quinta-feira, 23 de julho de 2009

Oração

Esperguicei-me devagarinho...estendi o braços fora do lençol e ouvi aquele som tão característico...para cima e para baixo, para um lado e para o outro.
Comecei a sorrir.- Não sabia que ainda havia amoladores!...Será que ainda têm trabalho?...Não sei como se chama aquilo que tocam, mas quando era pequenina diziam que anunciava a chuva.
Mas hoje...hoje, celebrava o dia a tirar o impermeável depois das chuvadas da noite.
Os pássaros cantavam muito, muito, e eu comecei a imaginá-los a espanejarem-se sobre as folhas das árvores, cheias de gotinhas...
O dia correu bem, tão bem, que agora, na hora de deitar, me lembrei do meu esperguiçar da manhã...que eu queria que fosse todos os dias assim.

Ontem, quando atirei com os ossos para cima da cama, vencida pelo cansaço, lembro-me de ter pensado "Que se lixe!"
Hoje, de manhã, perante aquele hino da Natureza, o som meio recordado do amolador (não sei como se chama o instrumento que ele toca) e o sentir-me bem...pensei que ontem deveria ter tido como último pensamento da noite algo mais cristão, mais bonito, mais...sei lá...
Vou corrigir agora: Até amanhã se Deus quiser!

Ai! 'Tou Farta Disto Tudo!

"Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda
(...)
Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
ai a dor que tenho aqui
ai o gajo também é
ai a vida que tu levas
ai tu não faças asneiras
ai mulher és o demónio
ai que terrível tragédia
ai a culpa é do António
(...)
Ai que vontade de rir

E os ais de D. Dinis
ai Deus e u é

Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém

Os ais da vida e da morte
ai os ais deste país."

Mendes de Carvalho, Cantiga dos Ais

Trabalhando como a Formiga, mas ansiando por ser Cigarra!

"Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base de uns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria de fome.
E, realmente...
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura."

Miguel Torga, Fábula da fábula

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Bateram à porta, com força.

Abri. Eras tu, vestido de polícia.
- Vim-te prender - disseste
- Mas tu não és polícia...
- Como nunca mais te quero perder vim algemar os nossos corações um ao outro!
Comecei a recuar até sair do Sonho e ficar de pé na Realidade.
- Que estupidez! - pensei - Será que andam a adicionar substâncias alucinogéneas nos iogurtes da Mimosa?

A cair da tripeça

É mais ou menos como eu me sinto, depois de ler e reler, escrever e reeescrever o mesmo texto, que me sobra em páginas pelo definido para o trabalho...a entregar...hoje...não, ontem...já não foi...tenho de reduzir... talvez amanhã...o tempo escasseia...
Porque hei-de ser tão palavrosa?
Para guardadora de palavras podia guardar algumas e não atirar com todas elas para o texto, mais esta, e aquela...ficam tão bem juntas...
Vaidosa de escrever, arrebico-me em estilos inúteis para o carácter do trabalho.
E ainda sobra...
Acho que vou dormir...
Não sei se consigo dormir. Vou sonhar com o trabalho que sobra em palavras para o estipulado.
Se ao menos não fosse tão vaidosa e tão ciosa com a minha escrita. Contava palavras, cortava no estilo, deitava fora três ou quatro citações...
Não sou capaz.
Cortar palavras é demais para mim.
Detesto espartilhos, não me deixam respirar!
- Mas sabes que tem de haver limites!
- Claro que tem de haver limites. Escrevi 27 páginas porque o limite era de 20. A professora sabia o que fazia! Se o limite fosse 50, estava eu a tentar reduzir as 72.
Valha-me Deus! Que mania de escrever!
E nem me sobrou tempo para aprender a andar nos sapatos de salto-agulha que tem a minha gerente de conta no banco. Isso é que era! Mulher imponente, faz virar cabeças!
Na próxima incarnação vou ser bonita desde pequenina e aprender a andar em sapatos de salto-agulha e talvez não tenha problemas para arrumar palavras... Resolve-se tudo com um sorriso de sapatos de salto-agulha. Aquela mulher nem precisa de falar! Sorri de cima dos sapatos e sabe-se que vai conseguir o que quer.
Valha-me Deus! O que é que eu faço ao texto?...E ainda por cima com sapatos rasos!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Saber nesperar, se calhar não é uma virtude...

"Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia


Chegou a Velha
e disse
«olha uma nêspera»
e zás! comeu-a.

É o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece"

Mário-Henrique Leiria

Retirado de Flagrante Delícia, onde existem, a propósito, receitas culinárias com nêsperas

Impossível não recordar Mário Viegas e estas palavras ditas!

Ociosidade Estival

"Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar a quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Sr. O'Neill! E...as varizes?"


Alexandre O'Neill, Que vergonha, rapazes!