"E a memória é um trapézio..."
Reportagem da RTP1, 30 minutos, Jornal da noite, Hoje
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
terça-feira, 30 de novembro de 2010
A liberdade do «saber-ser»
"Todos os outros seus filhos tinham sido ensinados por homens enérgicos, pessoas duras, resistentes irrepreensíveis, pessoas que mantinham os rapazes quietos, distribuíam pancadas com determinação, não sorriam, impunham a ordem, procurando fazer de cada criança um obediente, para que se obtivesse um bom trabalhador. A própria escola de São Sebastião tinha quatro janelas que davam para a rua. A cada uma delas era raro não haver uma criança com uma máscara de asno, com orelhas de ourelo e uma fila de dentes exposta. (...) o mais novo estava destinado a ser instruído por um incompetente recém-chegado, um homem pequeno, de cara completamente lisa, que fazia lume sobre a secretária, queimava papel, cabeças de fósforo, álcool e algodão-em-rama dentro de frascos. Que volta e meia levava as crianças até aos montes cinzentos de São Sebastião, mandava observar a natureza, mandava espiar os animais. Mandava-as medir o desvio do Sol com metros de pedreiro, obrigava-as a irem de noite à escola para explicar os eclipses, levava-os a registar coisas tão inúteis como a posição das patas das éguas quando corriam e quando marchavam. Não lhes ensinava nada. Ele mesmo construía canudos especiais pelos quais fazia as crianças olharem as aves, contra a necessidade das próprias crianças que era saber, sobre os pássaros, quais os úteis e os inúteis, os que davam bons exemplos aos homens com os seus hábitos, e escrever isso em boa caligrafia.
(...) esse homem acabara por ser empurrado de São Sebastião mediante um abaixo-assinado, em que muitos haviam escrito em vez do nome uma dedada de polegar. (...) Que esse professor haveria de desaparecer do ensino, haveria de morrer cedo, sem nada para fazer, cercado de olhos por todos os lados, mas entretanto já havia deixado estragos insapagáveis por onde tinha passado."
Jorge, Lídia, O Vale da Paixão, pp. 48-49
(...) esse homem acabara por ser empurrado de São Sebastião mediante um abaixo-assinado, em que muitos haviam escrito em vez do nome uma dedada de polegar. (...) Que esse professor haveria de desaparecer do ensino, haveria de morrer cedo, sem nada para fazer, cercado de olhos por todos os lados, mas entretanto já havia deixado estragos insapagáveis por onde tinha passado."
Jorge, Lídia, O Vale da Paixão, pp. 48-49
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Lido com a mágoa de quem também pensa em partir...
"A profissão de professor desaparece...
Segue-se um extracto duma entrevista de Mário Crespo a José Gil, que passou na Sic Notícias. São palavras absolutamente sinceras e verdadeiras as do filósofo e professor, tão sinceras e verdadeiras que deviam fazer parar o país para pensar no rumo que tomará, ou que está a tomar, pelo facto de os bons professores serem obrigados a desistir de ensinar: por abandono da profissão, por fadiga, por desnorte...
Mário Crespo: Uma estratégia seguida por este Ministério (…) é exigir ao professor uma ocupação total na sua tarefa, total, para lá das horas do humanamente aceitável (…) para lá das 35 horas obrigatórias, para dentro das pausas lectivas – expressão nova –, o trabalho do professor deve integrar e devorar o tempo de vida privada, de lazer (…), professor só pode ser professor (…) deixa de ser homem, deixa de ser mulher...
José Gil: Isso é quase um homicídio da profissão. A profissão de professor desaparece. Desaparece, porque é impossível fazer isso (…). Estou a lembrar-me de Paul Lenoir, um poeta, que dizia que para fazer boa poesia é preciso não fazer nada (…). É preciso que haja pausa, desafio, reflexão ruminação (….). Eu sou professor, sei que estou a defender a minha causa, mas há vocações extraordinárias, muito maiores que a minha, muito mais admiráveis que eu vejo em professores do secundário, por exemplo (...) pessoas que gostam de ensinar, que adoravam fazer o que estavam a fazer e essas pessoas vão-se embora, foram-se embora (…) sobretudo (…) porque ficam tão desgostosas por elas mesmas, por terem que fazer qualquer coisa que não gostam, que lhes destrói uma missão..."
colhido em:
http://dererummundi.blogspot.com/2010/11/profissao-de-professor-desaparece.html
Segue-se um extracto duma entrevista de Mário Crespo a José Gil, que passou na Sic Notícias. São palavras absolutamente sinceras e verdadeiras as do filósofo e professor, tão sinceras e verdadeiras que deviam fazer parar o país para pensar no rumo que tomará, ou que está a tomar, pelo facto de os bons professores serem obrigados a desistir de ensinar: por abandono da profissão, por fadiga, por desnorte...
Mário Crespo: Uma estratégia seguida por este Ministério (…) é exigir ao professor uma ocupação total na sua tarefa, total, para lá das horas do humanamente aceitável (…) para lá das 35 horas obrigatórias, para dentro das pausas lectivas – expressão nova –, o trabalho do professor deve integrar e devorar o tempo de vida privada, de lazer (…), professor só pode ser professor (…) deixa de ser homem, deixa de ser mulher...
José Gil: Isso é quase um homicídio da profissão. A profissão de professor desaparece. Desaparece, porque é impossível fazer isso (…). Estou a lembrar-me de Paul Lenoir, um poeta, que dizia que para fazer boa poesia é preciso não fazer nada (…). É preciso que haja pausa, desafio, reflexão ruminação (….). Eu sou professor, sei que estou a defender a minha causa, mas há vocações extraordinárias, muito maiores que a minha, muito mais admiráveis que eu vejo em professores do secundário, por exemplo (...) pessoas que gostam de ensinar, que adoravam fazer o que estavam a fazer e essas pessoas vão-se embora, foram-se embora (…) sobretudo (…) porque ficam tão desgostosas por elas mesmas, por terem que fazer qualquer coisa que não gostam, que lhes destrói uma missão..."
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Palavras de Outros,
Palavras Doridas
A memória das coisas que são coisas da memória
"Mas ela queria dizer que havia objectos que não desapareciam, que apenas deixavam de ser matéria e de ter peso para passarem a ser lembrança. Passavam a ser fluído imaterial, a entrar e a sair do corpo imaterial da pessoa, a incorporar-se na circulação do sangue e nas cavernas da memória, para aí ficarem alojadas no fundo da vida, persistindo ao lado dela, e naquela noite, bastaria aproximar o candeeiro a petróleo do corpo da filha, em camisa e agasalhada pela colcha, para confirmar que esses objectos se encontravam morando dentro da sua cabeça." Jorge, Lídia, O Vale da Paixão, p. 31
domingo, 28 de novembro de 2010
Cobardia
"Sentia agora que não podia haver humilhação maior. Como? Como é que ela não tinha percebido? Porque insistia em tentar que a chave coubesse na fechadura? Como não lhe tinha ocorrido?...
Não sabia o que a magoava mais: se o acto dele, se a pena do vizinho da frente quando abriu a porta e lhe disse: "Então não percebe que ele mudou a fechadura? Vá-se embora. Ele não a merece."
Odiava-se agora por ainda ter dito: "Não, não pode ser. Foi ele que me deu a chave...sem eu pedir..."
O homem fechou a porta frente à sua solidão, deixando-a assim, humilhada, impossibilitada de ignorar, de inventar explicações, de tentar protelar o fim.
Desfeita. Era como se sentia agora, na estação de comboios, no meio de toda aquela gente que não a podia ver, que a ignorava, que não queria saber dela, que não lhe exigiria a explicação que não queria dar a ninguém. Nem mesmo a si própria."
Não sabia o que a magoava mais: se o acto dele, se a pena do vizinho da frente quando abriu a porta e lhe disse: "Então não percebe que ele mudou a fechadura? Vá-se embora. Ele não a merece."
Odiava-se agora por ainda ter dito: "Não, não pode ser. Foi ele que me deu a chave...sem eu pedir..."
O homem fechou a porta frente à sua solidão, deixando-a assim, humilhada, impossibilitada de ignorar, de inventar explicações, de tentar protelar o fim.
Desfeita. Era como se sentia agora, na estação de comboios, no meio de toda aquela gente que não a podia ver, que a ignorava, que não queria saber dela, que não lhe exigiria a explicação que não queria dar a ninguém. Nem mesmo a si própria."
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Palavras repetentes
Discussão
"- O que é que eu fiz de errado?
- Nada...
- Nada? Nada? - o tom subia, perigosamente - É só o que consegues dizer?
- Mas...m...mas é isso mesmo: não há nada de errado e isso...simplesmente, não está certo."
- Nada...
- Nada? Nada? - o tom subia, perigosamente - É só o que consegues dizer?
- Mas...m...mas é isso mesmo: não há nada de errado e isso...simplesmente, não está certo."
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