Duas formigas japonesas encontram-se no meio da rua.
- Olá. Como te chamas?
- Fu
- Fu, quê?
- Fu Miga. E tu?
- Ota
- Ota, quê?
- Ota Fu Miga
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
Insubmissa
É uma palavra que eu quero guardar.
Talvez um dia necessite de a recordar.
Hoje de manhã, ouvi de novo o conselho (da uma décima pessoa, creio) que me incita a ir ao médico e a tomar uns antidepressivozitos, para acalmar, facilitar a integração...
E quando eu digo que não sou eu que estou errada e não tenho por isso de ser eu a relevar as coisas, as pessoas reforçam o conselho.
Talvez um dia tenha de ceder.
Talvez possa depois vir aqui recordar a minha vida anterior. Ou a minha vida, não dominada por drogas que me criem um espírito submisso ou me façam ver borboletas e passarinhos nas margens dos memorandos castradores.
Talvez um dia necessite de a recordar.
Hoje de manhã, ouvi de novo o conselho (da uma décima pessoa, creio) que me incita a ir ao médico e a tomar uns antidepressivozitos, para acalmar, facilitar a integração...
E quando eu digo que não sou eu que estou errada e não tenho por isso de ser eu a relevar as coisas, as pessoas reforçam o conselho.
Talvez um dia tenha de ceder.
Talvez possa depois vir aqui recordar a minha vida anterior. Ou a minha vida, não dominada por drogas que me criem um espírito submisso ou me façam ver borboletas e passarinhos nas margens dos memorandos castradores.
sábado, 5 de novembro de 2011
Não há melhor mordaça que um cheque
O riso inteligente, que resulta de uma análise clara e independente de uma situação e que nos faz ver o ridículo de quem tenta meter-nos "Lisboa pelos olhos dentro" nunca é bem visto por quem manda.
Quem manda quer ser obedecido. Ponto.
Quando se pensa, se questiona, se reflecte, obedecer nem sempre é fácil, por vezes é mesmo impossível.
Numa Democracia a atitude deveria ser essa: obedecer - ou melhor, respeitar e cumprir (e as palavras são sempre significativas) - mas fazendo uso da capacidade de racicínio e usando o direito de intervenção nos locais apropriados para mudar o que está mal.
A Democracia dá muito trabalho. Dá trabalho a quem dirige, porque tem de explicar o que faz e saber aceitar as críticas; dá trabalho a quem cumpre, porque tem de pensar e decidir, envolvendo-se e fazendo por vezes parte da solução.
A crítica sempre está presente na sociedade. Mas há diferentes tipos de crítica: pode ser a crítica queixosa, estéril, puramente de chamada de atenção; pode ser uma crítica positiva, no sentido de apresentar as razões reflectidas da crítica e propôr, em simultâneo, perspectivas de solução, de mudança, de intervenção/partticipação de quem critica. Esta é uma crítica informada.
Este último tipo de crítica sempre beneficiou do trabalho dos humoristas. Um bom humorista é um crítico. Alguém que, pegando no lado caricatural das coisas, nos leva a ver os aspectos ridículos de certas situações. Uma boa crítica humorística consegue por vezes desmontar toda uma estratégia que visaria levar a opinião pública a aceitar certas coisas.
Esta é, a meu ver, uma boa forma de informação e intervenção na vida democrática.
Claro que não é admissível numa ditadura.
Em ditadura os humoristas eram controlados, perseguidos, por vezes eliminados.
Nesta democracia, que é muito diferente do meu conceito de Democracia, porque visa levar as pessoas a aceitar a omnipresença das decisões baseadas no capital e nas necessidades do capitalismo e dos capitalistas, o humor estava a incomodar muito. Mas não se pode eliminar. Não seria democrático e poderia até ser denunciado e dar mau nome a esta espécie de democracia.
O que se faz então? Aquilo que o capitalismo sabe fazer de melhor: compra-se!
São óbvias as "incorporações" por empresas públicas das poucas vozes inteligentes do humor português: Os Gato Fedorento estão ao serviço da PT, os outros constituiram recentemente "a Troika" ao serviço da CGD.
Os dinheiros públicos asseguraram o conforto dos humoristas, acalmaram a sua sede de crítica, eliminaram as suas vozes informativas. Principescamente pagos, estes humoristas desistiram do seu papel, vendidos à sociedade capitalista e ao poder do capital.
Devido ao empobrecimento da educação (que voltará a médio prazo à ditadura dos conteúdos, absorvidos para serem vomitados em exames dos conhecimentos estruturantes que levarão o país a um lugar decente nas estatísticas internacionais) e ao esgotamento dos trabalhadores (assoberbados por burocracias e assediados pelo medo do despedimento) em breve não se notará, em Portugal, a falta da crítica humorística.
Claro que o humor não desaparecerá: isso poderia soar a ditadura! Mantem-se uns quadros boçais e os programas de gargalhada fácil, nada que estimule o pensamento e possa despertar consciências.
Sai caro, mas evita críticas, acalma os ânimos, satisfaz a população e é um bom uso dos dinheiros públicos. Silenciando toda e qualquer oposição - que se cala voluntariamente - o capitalismo sai, mais uma vez vencedor, provando "que todo o homem tem um preço" e que, em liberdade, não há melhor mordaça que um cheque. Assim, o que foi passado ao humor português foi um cheque-mate!
Quem manda quer ser obedecido. Ponto.
Quando se pensa, se questiona, se reflecte, obedecer nem sempre é fácil, por vezes é mesmo impossível.
Numa Democracia a atitude deveria ser essa: obedecer - ou melhor, respeitar e cumprir (e as palavras são sempre significativas) - mas fazendo uso da capacidade de racicínio e usando o direito de intervenção nos locais apropriados para mudar o que está mal.
A Democracia dá muito trabalho. Dá trabalho a quem dirige, porque tem de explicar o que faz e saber aceitar as críticas; dá trabalho a quem cumpre, porque tem de pensar e decidir, envolvendo-se e fazendo por vezes parte da solução.
A crítica sempre está presente na sociedade. Mas há diferentes tipos de crítica: pode ser a crítica queixosa, estéril, puramente de chamada de atenção; pode ser uma crítica positiva, no sentido de apresentar as razões reflectidas da crítica e propôr, em simultâneo, perspectivas de solução, de mudança, de intervenção/partticipação de quem critica. Esta é uma crítica informada.
Este último tipo de crítica sempre beneficiou do trabalho dos humoristas. Um bom humorista é um crítico. Alguém que, pegando no lado caricatural das coisas, nos leva a ver os aspectos ridículos de certas situações. Uma boa crítica humorística consegue por vezes desmontar toda uma estratégia que visaria levar a opinião pública a aceitar certas coisas.
Esta é, a meu ver, uma boa forma de informação e intervenção na vida democrática.
Claro que não é admissível numa ditadura.
Em ditadura os humoristas eram controlados, perseguidos, por vezes eliminados.
Nesta democracia, que é muito diferente do meu conceito de Democracia, porque visa levar as pessoas a aceitar a omnipresença das decisões baseadas no capital e nas necessidades do capitalismo e dos capitalistas, o humor estava a incomodar muito. Mas não se pode eliminar. Não seria democrático e poderia até ser denunciado e dar mau nome a esta espécie de democracia.
O que se faz então? Aquilo que o capitalismo sabe fazer de melhor: compra-se!
São óbvias as "incorporações" por empresas públicas das poucas vozes inteligentes do humor português: Os Gato Fedorento estão ao serviço da PT, os outros constituiram recentemente "a Troika" ao serviço da CGD.
Os dinheiros públicos asseguraram o conforto dos humoristas, acalmaram a sua sede de crítica, eliminaram as suas vozes informativas. Principescamente pagos, estes humoristas desistiram do seu papel, vendidos à sociedade capitalista e ao poder do capital.
Devido ao empobrecimento da educação (que voltará a médio prazo à ditadura dos conteúdos, absorvidos para serem vomitados em exames dos conhecimentos estruturantes que levarão o país a um lugar decente nas estatísticas internacionais) e ao esgotamento dos trabalhadores (assoberbados por burocracias e assediados pelo medo do despedimento) em breve não se notará, em Portugal, a falta da crítica humorística.
Claro que o humor não desaparecerá: isso poderia soar a ditadura! Mantem-se uns quadros boçais e os programas de gargalhada fácil, nada que estimule o pensamento e possa despertar consciências.
Sai caro, mas evita críticas, acalma os ânimos, satisfaz a população e é um bom uso dos dinheiros públicos. Silenciando toda e qualquer oposição - que se cala voluntariamente - o capitalismo sai, mais uma vez vencedor, provando "que todo o homem tem um preço" e que, em liberdade, não há melhor mordaça que um cheque. Assim, o que foi passado ao humor português foi um cheque-mate!
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Quando eu morrer...
"Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa
que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me
a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor."
Maria do Rosário Pedreira
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa
que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me
a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor."
Maria do Rosário Pedreira
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Sangue Frio
"Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre
Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação
Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio"
Clã, letra Carlos Tê
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre
Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação
Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio"
Clã, letra Carlos Tê
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terça-feira, 1 de novembro de 2011
Estou a ver-me grega com isto
Então...isto não era uma Democracia?
Então...numa Democracia, quem manda não é o Povo?
Então...o referendo não é um instrumento de consulta do Povo, usado numa Democracia, para, precisamente, poder auscultar (e depois executar, espera-se) a vontade e os sentimentos do Povo?
Então...afinal, quando a resposta do Povo pode não ser favorável aos interesses económicos, a vontade do Povo não se deve perguntar?
Então afinal quem manda aqui?
G20?!? Quem lhes deu o direito de falar por nós? Para nós? Sobre nós?...
Na Grécia...o berço da Democracia, que se dizia a essência do mundo ocidental contemporâneo!
Abano, mentalmente, a cabeça, escandalizada, horrorizada, indignada, inconformada...
E o Papandreos vai levar tau-tau! A portar-se mal? Assim? Sem autorização de quem manda? Sim, porque quem tem o dinheiro é que manda. Vão "obrigá-lo a aceitar a ajuda". Será que não se nota nada de errado nesta frase? Pobres e mal-agradecidos, os gregos! Mas será que os pobres têm de ser sempre agradecidos? Humildes? De cabeça baixa? Afinal onde é que está aquilo que se chamou, em tempos, soberania nacional?
Estamos todos a ver-nos gregos, de facto. Nunca a expressão me tinha parecido tão apropriada!
Então...numa Democracia, quem manda não é o Povo?
Então...o referendo não é um instrumento de consulta do Povo, usado numa Democracia, para, precisamente, poder auscultar (e depois executar, espera-se) a vontade e os sentimentos do Povo?
Então...afinal, quando a resposta do Povo pode não ser favorável aos interesses económicos, a vontade do Povo não se deve perguntar?
Então afinal quem manda aqui?
G20?!? Quem lhes deu o direito de falar por nós? Para nós? Sobre nós?...
Na Grécia...o berço da Democracia, que se dizia a essência do mundo ocidental contemporâneo!
Abano, mentalmente, a cabeça, escandalizada, horrorizada, indignada, inconformada...
E o Papandreos vai levar tau-tau! A portar-se mal? Assim? Sem autorização de quem manda? Sim, porque quem tem o dinheiro é que manda. Vão "obrigá-lo a aceitar a ajuda". Será que não se nota nada de errado nesta frase? Pobres e mal-agradecidos, os gregos! Mas será que os pobres têm de ser sempre agradecidos? Humildes? De cabeça baixa? Afinal onde é que está aquilo que se chamou, em tempos, soberania nacional?
Estamos todos a ver-nos gregos, de facto. Nunca a expressão me tinha parecido tão apropriada!
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