domingo, 11 de outubro de 2009

Temos de concordar

que o S. Pedro também não está a ajudar muito.
Um dia assim? Francamente!
Apetece muitas coisas...e votar, não está entre as primeiras da lista.
E, no entanto, nunca tinha visto fila para votar nesta minha nova terra muito mais pequena que a antiga.
Ou será que eu já «enpequenei» de tal forma que chamo agora «fila» ao que antes consideraria um grupito de pessoas?
É que nós mudamos conforme o sítio onde estamos: Se dantes era aqui a terra que me parecia pequena, agora é sempre Lisboa que me parece muito grande!...

sábado, 10 de outubro de 2009

Outonal

"Mais uma vez é preciso
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração

E sabe deus a minha humana mão"

Ruy Belo (1933-1978)

Colhido em Poemário Assírio & Alvim 2006

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

As últimas!

É muito difícil, numa terra pequenita, em que quase toda a gente se conhece, sair à rua no último dia de campanha para as autárquicas.
Creio que fiz umas boas gincanas nas ruas do centro da cidade, mas consegui evitar todas as caravanas e comitivas, onde havia sempre - sem falha - algum elemento conhecido.
À noite, vou pôr a televisão bem alta, para não ouvir as buzinas «campanhísticas».
Que inferno! Nunca estive tão desmotivada para a política! E não sei como resolver isto!

José Mayer

Começou uma nova novela brasileira com José Mayer como protagonista.
Eu comecei a ver.
Não vou dizer que foi por ele ser o protagonista...mas também não é um facto sem qualquer relevância, reconheço.
Hoje, de tarde, enquanto esperava que chamassem o meu nome num consultório médico, vi, numa reposição de «Mulheres Apaixonadas», uma cena romântica em que J. Mayer assumia o papel de «homem perfeito»: bonito, galante, carinhoso, com a palavra e os gestos certos.
E dei comigo a pensar: Como será José Mayer a sério? Que dirá ele, na intimidade, quando não tem um guião para se guiar? Será que o peso de todas as personagens «perfeitas» que tem interpretado, não inibem o homem, a sério, na intimidade, em que será tão só um homem? Ou será que ele absorveu as personagens de tal maneira que as usa como seu guião pessoal?
Será possível a um homem que interpreta aqueles papeis, depois, ser, simplesmente um homem?
Será que é possível, na realidade, superar aquelas personagens? Será que alguém espera que ele o faça? Será possível ser ele só?
Bem...por alguma coisa ele é escolhido para aqueles papeis. Pois se até eu - que me tenho na conta de ser superior a estas coisas - estou para aqui a «agalinhar» desta maneira!...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

"Anjo não tem sexo mas tem asas, o que não chega a ser uma compensação"

Najjar Jr. Desaforismos

E vem-nos à memória uma frase já lida

Hoje de tarde senti-me sozinha numa sala cheia de gente que falava ruidosamente.
Regressei a casa e liguei a televisão. Estão a dar as notícias da campanha eleitoral.
E lembrei-me que Najjar Jr. diz que "Muita gente fala sem pensar por falta de opção"

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

História (residual) de um tempo livre na Escola de Hoje e considerações anacrónicas sobre a mesma

Ele estava ali sozinho; olhava ocasioalmente para o telemóvel, mas, na maior parte do tempo, estava com o olhar parado, preso em qualquer coisa que não era visível.
Passei para o bar...fui à papelaria...demorei-me a conversar com a funcionária...e cada vez me intrigava mais a presença daquele aluno, numa sala quase vazia, sem uma explicação perceptível.
Por fim, interpelei-o: "Então rapaz? Aqui sozinho...onde estão os outros?"
"É que eu não tenho visual..."
"Ah, por causa da música, não é?" Ele acenou afirmativamente "Então e...ir à biblioteca?...fazer qualquer coisa?..."
"Não, obrigado. Estou bem assim."
E estava. Era um facto. A única que estava incomodada era eu.
E continuo incomodada. Então, tanta palhaçada para ocuparmos os meninos nos tempos livres, não podem estar desocupados, não podem estar livres, têm de estar sempre ocupados, mesmo que a babysitter se sinta ridícula e ultrajada por a obrigarem a fazer um trabalho sem sentido e, de repente, por causa da educação artística - a qual aplaudo vivamente, pois o país precisa de artistas, precisa de sonhar, cada vez mais - aquele menino fica assim...à mercê da ociosidade?
Mas, por favor, não digam nada a ninguém. Pois está bem de ver que se aquele jovem tem uma hora livre a culpa deve ser dos malvados dos professores, que não perceberam a existência de um vazio. Terão de remediar isso! Com mais horas de substituição. Com actividades de projectos...de quê? Não interessa. Projectos. Porque é preciso saber fazer projectos. Mesmo que da treta, do nada. Mas uma pessoa que sabe fazer um projecto é muito mais pessoa. Mais pessoa humana, talvez.
Estranho. Bizarro, mesmo, esta situação, num país que jurou preencher todos os tempos dos seus jovens para não os deixar decidir nada, nem tempo para pensar, para brincar, para sonhar. Rapidamente e em força a ocupar todos os tempos deste jovens para que tenham muitas horas de preenchimento de tarefas. Muitas horas que anulam as horas de aprendizagem que se faz sem planos, nem currículos, nem avaliações. Que se faz sem rede, vivendo.
Fantástico como o rapaz se acomodava bem a não fazer nada! Mas, se calhar também é isso que faz falta. Só que estava sozinho e não me parece que fosse possível aprender nada assim. Talvez ele não queira aprender nada. Talvez a atitude verdadeiramente original neste país enquadrado e formatado pela terapia ocupacional da treta seja mesmo a recusa da aprendizagem embrulhada em conteúdos e servida em tempos lectivos. A favor da verdadeira aprendizagem: a da vida. Que, talvez os nossos governantes ensinadores não saibam, mas pode mesmo ser vivida, dia a dia, sem programação rigorosa - uma aventura de surpresas. Cheia de perigos, sem dúvida, mas, por isso mesmo, tão aliciante.
Palavras anacrónicas, estas. Remetem para um tempo em que a sala de convívio era isso mesmo, em que a falta de um professor implicava um acto consciente de decidir o que fazer com aquela hora. Tão bom: decidir o que fazer com um furo. Decidir, pensar, exercitar o direito à individualidade. Porque no fundo o que nos poderia distinguir era o sentido das decisões que tomávamos.
Talvez seja isso mesmo que se quer evitar: o direito à diferença, à decisão, à vida consciente, ao perigo constante que obrigava os pais a educarem os filhos e a tomarem parte activa no seu crescimento, a sentirem-se, também, autores, dessas obras de arte únicas que eram as pessoas, cada uma das pessoas. Antes da massificação que nos sufoca - Essa é a verdadeira asfixia democrática: a submersão pela mediocridade indiferenciada das massas.
Felizmente ainda não desenvolveram a tecnologia a ponto de nos limparem as memórias. Assim, posso sempre manter - e divulgar - resquícios de memória de outros tempos, que, de facto, existiram.