O cabeleireiro estava cheio. Sobretudo mulheres, mas também dois homens e duas crianças.
E eu pensei: "Que maçada!...Logo haviam de ter vindo todos hoje..."
Provavelmente os que não conseguiram vir hoje estarão lá amanhã.
Será por ser fim de mês, semana da Páscoa, início da Primavera? "Não, claro que não - decidi - para mim é uma altura como outra qualquer...apeteceu-me apenas melhorar o visual."
Talvez se perguntássemos a todas aquelas pessoas elas dessem uma resposta semelhante à minha...
Mas o que é certo é que há ritmos, há rituais, dos quais nem temos bem consciência.
Lembrei-me que, quando era criança, sempre me intrigavam as migrações dos animais, das andorimhas, por exemplo. Porque, muitas vezes, ainda não havia uma Primavera muito notória, mas elas lá estavam. Como é que elas sabiam em que altura haviam de partir? De mudar?
Sorri mentalmente por me recordar de todas estas questões que muito me preocupavam quando era mais pequena (na idade dos porquês).
Hoje já não penso tanto nisso, mas vou reconhecendo que há ritmos e rituais que se nos impõem, que parecem fazer parte de nós.
Posso dizer que foi coincidência...mas talvez seja forçado, pois foi nesta semana - santa e de inícios de Primavera - que me apeteceu arrumar e escolher a roupa para poder comprar outra e mudar o meu estilo de cabelo.
Será que somos todos um pouco andorinhas? Terá sido por acaso que o cabeleireiro estava cheio hoje? E a moda Primavera/Verão invadiu as lojas?
Há ritmos na Terra que nos precedem e nos integram.
Somos - conscientemente ou não - cumpridores de rituais que escapam ao nosso entendimento, que nos integram num mundo maior, numa realidade de que nem sempre temos consciência.
Eu também não sei bem o que são...mas vou registando, nestes apontamentos, ciclos, vontades, coincidências, repetições rituais...que acontecem, como que por acaso.
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
quarta-feira, 31 de março de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
A Semana Santa é Roxa
Roxo, violeta, púrpura, vermelho-escuro...
Aparecem como sinónimos, mas para mim são diferentes.
Roxo invoca luto...mas também luxo, ou a dignidade cardinalícia. Aí talvez seja mais vermelho-escuro, que é cor de veludo...ou será carmim? E é aqui que entra o grená? Será o mesmo que roxo? E o que significa o roxo?
Pode ficar-se roxo quando não se tem ar...será uma cor sufocante?...
As nódoas negras passam a roxas, com o tempo, ou violáceas, é isso, as nódoas negras ficam violáceas. Assim é uma cor agressiva. Mas as violetas são bonitas...
E há também uma cor que eu chamo alfazema, mas alfazema é um aroma, não é?
E lavanda? É o mesmo que alfazema?
E são cores da Primavera...ou cheiros?...ou tons?...
A Semana Santa é roxa, de cor e cheiro. De luto...
Aparecem como sinónimos, mas para mim são diferentes.
Roxo invoca luto...mas também luxo, ou a dignidade cardinalícia. Aí talvez seja mais vermelho-escuro, que é cor de veludo...ou será carmim? E é aqui que entra o grená? Será o mesmo que roxo? E o que significa o roxo?
Pode ficar-se roxo quando não se tem ar...será uma cor sufocante?...
As nódoas negras passam a roxas, com o tempo, ou violáceas, é isso, as nódoas negras ficam violáceas. Assim é uma cor agressiva. Mas as violetas são bonitas...
E há também uma cor que eu chamo alfazema, mas alfazema é um aroma, não é?
E lavanda? É o mesmo que alfazema?
E são cores da Primavera...ou cheiros?...ou tons?...
A Semana Santa é roxa, de cor e cheiro. De luto...
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segunda-feira, 29 de março de 2010
só mesmo por invenção
"De linho te vesti
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei ...
Sei dos teus olhos acesos na noite
Sinais de bem despertar
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar ...
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer
Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei
Dei do meu corpo um chicote de força
Rasei meus olhos com água
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de mágoa
Dei do meu sonho uma corda de insónias
Cravei meus braços com setas
Descobri rosas alarguei cidades
E construí poetas
E nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não logrei
Mas quis
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer
Então:
Nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos,
Nem pedras, nem facas, nem fomes, nem secas,
Nem feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas,
Nem forcas, nem cardos, nem dardos, nem guerras
Nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos,
Nem pedras, nem facas, nem fomes, nem secas,
Nem feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas,
Nem mal ... ... ... "
Canção de Madrugar, Ary dos Santos
De nardos te enfeitei
Amor que nunca vi
Mas sei ...
Sei dos teus olhos acesos na noite
Sinais de bem despertar
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar ...
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer
Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei
Dei do meu corpo um chicote de força
Rasei meus olhos com água
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de mágoa
Dei do meu sonho uma corda de insónias
Cravei meus braços com setas
Descobri rosas alarguei cidades
E construí poetas
E nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não logrei
Mas quis
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há-de acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer
Então:
Nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos,
Nem pedras, nem facas, nem fomes, nem secas,
Nem feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas,
Nem forcas, nem cardos, nem dardos, nem guerras
Nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos,
Nem pedras, nem facas, nem fomes, nem secas,
Nem feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas,
Nem mal ... ... ... "
Canção de Madrugar, Ary dos Santos
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Palavras de Outros
O Amor
Quanto da pessoa que amamos será uma invenção nossa?
Até que ponto é real a imagem que criámos de um outro ser que nos completa?
Haverá verdade no Amor ou só Ilusão, Desejo, Criação Involuntária?
Podemos mesmo amar outra pessoa?...Por vezes só amamos a ideia de sermos amados...E inventamos um ser, à medida, para o fazer.
E porque a invenção não mais é que isso mesmo, um dia a ilusão desfaz-se...a realidade fere, mas a necessidade de amar irá engendrar outra mitologia...e outra...e outra...
E há os que desistem. Mas só oficialmente. No fundo, a sua imagem amada é tão irreal que nem consegue encontrar semelhanças com a realidade e por isso dizem que desistem.
São falsos. Todo o Amor é falso: é falso quando se diz que ama e é falso quando diz que se não ama.
Amar é uma necessidade!
Não acredito na desistência do Amor; não acredito na Resistência do Amor.
Acredito num Amor que preexiste a tudo e que subsiste a tudo, porque existe só no plano dos nossos desejos, dos nossos sonhos, no sótão dos sentimentos que todos mantemos em segredo.
O Amor...
Dito com desdém ou com ternura, o Amor só a nós pertence e àqueles que nele inventamos.
Até que ponto é real a imagem que criámos de um outro ser que nos completa?
Haverá verdade no Amor ou só Ilusão, Desejo, Criação Involuntária?
Podemos mesmo amar outra pessoa?...Por vezes só amamos a ideia de sermos amados...E inventamos um ser, à medida, para o fazer.
E porque a invenção não mais é que isso mesmo, um dia a ilusão desfaz-se...a realidade fere, mas a necessidade de amar irá engendrar outra mitologia...e outra...e outra...
E há os que desistem. Mas só oficialmente. No fundo, a sua imagem amada é tão irreal que nem consegue encontrar semelhanças com a realidade e por isso dizem que desistem.
São falsos. Todo o Amor é falso: é falso quando se diz que ama e é falso quando diz que se não ama.
Amar é uma necessidade!
Não acredito na desistência do Amor; não acredito na Resistência do Amor.
Acredito num Amor que preexiste a tudo e que subsiste a tudo, porque existe só no plano dos nossos desejos, dos nossos sonhos, no sótão dos sentimentos que todos mantemos em segredo.
O Amor...
Dito com desdém ou com ternura, o Amor só a nós pertence e àqueles que nele inventamos.
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