"Quando o carteiro chegou,
e o meu nome gritou,
com uma carta na mão.
Ante surpresa tão rude,
nem sei como pude
chegar ao portão.
(...)
Porém não tive coragem
de abrir a mensagem
porque na incerteza,
eu meditava e dizia:
Será de alegria? Será de tristeza?
Tanta verdade risonha
ou mentira tristonha,
uma carta nos traz.
Assim, pensando rasguei, sua carta
e queimei, para não sofrer mais."
Mensagem, de Cícero Nunes e Aldo Cabral, cantado por Maria Bethânia em Imitação da Vida (1997)
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
quarta-feira, 20 de maio de 2009
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Não se encolher no «Portugal dos pequeninos»
Foi ontem a Gala dos Globos de Ouro da SIC. Um grande espectáculo, por sinal.
Fez-me ter saudades daqueles espectáculos de «Variedades», em que passavam os nossos artistas, nós cantarolávamos qualquer coisa e comentávamos os fatos, as medidas e os rejuvenescimentos ou envelhecimentos...daqueles espectáculos que toda a gente comentava no dia a seguir... no tempo do monocanal, claro. Quer dizer, no meu tempo sempre foram dois, mas toda a gente comentava os programas do primeiro e muito poucos os do segundo...
Bem, mas não foi uma nota nostálgica que eu resolvi «postar» (isto já é verbo?) aqui. Muito pelo contrário. Foi uma nota de admiração pela coragem do nosso Feio, que eu ontem achei Lindo.
Começando pelo princípio: António Feio foi convidado para entregar um Globo de Ouro. Ele nunca recebeu nenhum, facto notado por Barbie Guimarães, anfitriã da noite.
Comportando-se como se estivesse ali para o receber, António Feio efectuou alguns agradecimentos e, em meu entender, deu uma «bofetada com luva de pelica» ao país, aos liliputianos (e às liliputianas também, claro) que fazem disto, às vezes, um «Portugal dos Pequeninos».
O António Feio foi então um Gulliver ao agradecer ao seu pâncreas, pois parece ser graças a ele que tem sido ultimamente convidado para todo o lado, saído em tudo o que é comunicação social (e também no Jornal 24 horas) e foi até capa de revista!...
Fiquei muito emocionada com a força e a coragem daquele homem que, em vez de se agachar e agradecer muito o interesse que toda a papelada tem tido pela doença dele, basicamente para o declarar «com os pés para a cova», acusou o país (com muita elegância e humor) de um certo gosto necrófilo, que só se interessa pelas pessoas quando lhes cheira a morte, a desgraça, a vale de lágrimas, a fatalismo, a um fado desgraçado qualquer.
Grande António Feio, que não só se propõe enfrentar a doença, como o país que passa de leve pelo seu excelente trabalho e faz reportagens de fundo com os seus problemas de saúde; ignora aquilo por que ele é responsável, e explora aquilo de que ele não tem culpa nenhuma.
Não só Feio, como Forte. Forte e Feio, como o título do seu livro.
E infinitamente Lindo pela coragem demonstrada!
Fez-me ter saudades daqueles espectáculos de «Variedades», em que passavam os nossos artistas, nós cantarolávamos qualquer coisa e comentávamos os fatos, as medidas e os rejuvenescimentos ou envelhecimentos...daqueles espectáculos que toda a gente comentava no dia a seguir... no tempo do monocanal, claro. Quer dizer, no meu tempo sempre foram dois, mas toda a gente comentava os programas do primeiro e muito poucos os do segundo...
Bem, mas não foi uma nota nostálgica que eu resolvi «postar» (isto já é verbo?) aqui. Muito pelo contrário. Foi uma nota de admiração pela coragem do nosso Feio, que eu ontem achei Lindo.
Começando pelo princípio: António Feio foi convidado para entregar um Globo de Ouro. Ele nunca recebeu nenhum, facto notado por Barbie Guimarães, anfitriã da noite.
Comportando-se como se estivesse ali para o receber, António Feio efectuou alguns agradecimentos e, em meu entender, deu uma «bofetada com luva de pelica» ao país, aos liliputianos (e às liliputianas também, claro) que fazem disto, às vezes, um «Portugal dos Pequeninos».
O António Feio foi então um Gulliver ao agradecer ao seu pâncreas, pois parece ser graças a ele que tem sido ultimamente convidado para todo o lado, saído em tudo o que é comunicação social (e também no Jornal 24 horas) e foi até capa de revista!...
Fiquei muito emocionada com a força e a coragem daquele homem que, em vez de se agachar e agradecer muito o interesse que toda a papelada tem tido pela doença dele, basicamente para o declarar «com os pés para a cova», acusou o país (com muita elegância e humor) de um certo gosto necrófilo, que só se interessa pelas pessoas quando lhes cheira a morte, a desgraça, a vale de lágrimas, a fatalismo, a um fado desgraçado qualquer.
Grande António Feio, que não só se propõe enfrentar a doença, como o país que passa de leve pelo seu excelente trabalho e faz reportagens de fundo com os seus problemas de saúde; ignora aquilo por que ele é responsável, e explora aquilo de que ele não tem culpa nenhuma.
Não só Feio, como Forte. Forte e Feio, como o título do seu livro.
E infinitamente Lindo pela coragem demonstrada!
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sexta-feira, 15 de maio de 2009
Coincidências...
O Cristo Rei e a Barbie têm a mesma idade: 50 anos!
Nunca fui ao Cristo Rei e nunca tive uma Barbie.
Nunca fui ao Cristo Rei e nunca tive uma Barbie.
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Palavras repetentes
Conhecer
"A mente é um caos de deslumbramento." C. Darwin
Frase colhida na exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa
Frase colhida na exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa
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Têm a certeza?
Estamos cansados de ouvir falar da nossa falta de cultura, do baixo índice de leitura dos portugueses ou da sua fraca adesão à cultura!
Interiorizámos isso e já ninguém duvida.
Mas eu tenho uma opinião diferente, fruto de uma investigação aturada, que me tem consumido muito tempo ultimamente.
Passo a referir o campo de recolha das informações:
- A excelente exposição sobre Darwin, que a Gulbenkian exibe até 24 de Março (dados recolhidos no sábado à tarde)
- A renovada Feira do Livro de Lisboa - dados recolhidos no domingo de manhã e de tarde
- A peça de teatro "Os Maias no Trindade", exibida ontem no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria (estes dados são tão recentes, que ainda nem dormi sobre o assunto).
Pois qualquer um destes eventos estava cheio de gente. E muitas das pessoas eram jovens.
Portanto, eu acho - desenvolvi agora esta teoria - que a nossa caracterização de nós mesmos enquanto país, em termos culturais, é assim como um complexo de adolescente: por mais que nos digam que somos bonitos ou inteligentes, na adolescência, estamos naquela fase em que tudo parece difícil, em que a nossa vida é a pior de todas e em que qualquer problema se avoluma até ao nível de uma verdadeira tragédia grega.
Tal como nos complexos adolescentes, pouco disto é verdade. Nós só não vemos o nosso potencial e as nossas qualidades enquanto país, porque somos nós mesmos. Ninguém é bom juíz em causa própria e é só por isso que não vemos. Mas...temos um nobel da literatura, autores traduzidos pelo mundo inteiro, investigadores nas Universidades inglesas e americanas, os Buraka Som Sistema fazem a loucura no Japão e o cão do Obama é português!!!
Pronto, mas nada disto me tinha verdadeiramente convencido até fazer esta sofrida investigação de campo (tudo por amor à ciência e ao rigor das afirmações) em que tive de visitar uma Exposição, frequentar a Feira do Livro e assistir a uma Peça de Teatro. Agora ninguém mais me convence do contrário: quando as iniciativas são de qualidade o público adere!
(Quando não são também, como todas aquelas pessoas que dormiram à porta do Dolce Vita Tejo para a abertura, mas dessas, nós e o Tony Carreira, nunca duvidámos)
Temos a mania de caluniar a cultura dos portugueses, porque sim...Não são todos que lêem? Pois não. Não são todos que visitam exposições? Pois não. Mas alguma vez foram?...
Deixemos este pessimismo em que nos embrulhamos há anos e recebamos os aplausos que merecemos por nos levantarmos todos os dias e pormos o país a funcionar, dadas as qualidades (evidentes) de quem nos dirige e de todos os que se candidatam a fazê-lo nas campanhas que se avizinham.
«Viva Nós!»
Interiorizámos isso e já ninguém duvida.
Mas eu tenho uma opinião diferente, fruto de uma investigação aturada, que me tem consumido muito tempo ultimamente.
Passo a referir o campo de recolha das informações:
- A excelente exposição sobre Darwin, que a Gulbenkian exibe até 24 de Março (dados recolhidos no sábado à tarde)
- A renovada Feira do Livro de Lisboa - dados recolhidos no domingo de manhã e de tarde
- A peça de teatro "Os Maias no Trindade", exibida ontem no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria (estes dados são tão recentes, que ainda nem dormi sobre o assunto).
Pois qualquer um destes eventos estava cheio de gente. E muitas das pessoas eram jovens.
Portanto, eu acho - desenvolvi agora esta teoria - que a nossa caracterização de nós mesmos enquanto país, em termos culturais, é assim como um complexo de adolescente: por mais que nos digam que somos bonitos ou inteligentes, na adolescência, estamos naquela fase em que tudo parece difícil, em que a nossa vida é a pior de todas e em que qualquer problema se avoluma até ao nível de uma verdadeira tragédia grega.
Tal como nos complexos adolescentes, pouco disto é verdade. Nós só não vemos o nosso potencial e as nossas qualidades enquanto país, porque somos nós mesmos. Ninguém é bom juíz em causa própria e é só por isso que não vemos. Mas...temos um nobel da literatura, autores traduzidos pelo mundo inteiro, investigadores nas Universidades inglesas e americanas, os Buraka Som Sistema fazem a loucura no Japão e o cão do Obama é português!!!
Pronto, mas nada disto me tinha verdadeiramente convencido até fazer esta sofrida investigação de campo (tudo por amor à ciência e ao rigor das afirmações) em que tive de visitar uma Exposição, frequentar a Feira do Livro e assistir a uma Peça de Teatro. Agora ninguém mais me convence do contrário: quando as iniciativas são de qualidade o público adere!
(Quando não são também, como todas aquelas pessoas que dormiram à porta do Dolce Vita Tejo para a abertura, mas dessas, nós e o Tony Carreira, nunca duvidámos)
Temos a mania de caluniar a cultura dos portugueses, porque sim...Não são todos que lêem? Pois não. Não são todos que visitam exposições? Pois não. Mas alguma vez foram?...
Deixemos este pessimismo em que nos embrulhamos há anos e recebamos os aplausos que merecemos por nos levantarmos todos os dias e pormos o país a funcionar, dadas as qualidades (evidentes) de quem nos dirige e de todos os que se candidatam a fazê-lo nas campanhas que se avizinham.
«Viva Nós!»
terça-feira, 12 de maio de 2009
Brinc-adeiras
O Vasco Granja e eu
Dito assim parece importante. Parece que eu conheci pessoalmente o Vasco Granja. Quer dizer, quase que é verdade...
Vi nas revistas do fim de semana que o Vasco Granja, o homem da animação, tinha morrido.
Lembro-me, (como toda a gente, penso) dos seus programas de televisão. Alguns dos "bonecos" intrigavam-me muito, pois não eram tão vivos nem tão divertidos como os da Walt Disney, que eu devorava (como toda a gente, penso).
Mas - e é aqui que eu me destaco de "toda a gente" - lembro-me de um episódio que é só meu, que é a minha memória pessoal do Vasco Granja.
(Se pudessem ver o ar de importância que eu exibo agora...)
Estava eu a jogar à bola com a Paula, na rua da minha avó, em pleno centro da Amadora, quando ouço alguém, que passava perto, espirrar. Acto contínuo (fruto de um treino caseiro, tipo pavloviano, que nos obrigava a expressões estereotipadas reflexas, como atchim-santinho, obrigada-de nada, com licença-faça favor e etc) eu digo "Santinho". Qual não é o meu espanto quando encaro a pessoa que me dizia "obrigado" e ele era, nem mais nem menos que o senhor que apresentava os bonecos na televisão, de braço dado como uma senhora com ar de esposa.
O meu espanto foi tão grande, a minha emoção tão forte, que fiquei boquiaberta a fitar o senhor. Ele sorriu e fez-me uma festa numa bochecha.
Estão a ver a importância disto? O senhor da televisão, que apresentava os bonecos, fez-me uma festa numa bochecha! Hã? Quantos de vós se podem gabar do mesmo? Sou ou não sou especial?
Só é lamentável eu não me lembrar se a bochecha foi a esquerda ou a direita. Deve ter sido a direita. Digamos que foi a direita, para completar a história com mais exactidão.
E esta é a minha memória pessoal de Vasco Granja, que me coloca acima de muita gente que só o via na televisão.
Só agora soube dos seus problemas com o regime de Salazar e da sua actuação como anti-fascista. Só podia ser! Um homem com a cultura dele...
Mas nada disso tem tanta importância como o facto de ele ter sorrido para mim e me ter feito uma festa numa bochecha - a direita - já tinha decidido que me lembrava que era a direita.
Vi nas revistas do fim de semana que o Vasco Granja, o homem da animação, tinha morrido.
Lembro-me, (como toda a gente, penso) dos seus programas de televisão. Alguns dos "bonecos" intrigavam-me muito, pois não eram tão vivos nem tão divertidos como os da Walt Disney, que eu devorava (como toda a gente, penso).
Mas - e é aqui que eu me destaco de "toda a gente" - lembro-me de um episódio que é só meu, que é a minha memória pessoal do Vasco Granja.
(Se pudessem ver o ar de importância que eu exibo agora...)
Estava eu a jogar à bola com a Paula, na rua da minha avó, em pleno centro da Amadora, quando ouço alguém, que passava perto, espirrar. Acto contínuo (fruto de um treino caseiro, tipo pavloviano, que nos obrigava a expressões estereotipadas reflexas, como atchim-santinho, obrigada-de nada, com licença-faça favor e etc) eu digo "Santinho". Qual não é o meu espanto quando encaro a pessoa que me dizia "obrigado" e ele era, nem mais nem menos que o senhor que apresentava os bonecos na televisão, de braço dado como uma senhora com ar de esposa.
O meu espanto foi tão grande, a minha emoção tão forte, que fiquei boquiaberta a fitar o senhor. Ele sorriu e fez-me uma festa numa bochecha.
Estão a ver a importância disto? O senhor da televisão, que apresentava os bonecos, fez-me uma festa numa bochecha! Hã? Quantos de vós se podem gabar do mesmo? Sou ou não sou especial?
Só é lamentável eu não me lembrar se a bochecha foi a esquerda ou a direita. Deve ter sido a direita. Digamos que foi a direita, para completar a história com mais exactidão.
E esta é a minha memória pessoal de Vasco Granja, que me coloca acima de muita gente que só o via na televisão.
Só agora soube dos seus problemas com o regime de Salazar e da sua actuação como anti-fascista. Só podia ser! Um homem com a cultura dele...
Mas nada disso tem tanta importância como o facto de ele ter sorrido para mim e me ter feito uma festa numa bochecha - a direita - já tinha decidido que me lembrava que era a direita.
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