"Desde que ele tinha passado a habitar o prédio, as manhãs tornaram-se menos penosas.
Quase todos os dias apanhavam o elevador ao mesmo tempo. Ele, barbeadinho de fresco, exalava uma frescura masculina...apetecível. Ela abria as narinas para absorver aquele cheiro, para o respirar mais de perto...sentia-se alvoroçada. Baixava os olhos, após os breves bons-dias de circunstância.
Em cada dia tinha a sensação de que ia explodir. A respiração acelerava, as têmporas latejavam. Tinha a ideia de que o seu desejo se tornava notório para ele, tal a respiração pesada dela, os movimentos mais acelerados do seu peito, a subir e a descer, num arquejo, irreprimível, quase de dor...
Via-o sempre sozinho, roupa formal de trabalho burocrático, talvez de responsabilidade...gravatas variadas, todas de muito bom gosto.
Ao fim do dia não se encontravam.
Só de manhã, naquele começo de dia lavado e perfumado, cheiroso e apetitoso...
Naquela sexta-feira à tarde teve uma vontade muito forte de cuidar dela mesma. Havia pouco movimento, decidiu-se a pedir o gozo de umas horas a que tinha direito. Sem problema. Saiu então, pouco depois do almoço, sentindo-se fresca, impaciente, com vontade de mudar.
Coincidência, ou não, havia umas promoções de lingerie numa loja que ela muito cobiçava.
Decidiu-se por um «body» preto, de renda, muito sexy e uma camisa de noite azul-escura acetinada. Sentia-se linda e sexy, enquanto segurava o saco com uma imagem sugestiva de publicidade da loja.
Cerca das 5 h retornou a casa. No átrio do prédio, premindo o botão do elevador: ele!
Sentiu-se ruborizar, virou o saco para esconder a imagem provocadora, mas ambas as faces eram iguais, que fazer?...Agora nada. Ele já a viu e fez um aceno de cabeça. O elevador chegou. Ele retém a porta...quem sabe?...Ela estuga o passo e entra no elevador, sentindo que «é o dia». Muito vermelha e atrapalhada, sem saber como , o saco resvala-lhe da mão e deixa cair o «body», numa embalagem "ilustrada".
Num momemnto verdadeiramente cinematográfico, ele baixa-se e apanha a embalagem. Depois - ela juraria que foi em câmara lenta - ele sobe até ao nível dos olhos dela...ela sente que é uma situação embaraçosa, mas...talvez...
Com voz extraordinariamente sensual e exibindo um sorriso, ele diz: "Bem bonito! Muito sexy!" e, após uma pausa, "A minha mulher tem um igual."
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Personalização?
A loja do cidadão estava cheia.
Diferentes balcões e serviços; senhas com letras diferentes, paineis de informação que não permitiam a leitura dos lugares sentados, fazendo-nos esticar o pescoço, como uma fila de pássaros alinhados sobre os fios dos telefones.
Talvez a maior enchente fosse no IEFP. Desempregados, pensei.
Uma funcionária, só, assegurava o balcão do ADSE, visivelmente esgotada. Foi quase num lamento que informou a senhora idosa, trazida por outra funcionária de um outro balcão, que os papeis tinham de ser preenchidos por ela. A senhora hesitava, cansada de informações incompletas e de passar de funcionário em funcionário. Quase suplicava uma ajuda. "Mas eu não posso mesmo...porque são muitas coisas para preencher e estão outras pessoas para atender...Eu estou sozinha..."Olhava em redor visivelmente incomodada.
Acabei por me oferecer para ajudar. Eram uns formulários não muito complicados, mas, claro, quando a pessoa já é idosa e cansada, tudo se torna mais difícil. Com mais de setenta anos, toma conta do marido com doença de Alzeihmer e teve de pedir a uma vizinha para o vigiar, depois de lhe ter dado um comprimido para dormir e estava em risco de não resolver as coisas...
Por fim tudo se resolveu, mas depois de um escada-acima-escada-abaixo, várias declarações e papeis diferentes depois.
A senhora insistou muito em me pagar um café e em trocarmos moradas, para que um dia os visitasse. Separámo-nos depois, com beijinhos, abraços e agradecimentos genuínos.
Retomei a minha jornada, no metro, a pensar nos paradoxos do nosso tempo: apaguei do telemóvel há pouco tempo as mensagens que recebi no dia do meu aniversário, da cabeleireira, do ginásio, do banco, da clínica de fisioterapia que frequentei, de umas sapatarias de que tenho cartão e de uma livraria. Tudo muito personalizado. Parece que estamos todos juntos e solidários neste mundo e quando precisamos que alguém nos acalme e ajude com uma coisa simples, percebemos que estamos sozinhos, numa sala cheia de gente, na sua maioria desocupada e fechada em si mesma.
Não me parece que este tempo seja pior que os outros...todos os tempos têm os seus paradoxos, mas parece-me que este tempo tinha obrigação de ser melhor, mais solidário, menos mecânico, mais humano. Que me interessa que no mesmo dia, vários computadores tenham gerado mensagens iguais com o meu nome, só porque tinham sido programados para tal? Que me interessa pertencer ao clube de "não sei o quê", se, quando ligo o número de telefone que me oferecem, passo de atendimentos automáticos em atendimentos automáticos e não tenho direito a uma voz humana que me responda, a mim, ao que eu pergunto? De que me serve receber mais de 10 mensagens de aniversário, se não tiver ninguém com quem partilhar a fatia do bolo? Alguém que me ajude a levantar quando eu cair?
Falamos de atendimentos personalizados como se eles existissem!
Atendimento personalizado foi a minha conversa com a D. Albertina, que terminou num café, num abraço e num olhar de ternura: em solidariedade humana.
Como se diz várias vezes ao dia, na rádio que ouço: "Vale a pena pensar nisto".
Diferentes balcões e serviços; senhas com letras diferentes, paineis de informação que não permitiam a leitura dos lugares sentados, fazendo-nos esticar o pescoço, como uma fila de pássaros alinhados sobre os fios dos telefones.
Talvez a maior enchente fosse no IEFP. Desempregados, pensei.
Uma funcionária, só, assegurava o balcão do ADSE, visivelmente esgotada. Foi quase num lamento que informou a senhora idosa, trazida por outra funcionária de um outro balcão, que os papeis tinham de ser preenchidos por ela. A senhora hesitava, cansada de informações incompletas e de passar de funcionário em funcionário. Quase suplicava uma ajuda. "Mas eu não posso mesmo...porque são muitas coisas para preencher e estão outras pessoas para atender...Eu estou sozinha..."Olhava em redor visivelmente incomodada.
Acabei por me oferecer para ajudar. Eram uns formulários não muito complicados, mas, claro, quando a pessoa já é idosa e cansada, tudo se torna mais difícil. Com mais de setenta anos, toma conta do marido com doença de Alzeihmer e teve de pedir a uma vizinha para o vigiar, depois de lhe ter dado um comprimido para dormir e estava em risco de não resolver as coisas...
Por fim tudo se resolveu, mas depois de um escada-acima-escada-abaixo, várias declarações e papeis diferentes depois.
A senhora insistou muito em me pagar um café e em trocarmos moradas, para que um dia os visitasse. Separámo-nos depois, com beijinhos, abraços e agradecimentos genuínos.
Retomei a minha jornada, no metro, a pensar nos paradoxos do nosso tempo: apaguei do telemóvel há pouco tempo as mensagens que recebi no dia do meu aniversário, da cabeleireira, do ginásio, do banco, da clínica de fisioterapia que frequentei, de umas sapatarias de que tenho cartão e de uma livraria. Tudo muito personalizado. Parece que estamos todos juntos e solidários neste mundo e quando precisamos que alguém nos acalme e ajude com uma coisa simples, percebemos que estamos sozinhos, numa sala cheia de gente, na sua maioria desocupada e fechada em si mesma.
Não me parece que este tempo seja pior que os outros...todos os tempos têm os seus paradoxos, mas parece-me que este tempo tinha obrigação de ser melhor, mais solidário, menos mecânico, mais humano. Que me interessa que no mesmo dia, vários computadores tenham gerado mensagens iguais com o meu nome, só porque tinham sido programados para tal? Que me interessa pertencer ao clube de "não sei o quê", se, quando ligo o número de telefone que me oferecem, passo de atendimentos automáticos em atendimentos automáticos e não tenho direito a uma voz humana que me responda, a mim, ao que eu pergunto? De que me serve receber mais de 10 mensagens de aniversário, se não tiver ninguém com quem partilhar a fatia do bolo? Alguém que me ajude a levantar quando eu cair?
Falamos de atendimentos personalizados como se eles existissem!
Atendimento personalizado foi a minha conversa com a D. Albertina, que terminou num café, num abraço e num olhar de ternura: em solidariedade humana.
Como se diz várias vezes ao dia, na rádio que ouço: "Vale a pena pensar nisto".
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Palavras repetentes
domingo, 11 de abril de 2010
sábado, 10 de abril de 2010
Será que as capicuas dão sorte?
Parece ser uma tradição que remonta aos romanos, uma superstição.
Será que as capicuas dão mesmo sorte? Espero que sim, num dia azul.
Será que as capicuas dão mesmo sorte? Espero que sim, num dia azul.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
"Tomar um café" com amigos é muito mais que esvaziar uma chávena

Na mesma mesa de café, onde costumamos "preguiçar" o início do fim de semana, nos juntámos hoje, mais apressados, contristados, para combinar quem levava carro e quem comprava as flores para o funeral do pai de uma de nós.
Mais uma vez penso na amizade, na solidariedade, no conforto que nos dá, sabermos que existe um «nós», para os melhores e piores momentos.
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Partículas de Felicidade
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Olhar o céu azul e inventar uma moldura
"Dias úteisàs vezes pretextos fúteis
pra encontrar felicidades
no percurso de um só dia
Dias úteis
são tão frágeis, as verdades
que se rompem com a aurora
quem as não remendaria?
Dias úteis
mesmo se a dor nos fizer frente
a alegria é de repente
transparente
quem a não receberia?
Mesmo por pretextos fúteis
a alegria é o que nos torna
os dias úteis
Dias raros
aqueles que por amparos
do bom senso e da imprudência
fazem os prazeres do dia
Dias raros
como os ares, Rarefeitos
amores mais do que perfeitos
quem os recomendaria?
Dias raros
em que os mais dados às rotinas
ouvem sinos, seguem sinas
cristalinas
quem as não perseguiria?
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
a alegria é o que nos torna
os dias úteis
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
por motivos talvez claros"
Sérgio Godinho, Dias úteis
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