domingo, 31 de outubro de 2010

Tempo

Uma das coisas que me fascina na minha profissão é a (quase) impossibilidade de cristalizar, de perder a noção do presente, pois estamos sempre em contacto com as novas gerações e os seus conceitos.
Esse será também um problema do ensino: como é que nós -Escola, Ministério, Professores (instituições "adultas", sentadas sobre um saber acumulado) - reagimos e interagimos com as novas gerações e as suas perspectivas de vida, frequentemente quase desconhecidas para nós?
Sendo o Tempo a matéria prima da História, uma das coisas que mais me interessa é como é que as sociedades, ao longo do tempo, perspectivaram o tempo, se relacionaram com ele, se orientaram por e para ele: o Tempo.
Na semana passada, estando eu a explicar a resistência da Igreja às inovações ao longo do tempo exemplificando com algumas das condenações da Inquisição, afirmei: "A sociedade resiste sempre ao que é novo, a primeira atitude é recusar o que é novo..."
"Olhe que não", interrompeu-me um aluno. "Hoje é precisamente ao contrário. Repare nos telemóveis, nos carros, na tecnologia. Queremos sempre o que é mais novo."
Concordei com ele e guardei a problemática na parte posterior do meu cérebro, que funciona melhor durante a noite, fins de semana e feriados, quando me liberto das quadrículas do tempo em que tenho de cumprir tarefas definidas. A questão manteve-se com uma luz vermelha de alerta, indicando-me que ali se tinha colocado algo que eu não podia ignorar, algo que era fundamental na minha forma de me posicionar no ensino, de me relacionar com os alunos, de organizar a minha prática lectiva, de perspectivar a utilidade e a função da escola (e da História, nela).
Certo é que a História Antiga -sobretudo a Medieval - nos dá uma sensação de imobilidade, de remanso marcado pelos ritmos da terra, que se estilhaça com o chegar do Mundo Contemporâneo. As Revoluções Liberais, a Soberania Popular, a Cidadania alargada, ao envolverem-nos a todos nas grandes questões da Humanidade, dão-nos um sentido de pertença que ao mesmo tempo nos avassala, nos devora, nos consome. Querer abarcar tudo na sociedade de informação é uma tarefa esgotante e impossível, logo, frustrante e causadora de uma má relação com o tempo: a nossa relação com o nosso tempo, a nossa gestão do tempo, a nossa compreensão do tempo ao longo do tempo.
Andava eu a girar à volta destas questões de uma forma entre o consciente e o inconsciente, quando resolvi explorar um pouco mais o mundo dos vídeos que descobri ontem e partilhei aqui convosco. Caramba! Havia um vídeo sobre o tempo. Magnífico. Sintético. Brutal. Clarificador.
E a Escola sempre no meio da relação entre tempos diferentes...

http://www.youtube.com/watch?v=A3oIiH7BLmg&feature=player_embedded

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, mas, que dizer de tantas imagens acompanhadas de tantas palavras?

http://www.youtube.com/watch?v=qOP2V_np2c0&feature=player_embedded

Nota: Não consegui «domar isto» para as dimensões do meu blogue e penso que vale a pena vê-lo na íntegra, com todo o seu tamanho, a sua lógica, o seu ritmo. Por isso: vão lá! Vale a pena.

sábado, 30 de outubro de 2010

O Tempo e as Fases...como as da Lua

Lua adversa


"Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha


Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...


E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu..."

Cecília Meireles (1901-1964)

Santos

O rigor do tempo e os festejos dos santos trazem sempre uma nostalgia da vida em família.
Dormi até muito tarde e acordei com a violência da chuva que fustigava as ruas e fazia vergar as árvores. Guardei mais um pouquinho o corpo no calor da cama. Resolvi então levantar-me e enterrar os pés nas fofas pantufas, aquisição desta temporada Outono-Inverno.
Inspecciono as zonas mais vulneráveis do apartamento, para detectar eventuais entradas de água: janelas, marquise...o furinho do costume (mais acompanhado agora que sabemos que também chove na Assembleia da República), mas nada de dramático.
As notícias acentuam os perigos da continuação do mau tempo.
Tenho saudades do cozido à portuguesa e das castanhas cozidas, que marcariam o dia de hoje na casa da minha infância e adolescência.
As saudades ditam uma vontade  - quase maternal - de «saber dos meus». Feita a ronda por telemóvel às quatro manas (duas amigas, que me acompanham as alegrias e chatices do dia a dia e as duas manas que me ajudaram a crescer, mas que ficaram noutros locais). Tudo tranquilo. Já todas chegaram aos destinos escolhidos para o fim de semana grande, sem incidentes a reportar.
Penso na tranquilidade que nos dá o telemóvel. Gasta-se mais dinheiro, claro, mas podemos saber - assim, em directo - com está o tempo, quanto demorou a viagem e ainda receber os beijinhos e as lembranças daqueles que foram encontrar e que também, de certa maneira «são nossos».
Os Santos têm destas coisas: as saudades de um lar que já não existe, o conforto do contacto dos novos lares que se construiram a partir desse, a certeza de uma vida que se construiu «depois de crescer».
Confortada, olho as minhas gatas enroscadas para passar o frio, e resolvo arranjar uma roupa confortável para vestir depois do banho, que acentue o ar «négligé» de um fim de semana que se anuncia grande, frio, cinzento, caseiro. Talvez saia para comprar os tradicionais frutos secos na Feira de São Simão, este ano mais pequena e mais pobre, como o país.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

É uma sensação...como que...de inutilidade...

Numa sexta-feira à tarde, numa escola que não assinala a tradição portuguesa de Todos os Santos, mas se enche de gatos pretos, abóboras e fantasmas à moda americana, dar uma aula de Área de Projecto a uma turma de 28 alunos entre os 11 e os 13 anos.

Sim, sim. A Área de Projecto é aquela que o governo já disse que ia acabar porque era ineficaz.

Como é que eu consigo? Nem eu sei. Porque é que eu tento? Para não perder a autoridade perante os alunos a quem gosto muito de leccionar História. Só mesmo por isso. Porque a Área Curricular Não Disciplinar está agora definitivamente condenada, desacreditada, moribunda, impossível de resultar.

Mas isto devem ser problemas meus. Porque os chefes, que me fecharam sem justificações um clube que queria dinamizar a escola pela área cultural e fazer um trabalho de integração com comunidades étnicas diferentes, hoje estava a bater palmas aos fantasmas a arrastar ligaduras e às bruxas que ofereciam maçãs envenenadas. Somos um país de faz de conta com uma escola que se desenrola a brincar. Nunca conseguiremos sair do buraco e seremos vítimas dos inúteis que estamos a criar.

Ah, mas o Presidente acabou de fazer uma declaração ao país e agora estou muito mais confiante!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Com pregos Alcobia...

NEM TUDO

"Nem tudo que reluz corrompe
Nem tudo que é bonito aparenta
Nem tudo que é infalível se aguenta
Nem tudo que ilude mente
Nem tudo que é gostoso tá quente
Nem tudo que se encaixa é pra sempre
Nem tudo que é sucesso se esquece
Nem todo pressentimento acontece
Nem tudo que se diz tá dito
Nem tudo que não é você é esquisito
Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito

Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito"

Edu Tedeschi / Zélia Duncan