"Vocês sabem lá
a saudade de alguém que está perto,
é mais, é pior
do que a sede que dá no deserto!"
Letra: Jerónimo Bragança
Música: Nóbrega e Sousa
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Resolução
Entrei numa loja e encontrei um pijama com a inscrição "I wanna be adored!".
Gostei. Comprei.
Resolvi informar desta minha resolução o mundo, que não me vê de pijama.
Gostei. Comprei.
Resolvi informar desta minha resolução o mundo, que não me vê de pijama.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Semblante
"A Conferência já ultrapassara a duração prevista e o orador já estava a repetir-se. O meu tempo de atenção tinha definitivamente terminado e procurei concentrar-me em qualquer coisa para não começar a bocejar.
Olhei em volta. Algumas caras conhecidas, muitas desconhecidas.
Concentrei-me particularmente num homem que estava sentado a algumas cadeiras de distância. Alto, deveria estar no meio dos 50, vestia de negro, o que contrastava com o cabelo grisalho, que estava meticulosamente esticado, como se procurasse contrariar a sua natureza que se notava encaracolada e rebelde. A boca era bem desenhada, mas tinha os lábios crispados, como se estivesse muito, muito contrariado...diria, irritado. As linhas do rosto magro deixavam notar que tinha os maxilares cerrados com força.
Impressionou-me a sua figura...não...as suas feições...não...o seu semblante, é isso, uma palavra que uso muito pouco, mas que, de repente, parecia ser a única adequada para descrever o que me impressionava no homem: bonito, sem dúvida, uma figura elegante, mas com um semblante tão austero, tão crispado que impressionava. Parecia que tinha sobre si o peso de decisões muito importantes. Daquelas de vida ou de morte.
Imaginei-o um juiz. Não. Demasiado vulgar. Ele tinha porte de um General ou de um Rei...de um Imperador. Estava já a imagina-lo de túnica branca, ou com um manto púrpura, um ceptro na mão...ou uma coroa de louros...não, o nariz era demasiado rectilíneo para um Imperador...
Ele deve ter notado o meu olhar, porque de súbito virou-se para mim e encarou-me. Tinha uns olhos muito, muito escuros e uma ruga cavada entre as sobrancelhas...
Desviei o olhar. Fingi rabiscar concentrada no meu caderno, mas sentia o olhar dele cravado em mim, como se estivesse zangado, como se quisesse saber porque é que eu o tinha estado a observar, a prescrutar tão intensamente.
Num movimento de defesa, puxei o cabelo para o rosto, para lhe ocultar o meu semblante, porque...sei lá, ele poderia até pensar em descrever-me num qualquer blogue. Senti um arrepio. Que horror! Tentei afastar o pensamento, mas, pelo sim pelo não, mantive o rosto escondido pelos cabelos e os olhos baixos. Nunca se sabe; ele há gente para tudo!..."
Olhei em volta. Algumas caras conhecidas, muitas desconhecidas.
Concentrei-me particularmente num homem que estava sentado a algumas cadeiras de distância. Alto, deveria estar no meio dos 50, vestia de negro, o que contrastava com o cabelo grisalho, que estava meticulosamente esticado, como se procurasse contrariar a sua natureza que se notava encaracolada e rebelde. A boca era bem desenhada, mas tinha os lábios crispados, como se estivesse muito, muito contrariado...diria, irritado. As linhas do rosto magro deixavam notar que tinha os maxilares cerrados com força.
Impressionou-me a sua figura...não...as suas feições...não...o seu semblante, é isso, uma palavra que uso muito pouco, mas que, de repente, parecia ser a única adequada para descrever o que me impressionava no homem: bonito, sem dúvida, uma figura elegante, mas com um semblante tão austero, tão crispado que impressionava. Parecia que tinha sobre si o peso de decisões muito importantes. Daquelas de vida ou de morte.
Imaginei-o um juiz. Não. Demasiado vulgar. Ele tinha porte de um General ou de um Rei...de um Imperador. Estava já a imagina-lo de túnica branca, ou com um manto púrpura, um ceptro na mão...ou uma coroa de louros...não, o nariz era demasiado rectilíneo para um Imperador...
Ele deve ter notado o meu olhar, porque de súbito virou-se para mim e encarou-me. Tinha uns olhos muito, muito escuros e uma ruga cavada entre as sobrancelhas...
Desviei o olhar. Fingi rabiscar concentrada no meu caderno, mas sentia o olhar dele cravado em mim, como se estivesse zangado, como se quisesse saber porque é que eu o tinha estado a observar, a prescrutar tão intensamente.
Num movimento de defesa, puxei o cabelo para o rosto, para lhe ocultar o meu semblante, porque...sei lá, ele poderia até pensar em descrever-me num qualquer blogue. Senti um arrepio. Que horror! Tentei afastar o pensamento, mas, pelo sim pelo não, mantive o rosto escondido pelos cabelos e os olhos baixos. Nunca se sabe; ele há gente para tudo!..."
(Des)ilusão
"- Desculpe eu estar a chorar. - desculpei-me envergonhada das lágrimas que corriam - Mas eu ...sofri uma grande desilusão!
- Chore! Chore tudo o que quiser. Tem todo o direito e faz-lhe bem - fez uma pausa e adoptou um tom muito sério - Mas quando conseguir, pense num aspecto de tudo isto que agora não está a ver: só sofreu uma desilusão porque foi capaz de ter uma ilusão. E isso é maravilhoso! Saber que a vida ainda não lhe tirou a capacidade de ter ilusões, de se iludir, de sonhar, de se entregar a um sonho ou a uma ilusão. Essa capacidade de entrega é só sua. É uma conquista sua. Procure não a perder! Mantenha a capacidade de ter ilusões (ainda que desconfie, um pouco, que lá mais para a frente se podem tornar em desilusões). Não há nada melhor! Ter ilusões...Ora aí está uma coisa de que eu tenho saudades!
Olhei-a por momentos, os seus cabelos brancos, as suas rugas... e depois redobrei o choro, que me parecia agora mais consolador."
Volto a este episódio várias vezes na vida e sempre encontro conforto na recordação destas palavras.
- Chore! Chore tudo o que quiser. Tem todo o direito e faz-lhe bem - fez uma pausa e adoptou um tom muito sério - Mas quando conseguir, pense num aspecto de tudo isto que agora não está a ver: só sofreu uma desilusão porque foi capaz de ter uma ilusão. E isso é maravilhoso! Saber que a vida ainda não lhe tirou a capacidade de ter ilusões, de se iludir, de sonhar, de se entregar a um sonho ou a uma ilusão. Essa capacidade de entrega é só sua. É uma conquista sua. Procure não a perder! Mantenha a capacidade de ter ilusões (ainda que desconfie, um pouco, que lá mais para a frente se podem tornar em desilusões). Não há nada melhor! Ter ilusões...Ora aí está uma coisa de que eu tenho saudades!
Olhei-a por momentos, os seus cabelos brancos, as suas rugas... e depois redobrei o choro, que me parecia agora mais consolador."
Volto a este episódio várias vezes na vida e sempre encontro conforto na recordação destas palavras.
Vertigem
Quando a mota passou por mim, naquela sensação de moscardo, fiquei a contemplar as costas do motard e a pensar na mulher que lhe terá negado o prazer de o acompanhar, naquela exibição de amor e companheirismo, que são dois corpos abraçados, a passear pelo mundo. Como eu te neguei a ti.
Batendo o pé, nas minhas convicções, do veículo das "pessoas normais", sem compreender o que tu querias dizer, o que tu me oferecias...a mágoa que levavas ao partir sozinho na tua mota.
E eu, fiquei acompanhada das minhas certezas, que são tão grandes e tão fortes, que dão para ocupar os outros quatro lugares do meu carro.
A vida passa por nós numa vertigem tão rápida como a mota que já desapareceu numa curva da estrada, lá mais à frente. Para nos deixar com as sombras das recordações.
Há quem diga que recordar também é viver...
Batendo o pé, nas minhas convicções, do veículo das "pessoas normais", sem compreender o que tu querias dizer, o que tu me oferecias...a mágoa que levavas ao partir sozinho na tua mota.
E eu, fiquei acompanhada das minhas certezas, que são tão grandes e tão fortes, que dão para ocupar os outros quatro lugares do meu carro.
A vida passa por nós numa vertigem tão rápida como a mota que já desapareceu numa curva da estrada, lá mais à frente. Para nos deixar com as sombras das recordações.
Há quem diga que recordar também é viver...
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