Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Estratégia Temporal
"É a queixa do milénio: não tenho tempo para ter tempo. (...)
Encontrar o nosso próprio ritmo, a nossa medida, (...) é um trunfo. Fazer isto é fazer uma finta ao tempo., sabendo usá-lo com a nossa inteligência. O tempo não tem estratégias, só consegue avançar sempre da mesma forma e sempre com a mesma pressa. A nós cabe-nos a admirável agilidade de o fazer render, de o usar, porque ele não cede um segundo."
Oliveira, A.M. e Cannas, J., O Ritmo da Vida in Admirável Mundo, p. 59
Encontrar o nosso próprio ritmo, a nossa medida, (...) é um trunfo. Fazer isto é fazer uma finta ao tempo., sabendo usá-lo com a nossa inteligência. O tempo não tem estratégias, só consegue avançar sempre da mesma forma e sempre com a mesma pressa. A nós cabe-nos a admirável agilidade de o fazer render, de o usar, porque ele não cede um segundo."
Oliveira, A.M. e Cannas, J., O Ritmo da Vida in Admirável Mundo, p. 59
domingo, 10 de janeiro de 2010
Um auto-retrato
"Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinquenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinquenta anos, mas tudo bem).
(...)
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho, ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda."
Antonio Prata, do texto "Bar Ruim é lindo, bicho"(2004), publicado na Antologia de Crônicas, Boa Companhia
(...)
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho, ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda."
Antonio Prata, do texto "Bar Ruim é lindo, bicho"(2004), publicado na Antologia de Crônicas, Boa Companhia
sábado, 9 de janeiro de 2010
Palavras de Esperança em Tempo de Crise
"Ninguém que se entusiasme com o seu trabalho
tem algo a temer na vida"
Samuel Goldwyn (1879-1974) - Produtor de Cinema
tem algo a temer na vida"
Samuel Goldwyn (1879-1974) - Produtor de Cinema
Apanhada nas Palavras
Andava aqui eu à volta dos regimes de propriedade medieval: Honras, Coutos, Alódios e Reguengos - que sempre vou relacionando com actuais nomes de terras - quando leio a seguinte descrição:
"O couto – do latim «cautum», que significa «segurança» - era um privilégio outorgado a um território ou a um simples local, que assim ficava excluído da jurisdição régia. O «marco de couto», ou «lugar de couto», tanto podia ser uma casa ou uma simples porta, um acidente do terreno ou um curso de água, etc., que o fugitivo devia alcançar para se encontrar ao abrigo da justiça do rei." (Cocheril, Dom Maur, Alcobaça, Abadia Cisterciense de Portugal, p. 27)
E lembrei-me do jogo da apanhada. Lembram-se? Havia um lugar que era salvo, onde não nos podiam apanhar, quando lá chegávamos gritávamos: Coito!
Era demasiado semelhante para não ter uma relação! E lá fui eu à procura dela:
"Todos os outros jogadores terão de fugir do «apanhador», dentro de um determinado recinto, existindo no entanto um local previamente determinado, designado por «coito», dentro do qual os jogadores não podem ser apanhados."(Pereira, Patrícia, Brincar com Tradições, p. 26, Município de São Bras de Alportel)
A condição de alcançar um determinado local e ficar a salvo era mesmo demasiado similar para não ter a mesma origem. Continuando...
No dicionário online priberam, lá estava esclarecido que "Coito" pode ter como significado "o mesmo que couto", que "Couto" significa "Asilo, Refúgio" e que "Acoitar" é uma palavra antiga, que significa "dar couto ou guarida"
Pessoalmente, lembro-me desta última como sentido de esconder, de dar cobertura a algo de ilegal, de cumplicidade...o que também não está fora do contexto.
E pronto: foi uma viagem interessante de ligações entre palavras, esquecidas, estudadas, brincadas e nunca dantes pensadas. Mas, como sempre, uma viagem fascinante de descoberta entre as palavras, a sua evolução, os seus significados. E, além do mais,inesperada: Uma pausa para brincar...à apanhada das palavras!
"O couto – do latim «cautum», que significa «segurança» - era um privilégio outorgado a um território ou a um simples local, que assim ficava excluído da jurisdição régia. O «marco de couto», ou «lugar de couto», tanto podia ser uma casa ou uma simples porta, um acidente do terreno ou um curso de água, etc., que o fugitivo devia alcançar para se encontrar ao abrigo da justiça do rei." (Cocheril, Dom Maur, Alcobaça, Abadia Cisterciense de Portugal, p. 27)
E lembrei-me do jogo da apanhada. Lembram-se? Havia um lugar que era salvo, onde não nos podiam apanhar, quando lá chegávamos gritávamos: Coito!
Era demasiado semelhante para não ter uma relação! E lá fui eu à procura dela:
"Todos os outros jogadores terão de fugir do «apanhador», dentro de um determinado recinto, existindo no entanto um local previamente determinado, designado por «coito», dentro do qual os jogadores não podem ser apanhados."(Pereira, Patrícia, Brincar com Tradições, p. 26, Município de São Bras de Alportel)
A condição de alcançar um determinado local e ficar a salvo era mesmo demasiado similar para não ter a mesma origem. Continuando...
No dicionário online priberam, lá estava esclarecido que "Coito" pode ter como significado "o mesmo que couto", que "Couto" significa "Asilo, Refúgio" e que "Acoitar" é uma palavra antiga, que significa "dar couto ou guarida"
Pessoalmente, lembro-me desta última como sentido de esconder, de dar cobertura a algo de ilegal, de cumplicidade...o que também não está fora do contexto.
E pronto: foi uma viagem interessante de ligações entre palavras, esquecidas, estudadas, brincadas e nunca dantes pensadas. Mas, como sempre, uma viagem fascinante de descoberta entre as palavras, a sua evolução, os seus significados. E, além do mais,inesperada: Uma pausa para brincar...à apanhada das palavras!
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