Às vezes gosto de conduzir de noite.
Sobretudo na zona entre Torres Vedras e Bombarral.
Os montes e vales, pontuados por pequenas e dispersas concentrações de luzes, como se estivesse a olhar para um grande tapete de Arraiolos em execução, onde ainda só os motivos amarelos estão bordados; até chegar à grande pêra, delineada por luzes, que se individualiza na paisagem, como um brilhante enfeite de Natal.
Na serra oestina, os moinhos alternativos substituem o rodar ventoso e o som das cabaças, as velas. Mas continua a haver algo de mágico no seu rodar, na sua luz intermitente, que acrescenta mais um brilho à paisagem nocturna. Que eu vou devorando com os olhos, ao mesmo tempo que o meu carro devora os kilómetros que me devolvem a casa.
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
O Mundo visto assim
A história de hoje não é minha. Ouvi-a da boca de uma avó, no café, de manhã, mas fez-me pensar como as crianças encaram sempre tudo com simplicidade, como é bom quando não percebemos a palavra «Fim» como definitiva...
"Quando eu perdi o meu pai, tomava conta do meu neto mais velho e ia muitas vezes para junto do mar. Gostava de ficar ali, a reflectir ou simplesmente a olhar o mar. E levava-o comigo.
Num desses dias, estávamos dentro do carro e ele perguntou:
- Costumas falar com o teu pai?
- Não, filho, o avô morreu. Tu sabes...
- Eu sei. Mas não tens falado com ele?
- Não...penso muito nele...mas não posso falar, falar, com ele.
- Podes sim.
- Mas...porque é que tu dizes isso?
- Porque, quando fui com o pai ao cemitério, junto do retrato do avô, estava um número: podes-lhe telefonar.
Confirmei com o meu filho. Tinha ido à campa do pai e levado o filho. O miúdo não tinha feito comentários, mas, pelos vistos, assumira os «jardins de pedra», como uma grande e original lista telefónica."
"Quando eu perdi o meu pai, tomava conta do meu neto mais velho e ia muitas vezes para junto do mar. Gostava de ficar ali, a reflectir ou simplesmente a olhar o mar. E levava-o comigo.
Num desses dias, estávamos dentro do carro e ele perguntou:
- Costumas falar com o teu pai?
- Não, filho, o avô morreu. Tu sabes...
- Eu sei. Mas não tens falado com ele?
- Não...penso muito nele...mas não posso falar, falar, com ele.
- Podes sim.
- Mas...porque é que tu dizes isso?
- Porque, quando fui com o pai ao cemitério, junto do retrato do avô, estava um número: podes-lhe telefonar.
Confirmei com o meu filho. Tinha ido à campa do pai e levado o filho. O miúdo não tinha feito comentários, mas, pelos vistos, assumira os «jardins de pedra», como uma grande e original lista telefónica."
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quarta-feira, 28 de abril de 2010
Já passava um bom quarto de hora do início da aula, quando o rapazinho abriu a porta sem pedir licença e tentou esgueirar-se para o seu lugar.
- Ó rapazinho?!...Porque é que vens a esta hora? - perguntei visivelmente irritada
- Atrasei-me - respondeu o «jovem» sem dar grande importância à questão.
- Ah! Ainda bem que me dizes! Estava convencida que vinhas adiantado para a aula a seguir.
Uma parte da turma riu-se. Alguns fizeram comentários entre eles.
O «jovem» não tinha, visivelmente, percebido nada. O colega de carteira esclareceu-o: - A s'tôra 'tá a ser «irótica».
- Ó rapazinho?!...Porque é que vens a esta hora? - perguntei visivelmente irritada
- Atrasei-me - respondeu o «jovem» sem dar grande importância à questão.
- Ah! Ainda bem que me dizes! Estava convencida que vinhas adiantado para a aula a seguir.
Uma parte da turma riu-se. Alguns fizeram comentários entre eles.
O «jovem» não tinha, visivelmente, percebido nada. O colega de carteira esclareceu-o: - A s'tôra 'tá a ser «irótica».
terça-feira, 27 de abril de 2010
Terça-feira Godinha
"É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
de madrugada
E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições
É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz
(...)"
Terça-feira, Sérgio Godinho
Há a terça-feira gorda, deve haver a terça-feira magra e, entre as duas, há a terça-feira godinha.
É incrível como as personagens do Sérgio Godinho se «colam» a nós. As vezes que eu me senti «a descer as escadas a quatro e quatro», para já não falar na Etelvina, claro, com quem já só tinha uma consciência adormecida das semelhanças...
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
de madrugada
E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições
É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz
(...)"
Terça-feira, Sérgio Godinho
Há a terça-feira gorda, deve haver a terça-feira magra e, entre as duas, há a terça-feira godinha.
É incrível como as personagens do Sérgio Godinho se «colam» a nós. As vezes que eu me senti «a descer as escadas a quatro e quatro», para já não falar na Etelvina, claro, com quem já só tinha uma consciência adormecida das semelhanças...
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
A propósito do discuro presidencial
"Atira-te ao mar
e diz que t'empurrarem"
Tudo palavras de algarvios.
Lembram-se dos Iris? No caso deles completavam: "Beija-me na boca e chama-me Tarzan", mas...convenhamos...
e diz que t'empurrarem"
Tudo palavras de algarvios.
Lembram-se dos Iris? No caso deles completavam: "Beija-me na boca e chama-me Tarzan", mas...convenhamos...
domingo, 25 de abril de 2010
Será que é fundamentalismo
meu (a favor e contra), estranhar que, no dia de hoje, a primeira notícia do serviço noticioso da sic seja sobre futebol? A segunda - e longa - foi sobre o 25 de Abril...
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