"O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.
O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.
O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.
Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.
Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.
Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.
Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.
A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.
E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.
E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.
O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito."
Nuno Júdice
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
sábado, 29 de outubro de 2011
2011: Ano Europeu do Voluntariado
"- (...) Também foram os monumentos religiosos que chegaram até nós, porque as pessoas cuidam do que é religioso, porque é importante para elas. Por exemplo, o Mosteiro de Alcobaça é um monumento (património mundial, até) mas é um espaço religioso activo: as pessoas vão lá à missa, à catequese e há lá cerimónias como casamentos, baptizados e funerais.
- Acho que funerais...
- Funerais não!
- Há sim - insisti - Mas são só funerais de pessoas muito importantes...
- Pois foi. Saiu de lá também aquele bombeiro que morreu...
- Mas o bombeiro não era importante. Eu até o conhecia...
Gerou-se uma pequena discussão àcerca da morte e funeral do bombeiro, que eu deixei seguir, como um espaço de descompressão em que vários podiam participar. De súbito emergiu das vozes a frase - Tu não vês que um bombeiro é sempre importante? Um bombeiro é voluntário!
Fez-se silêncio em torno da voz dele.
Aproveitei e falei do carácter humanitário dos bombeiros, da importância do voluntariado e de que um bombeiro morto em serviço representa toda a corporação.
Enquanto explicava, retomando as rédeas da aula, reparei melhor no autor da afirmação: o puto reguila do ano anterior é agora um jovem com voz forte e uma cova no queixo que lhe dá um ar seguro e convencido. Que impõe respeito e admiração.
A minha já tem!"
- Acho que funerais...
- Funerais não!
- Há sim - insisti - Mas são só funerais de pessoas muito importantes...
- Pois foi. Saiu de lá também aquele bombeiro que morreu...
- Mas o bombeiro não era importante. Eu até o conhecia...
Gerou-se uma pequena discussão àcerca da morte e funeral do bombeiro, que eu deixei seguir, como um espaço de descompressão em que vários podiam participar. De súbito emergiu das vozes a frase - Tu não vês que um bombeiro é sempre importante? Um bombeiro é voluntário!
Fez-se silêncio em torno da voz dele.
Aproveitei e falei do carácter humanitário dos bombeiros, da importância do voluntariado e de que um bombeiro morto em serviço representa toda a corporação.
Enquanto explicava, retomando as rédeas da aula, reparei melhor no autor da afirmação: o puto reguila do ano anterior é agora um jovem com voz forte e uma cova no queixo que lhe dá um ar seguro e convencido. Que impõe respeito e admiração.
A minha já tem!"
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011
As Regras
E dizia-lhe eu, a propósito de uma qualquer contestação:
- Mas tu não vês que tens de cumprir as regras? As regras são para cumprir. Podemos discordar delas, mas não podemos deixar de as cumprir, sob pena de perdermos a razão...
Olhou-me nos olhos, com a expressão desafiadora de um jovem de 15 anos. Tinha crescido muito nestes três anos que vinha sendo meu aluno!
- Olhe, por acaso eu acho que tenho aprendido consigo é que muitos dos que foram importantes e mudaram isto para melhor, foram os que decidiram não cumprir as regras.
Discutimos sobre as diferenças entre Ditaduras e Democracias, do papel do correcto cumprimento das regras nas sociedades democráticas...mas o estrago estava feito: ele tinha atingido profundamente o meu coração porque me provou
E não sabia ele (ou saberia sem saber?) que um dos problemas que eu coloquei aos formadores de Desenvolvimento Pessoal e Social foi: "Como é que acham que eu os vou convencer da necessidade absoluta de cumprir as regras e as ordens, se, de facto, os meus heróis são os que não se deixaram iludir por regras injustas e pensaram pelas suas cabeças, pelos seus critérios? Como lhes posso negar a grandiosidade da condição de proscrito de Robin dos Bosques?
Se calhar não posso mesmo!
Não fiquei convencida com a resposta "politicamente correcta" dos meus formadores. Nunca me atrevi a falar de Robin dos Bosques nas aulas. Mas duvido agora que os meus heróis não espreitem por cima do meu ombro durante as aulas e façam sinais aos meus alunos. A alguns, claro.
- Mas tu não vês que tens de cumprir as regras? As regras são para cumprir. Podemos discordar delas, mas não podemos deixar de as cumprir, sob pena de perdermos a razão...
Olhou-me nos olhos, com a expressão desafiadora de um jovem de 15 anos. Tinha crescido muito nestes três anos que vinha sendo meu aluno!
- Olhe, por acaso eu acho que tenho aprendido consigo é que muitos dos que foram importantes e mudaram isto para melhor, foram os que decidiram não cumprir as regras.
Discutimos sobre as diferenças entre Ditaduras e Democracias, do papel do correcto cumprimento das regras nas sociedades democráticas...mas o estrago estava feito: ele tinha atingido profundamente o meu coração porque me provou
- que tinha aprendido algo comigo;
- que percebera o que eu penso da História e dos momentos de ruptura e dos seus protagonistas.
E não sabia ele (ou saberia sem saber?) que um dos problemas que eu coloquei aos formadores de Desenvolvimento Pessoal e Social foi: "Como é que acham que eu os vou convencer da necessidade absoluta de cumprir as regras e as ordens, se, de facto, os meus heróis são os que não se deixaram iludir por regras injustas e pensaram pelas suas cabeças, pelos seus critérios? Como lhes posso negar a grandiosidade da condição de proscrito de Robin dos Bosques?
Se calhar não posso mesmo!
Não fiquei convencida com a resposta "politicamente correcta" dos meus formadores. Nunca me atrevi a falar de Robin dos Bosques nas aulas. Mas duvido agora que os meus heróis não espreitem por cima do meu ombro durante as aulas e façam sinais aos meus alunos. A alguns, claro.
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O que eles me ensinam
Pensei em criar outro blogue dada a importância do tema. Mas, sejamos sinceros, eu já nem vou tendo muito tempo para este...de que me serviria criar outro? Seria um passo mais para a desmotivação, o sentimento de culpa por não estar a cumprir os meus objectivos e poderia até dispersar os fãs :-)
Mas o tema é de facto muito importante, ou vai sendo cada vez mais importante para mim, como uma bóia de salvação nas águas agitadas de uma profissão docente que se afunda em estatísticas e burocracias, para tentar responder aos ditames de uma crise criada e alimentada pelo capitalismo...Tudo isto tão contrário ao espírito das Ciências Sociais e Humanas, o barco em que eu ingressei nesta viagem, há muitos anos atrás e que vais sendo desconsiderado nesta corrida pelo lugar nos rankings de critérios que não interessam «nem ao Menino Jesus».
(Usava-se muito esta expressão lá em casa e eu nunca percebi se era porque, sendo o Menino Jesus uma criança e como tal curiosa, se não lhe interessava a Ele não interessaria a ninguém ou se, dada a inteligência de Jesus, se não lhe interessava a Ele não seria de todo interessante para nós, seus seguidores).
Surgiu-me a expressão como adequada pois que também do que interessa aos meninos, ou de uma visão muito particular dos jovens e das crianças, trata este "subtema" que quero introduzir por aqui: o que os alunos me vêm ensinando!
Sabemos que circulam pela Internet - e até já em livros publicados - as asneiradas dos alunos, mas onde estão as palavras deles que nos admiram? ou nos fazem admirá-los?
Dia a dia encontro bálsamo para a vida nas horas lectivas. Vale a pena ensinar! Não tenho a menor dúvida. Mas o que me fascina, me encante, me enternece, me espanta e me cativa, é o que vou aprendendo e recordando com eles.
Por vezes penso que os professores encontraram a tão procurada fonte da juventude. Nós - se quisermos, e só se o soubermos fazer - estamos sempre a aprender (ou a não esquecer) o que é ser jovem.
A indignação, a ingenuidade, a genuinidade dos sentimentos, está ali, à nossa frente, a interagir connosco, a lembrar-nos que, apesar de nós estarmos a ficar velhos, a juventude continua a fluir incessantemente no mundo, com as suas inquietações, as suas urgências, os seus desesperos e a sua vontade intrépida (e crédula) de mudar o mundo.
A hipótese de mudança, de redenção, de salvação, de continuidade, está ali sentada, à nossa frente, e tem voz e ideias e interrogações que precisam ser respondidas.
É mais fácil fazer perguntas que dar respostas e esse, penso eu, é o maior desafio da Educação. Ensiná-los a fazer perguntas e ajudá-los a procurar as respostas.
Mas, algumas vezes (e não são muitas, não, mas por isso é que é preciso guardá-las por aqui) são eles que nos dão as respostas, que nos mostram os caminhos, que nos mantêm viva a esperança.
A ideia então - numa nova etiqueta deste blogue que guarda palavras - é assinalar aqui as palavras dos alunos que se vão constituindo bálsamos e ensinamentos para a minha vida e por vezes o leme que me recorda por que entrei neste barco e porque vale a pena mantê-lo a navegar.
"Palavra de Aluno" é então a nova etiqueta deste blogue. Espero que não resvale para o cinismo nem para a piada fácil de anunciar as suas asneiras e erros grosseiros, mas que mantenha o rumo de guardar as palavras excepcionais geradas nas novas gerações, que encaro como faróis de esperança na actual borrasca mundial.
Mas o tema é de facto muito importante, ou vai sendo cada vez mais importante para mim, como uma bóia de salvação nas águas agitadas de uma profissão docente que se afunda em estatísticas e burocracias, para tentar responder aos ditames de uma crise criada e alimentada pelo capitalismo...Tudo isto tão contrário ao espírito das Ciências Sociais e Humanas, o barco em que eu ingressei nesta viagem, há muitos anos atrás e que vais sendo desconsiderado nesta corrida pelo lugar nos rankings de critérios que não interessam «nem ao Menino Jesus».
(Usava-se muito esta expressão lá em casa e eu nunca percebi se era porque, sendo o Menino Jesus uma criança e como tal curiosa, se não lhe interessava a Ele não interessaria a ninguém ou se, dada a inteligência de Jesus, se não lhe interessava a Ele não seria de todo interessante para nós, seus seguidores).
Surgiu-me a expressão como adequada pois que também do que interessa aos meninos, ou de uma visão muito particular dos jovens e das crianças, trata este "subtema" que quero introduzir por aqui: o que os alunos me vêm ensinando!
Sabemos que circulam pela Internet - e até já em livros publicados - as asneiradas dos alunos, mas onde estão as palavras deles que nos admiram? ou nos fazem admirá-los?
Dia a dia encontro bálsamo para a vida nas horas lectivas. Vale a pena ensinar! Não tenho a menor dúvida. Mas o que me fascina, me encante, me enternece, me espanta e me cativa, é o que vou aprendendo e recordando com eles.
Por vezes penso que os professores encontraram a tão procurada fonte da juventude. Nós - se quisermos, e só se o soubermos fazer - estamos sempre a aprender (ou a não esquecer) o que é ser jovem.
A indignação, a ingenuidade, a genuinidade dos sentimentos, está ali, à nossa frente, a interagir connosco, a lembrar-nos que, apesar de nós estarmos a ficar velhos, a juventude continua a fluir incessantemente no mundo, com as suas inquietações, as suas urgências, os seus desesperos e a sua vontade intrépida (e crédula) de mudar o mundo.
A hipótese de mudança, de redenção, de salvação, de continuidade, está ali sentada, à nossa frente, e tem voz e ideias e interrogações que precisam ser respondidas.
É mais fácil fazer perguntas que dar respostas e esse, penso eu, é o maior desafio da Educação. Ensiná-los a fazer perguntas e ajudá-los a procurar as respostas.
Mas, algumas vezes (e não são muitas, não, mas por isso é que é preciso guardá-las por aqui) são eles que nos dão as respostas, que nos mostram os caminhos, que nos mantêm viva a esperança.
A ideia então - numa nova etiqueta deste blogue que guarda palavras - é assinalar aqui as palavras dos alunos que se vão constituindo bálsamos e ensinamentos para a minha vida e por vezes o leme que me recorda por que entrei neste barco e porque vale a pena mantê-lo a navegar.
"Palavra de Aluno" é então a nova etiqueta deste blogue. Espero que não resvale para o cinismo nem para a piada fácil de anunciar as suas asneiras e erros grosseiros, mas que mantenha o rumo de guardar as palavras excepcionais geradas nas novas gerações, que encaro como faróis de esperança na actual borrasca mundial.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
O Jogo
"Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças."
Nuno Júdice
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças."
Nuno Júdice
domingo, 16 de outubro de 2011
Na RTP,
canal do Estado, apresentaram há pouco uma longa reportagem sobre todos os subsídios que o cidadão tem direito a receber em Portugal. Terminava com a frase "a ajuda do Estado, presente do primeiro ao último dia."
Tenho pena de ter estado distraída quando disseram tudo o que o cidadão descontava para o Estado. Mas nem quero crer que não tenham dito...devo ter estado um bocadinho distraída.
Tenho pena de ter estado distraída quando disseram tudo o que o cidadão descontava para o Estado. Mas nem quero crer que não tenham dito...devo ter estado um bocadinho distraída.
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