39 anos atrás pensávamos retomar a vida normal depois de um Natal «na terra» quando a morte desceu sobre a minha família, forrando de luto os anos que se seguiram.
Procurei uma memória bonita da minha infância e tropecei de ouvido na única música de Natal francesa que conheço. Tinha o disco, este mesmo disco, só que com uma capa ligeiramente diferente: uma menina loirinha ajoelhada diante do presépio. Tão igual a uma das poses das fotos de Natal lá de casa, que recebi o disco pela semelhança. Ouvi-o muitas vezes. Gostei de o encontrar no youtube e de recordar que a cachopa - que deve ser cienquentona agora - se chamava Patricia Patoune.
Falava de uma mãe natal e encaixava bem no tempo em que a palavra pai (mesmo que natal) me soava sempre a ausência.
Procurei uma memória bonita da minha infância e tropecei de ouvido na única música de Natal francesa que conheço. Tinha o disco, este mesmo disco, só que com uma capa ligeiramente diferente: uma menina loirinha ajoelhada diante do presépio. Tão igual a uma das poses das fotos de Natal lá de casa, que recebi o disco pela semelhança. Ouvi-o muitas vezes. Gostei de o encontrar no youtube e de recordar que a cachopa - que deve ser cienquentona agora - se chamava Patricia Patoune.
Falava de uma mãe natal e encaixava bem no tempo em que a palavra pai (mesmo que natal) me soava sempre a ausência.
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Chegou o Inverno! Feliz Natal!
Para todos os meus amigos e conhecidos que por aqui passam e para todos os que por aqui passam e queiram aderir à categoria de amigos e conhecidos, desejo Boas Festas.
De todo o coração.
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