Passaram ontem 50 anos sobre a morte deste actor, deste 'diseur' extraordinário.
Mais um que não morreu...Ouçam-no:
FADO FALADO
"Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciume e morte
E um coração a bater forte
Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar
Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele
E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado."
Aníbal Nazaré e Nelson de Barros
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
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sábado, 22 de janeiro de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Adeus
"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."
Eugénio de Andrade
colhido em http://poediapoedia.blogspot.com/
Para ouvir, aqui:
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."
Eugénio de Andrade
colhido em http://poediapoedia.blogspot.com/
Para ouvir, aqui:
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
I Just Want To Make Love To You
I don't want you to be no slave;
I don't want you to work all day;
But I want you to be true,
And I just wanna make love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Love to you...
All I want to do is wash your clothes;
I don't want to keep you indoors.
There is nothing for you to do
But keep me makin' love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Love to you...
And I can tell by the way you walk that walk;
I can hear by the way you talk that talk;
I can know by the way you treat your girl
That I can give you all the lovin' in the whole wide world!
All I want you to do is make your bread!
Just to make sure you're well-fed!
I don't want you sad and blue!
And I just wanna make love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Love to you...Ooooh.
And I can tell by the way you walk that walk;
And I can hear by the way you talk that talk;
And I can know by the way you treat your girl
That I could give you all the lovin' in the whole wide world!
Oh, all I wanna do - All I wanna do is cook your bread!
Just to make sure that you're well-fed!
I don't want you sad and blue,
And I just wanna make love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Yeah, love to you...Ooooh.
...Love to you...
I don't want you to be no slave;
I don't want you to work all day;
But I want you to be true,
And I just wanna make love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Love to you...
All I want to do is wash your clothes;
I don't want to keep you indoors.
There is nothing for you to do
But keep me makin' love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Love to you...
And I can tell by the way you walk that walk;
I can hear by the way you talk that talk;
I can know by the way you treat your girl
That I can give you all the lovin' in the whole wide world!
All I want you to do is make your bread!
Just to make sure you're well-fed!
I don't want you sad and blue!
And I just wanna make love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Love to you...Ooooh.
And I can tell by the way you walk that walk;
And I can hear by the way you talk that talk;
And I can know by the way you treat your girl
That I could give you all the lovin' in the whole wide world!
Oh, all I wanna do - All I wanna do is cook your bread!
Just to make sure that you're well-fed!
I don't want you sad and blue,
And I just wanna make love to you.
...Love to you...
...Love to you...Ooooohhooh...
...Yeah, love to you...Ooooh.
...Love to you...
Etta James
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Amor Clandestino
"A noite vinha fria
Negras sombras a rondavam
Era meia-noite
E o meu amor tardava
A nossa casa, a nossa vida
Foi de novo revirada
À meia-noite
O meu amor não estava
Ai, eu não sei aonde ele está
Se à nossa casa voltará
Foi esse o nosso compromisso
E acaso nos tocar o azar
O combinado é não esperar
Que o nosso amor é clandestino
Com o bebé, escondida,
Quis lá eu saber, esperei
Era meia-noite
E o meu amor tardava
E arranhada pelas silvas
Sei lá eu o que desejei:
Não voltar nunca...
Amantes, outra casa...
E quando ele por fim chegou
Trazia as flores que apanhou
E um brinquedo pró menino
E quando a guarda apontou
Fui eu quem o abraçou
Que o nosso amor é clandestino"
Clandestino (Deolinda)
domingo, 31 de outubro de 2010
Tempo
Uma das coisas que me fascina na minha profissão é a (quase) impossibilidade de cristalizar, de perder a noção do presente, pois estamos sempre em contacto com as novas gerações e os seus conceitos.
Esse será também um problema do ensino: como é que nós -Escola, Ministério, Professores (instituições "adultas", sentadas sobre um saber acumulado) - reagimos e interagimos com as novas gerações e as suas perspectivas de vida, frequentemente quase desconhecidas para nós?
Sendo o Tempo a matéria prima da História, uma das coisas que mais me interessa é como é que as sociedades, ao longo do tempo, perspectivaram o tempo, se relacionaram com ele, se orientaram por e para ele: o Tempo.
Na semana passada, estando eu a explicar a resistência da Igreja às inovações ao longo do tempo exemplificando com algumas das condenações da Inquisição, afirmei: "A sociedade resiste sempre ao que é novo, a primeira atitude é recusar o que é novo..."
"Olhe que não", interrompeu-me um aluno. "Hoje é precisamente ao contrário. Repare nos telemóveis, nos carros, na tecnologia. Queremos sempre o que é mais novo."
Concordei com ele e guardei a problemática na parte posterior do meu cérebro, que funciona melhor durante a noite, fins de semana e feriados, quando me liberto das quadrículas do tempo em que tenho de cumprir tarefas definidas. A questão manteve-se com uma luz vermelha de alerta, indicando-me que ali se tinha colocado algo que eu não podia ignorar, algo que era fundamental na minha forma de me posicionar no ensino, de me relacionar com os alunos, de organizar a minha prática lectiva, de perspectivar a utilidade e a função da escola (e da História, nela).
Certo é que a História Antiga -sobretudo a Medieval - nos dá uma sensação de imobilidade, de remanso marcado pelos ritmos da terra, que se estilhaça com o chegar do Mundo Contemporâneo. As Revoluções Liberais, a Soberania Popular, a Cidadania alargada, ao envolverem-nos a todos nas grandes questões da Humanidade, dão-nos um sentido de pertença que ao mesmo tempo nos avassala, nos devora, nos consome. Querer abarcar tudo na sociedade de informação é uma tarefa esgotante e impossível, logo, frustrante e causadora de uma má relação com o tempo: a nossa relação com o nosso tempo, a nossa gestão do tempo, a nossa compreensão do tempo ao longo do tempo.
Andava eu a girar à volta destas questões de uma forma entre o consciente e o inconsciente, quando resolvi explorar um pouco mais o mundo dos vídeos que descobri ontem e partilhei aqui convosco. Caramba! Havia um vídeo sobre o tempo. Magnífico. Sintético. Brutal. Clarificador.
E a Escola sempre no meio da relação entre tempos diferentes...
http://www.youtube.com/watch?v=A3oIiH7BLmg&feature=player_embedded
Esse será também um problema do ensino: como é que nós -Escola, Ministério, Professores (instituições "adultas", sentadas sobre um saber acumulado) - reagimos e interagimos com as novas gerações e as suas perspectivas de vida, frequentemente quase desconhecidas para nós?
Sendo o Tempo a matéria prima da História, uma das coisas que mais me interessa é como é que as sociedades, ao longo do tempo, perspectivaram o tempo, se relacionaram com ele, se orientaram por e para ele: o Tempo.
Na semana passada, estando eu a explicar a resistência da Igreja às inovações ao longo do tempo exemplificando com algumas das condenações da Inquisição, afirmei: "A sociedade resiste sempre ao que é novo, a primeira atitude é recusar o que é novo..."
"Olhe que não", interrompeu-me um aluno. "Hoje é precisamente ao contrário. Repare nos telemóveis, nos carros, na tecnologia. Queremos sempre o que é mais novo."
Concordei com ele e guardei a problemática na parte posterior do meu cérebro, que funciona melhor durante a noite, fins de semana e feriados, quando me liberto das quadrículas do tempo em que tenho de cumprir tarefas definidas. A questão manteve-se com uma luz vermelha de alerta, indicando-me que ali se tinha colocado algo que eu não podia ignorar, algo que era fundamental na minha forma de me posicionar no ensino, de me relacionar com os alunos, de organizar a minha prática lectiva, de perspectivar a utilidade e a função da escola (e da História, nela).
Certo é que a História Antiga -sobretudo a Medieval - nos dá uma sensação de imobilidade, de remanso marcado pelos ritmos da terra, que se estilhaça com o chegar do Mundo Contemporâneo. As Revoluções Liberais, a Soberania Popular, a Cidadania alargada, ao envolverem-nos a todos nas grandes questões da Humanidade, dão-nos um sentido de pertença que ao mesmo tempo nos avassala, nos devora, nos consome. Querer abarcar tudo na sociedade de informação é uma tarefa esgotante e impossível, logo, frustrante e causadora de uma má relação com o tempo: a nossa relação com o nosso tempo, a nossa gestão do tempo, a nossa compreensão do tempo ao longo do tempo.
Andava eu a girar à volta destas questões de uma forma entre o consciente e o inconsciente, quando resolvi explorar um pouco mais o mundo dos vídeos que descobri ontem e partilhei aqui convosco. Caramba! Havia um vídeo sobre o tempo. Magnífico. Sintético. Brutal. Clarificador.
E a Escola sempre no meio da relação entre tempos diferentes...
http://www.youtube.com/watch?v=A3oIiH7BLmg&feature=player_embedded
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, mas, que dizer de tantas imagens acompanhadas de tantas palavras?
http://www.youtube.com/watch?v=qOP2V_np2c0&feature=player_embedded
Nota: Não consegui «domar isto» para as dimensões do meu blogue e penso que vale a pena vê-lo na íntegra, com todo o seu tamanho, a sua lógica, o seu ritmo. Por isso: vão lá! Vale a pena.
Nota: Não consegui «domar isto» para as dimensões do meu blogue e penso que vale a pena vê-lo na íntegra, com todo o seu tamanho, a sua lógica, o seu ritmo. Por isso: vão lá! Vale a pena.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
O Cheiro dos Livros
Porque hoje me apetece agradecer «aos meus caros alunos» com quem conversei bastante sobre livros:
"O professor de português
Empolgou-se na lição
Tropeçou caíu ao chão
Quase partiu o pescoço
Como aquele sábio grego
Que de tanto olhar o céu
Caíu dentro dum poço
O professor de português
Falava de natação
Dos poemas de Camões
Eu vi toda a epopeia
Senti o cheiro ao mostrengo
Cheirava a sal e a trovões
E a desgostos de sereia
Mas eu quero-lhe dizer
Um segredo verdadeiro
Até o Stör caír
Os livros não tinham cheiro
E eu que não tinha atenção
Era uma nota sofrível
Senti vivo o predicado
Dentro do meu coração
Saltei subí de nível
Fiz-me sujeito acordado
No centro da oração
Ó meu caro professor
Eu quero-lhe agradecer
Ter ganho o meu nariz
Nele vou a toda a parte
É uma força motriz
Vou a Roma e a Paris
Vou à Lua e vou a Marte
Ó meu caro professor... "
Cabeças no Ar
"O professor de português
Empolgou-se na lição
Tropeçou caíu ao chão
Quase partiu o pescoço
Como aquele sábio grego
Que de tanto olhar o céu
Caíu dentro dum poço
O professor de português
Falava de natação
Dos poemas de Camões
Eu vi toda a epopeia
Senti o cheiro ao mostrengo
Cheirava a sal e a trovões
E a desgostos de sereia
Mas eu quero-lhe dizer
Um segredo verdadeiro
Até o Stör caír
Os livros não tinham cheiro
E eu que não tinha atenção
Era uma nota sofrível
Senti vivo o predicado
Dentro do meu coração
Saltei subí de nível
Fiz-me sujeito acordado
No centro da oração
Ó meu caro professor
Eu quero-lhe agradecer
Ter ganho o meu nariz
Nele vou a toda a parte
É uma força motriz
Vou a Roma e a Paris
Vou à Lua e vou a Marte
Ó meu caro professor... "
Cabeças no Ar
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domingo, 26 de setembro de 2010
Sons do Café
Alguém me enviou um daqueles lindos e longos powerpoints com ensinamentos para a vida. Qualquer coisa entre o bonito, o piroso e o inútil, a dizer que somos nós que fazemos o nosso destino e que perante as adversidades devemos fazer como o café que, quando enfrenta a água fervente, a transforma numa mistura saborosa e calorosa...
Enquanto via o powerpoint e avaliava a boa intenção de quem mo enviou, estando um bocadinho enfastiada, viajei até ao tempo em que o café, para mim, não era um líquido, mas um som.
Uma das minhas formas preferidas de ouvir as saudades que a minha mãe tinha do meu pai, contadas e recontadas, vezes sem conta, era quando ela tirava cuidadosamente os discos da discoteca e se deliciava com o som de cenas passadas entre eles.
Eles gostavam muito de dançar e eu quase considerava a minha mãe feliz quando ouvia «Moliendo café».
Fui então à procura desse som de domingo em família, agitando com as maracas a tristeza e a saudade reinante naquela casa, recordando cenas alegres e ruidosas, de bailes e namoros requebrados.
E, embora tenha encontrado muitas versões, esta, com o som roufenho dos discos antigos e o «grão» da gravação, foi a que melhor ilustrou os grãos de memória que foram remoídos hoje, por causa de um powerpoint que visava ensinar-me a viver de forma sempre construtiva.
Enquanto via o powerpoint e avaliava a boa intenção de quem mo enviou, estando um bocadinho enfastiada, viajei até ao tempo em que o café, para mim, não era um líquido, mas um som.
Uma das minhas formas preferidas de ouvir as saudades que a minha mãe tinha do meu pai, contadas e recontadas, vezes sem conta, era quando ela tirava cuidadosamente os discos da discoteca e se deliciava com o som de cenas passadas entre eles.
Eles gostavam muito de dançar e eu quase considerava a minha mãe feliz quando ouvia «Moliendo café».
Fui então à procura desse som de domingo em família, agitando com as maracas a tristeza e a saudade reinante naquela casa, recordando cenas alegres e ruidosas, de bailes e namoros requebrados.
E, embora tenha encontrado muitas versões, esta, com o som roufenho dos discos antigos e o «grão» da gravação, foi a que melhor ilustrou os grãos de memória que foram remoídos hoje, por causa de um powerpoint que visava ensinar-me a viver de forma sempre construtiva.
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Maravilhamento do Reencontro
Andava eu a procurar coisas sobre a Língua Portuguesa, por causa de um projecto de escola, quando me encontro no Wikisource, que só tinha consultado uma vez.
Ponho-me a ver os textos disponibilizados em português e vejo «Marião».
Como um vento inopinado recuperei mil memórias, dos meus tempos de adolescência, das tertúlias tontas até às tantas e de um colega muito disparatado que assumia um ar divinal, para mim, quando cantava cheio de sentimento «Marião».
Marião...Não sei a origem, nem o trajecto desta música, mas ela trouxe-me de volta muitas recordações gratas.
Depois a procura do vídeo e o reencontro - sempre tão grato - com a Brigada Victor Jara.
Desfrutem:
"Adeus oh Vale de Gouvinhas, Marião
Não és vila nem cidade, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
És um povo pequenino, Marião
Feito à minha vontade, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Hei-de cercar Vale Gouvinhas, Marião
Com trinta metros de fita, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
À porta do meu amor, Marião
Hei-de pôr a mais bonita, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Os meus olhos não são olhos, Marião
Sem estarem os teus de fronte, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Parecem dois rios de água, Marião
Quando vão de monte em monte, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Já corri os mares em volta, Marião
Com uma vela branca acesa, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Em todo o mar achei água, Marião
Só em ti perco a firmeza, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião"
(Letra e música popular)
colhido em Wikisource
Brigada...hoje pensarão que era uma forma mais rápida de agradecer ao Victor Jara ou uma variante do bolo brigadeiro, do Brasil...
Ponho-me a ver os textos disponibilizados em português e vejo «Marião».
Como um vento inopinado recuperei mil memórias, dos meus tempos de adolescência, das tertúlias tontas até às tantas e de um colega muito disparatado que assumia um ar divinal, para mim, quando cantava cheio de sentimento «Marião».
Marião...Não sei a origem, nem o trajecto desta música, mas ela trouxe-me de volta muitas recordações gratas.
Depois a procura do vídeo e o reencontro - sempre tão grato - com a Brigada Victor Jara.
Desfrutem:
"Adeus oh Vale de Gouvinhas, Marião
Não és vila nem cidade, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
És um povo pequenino, Marião
Feito à minha vontade, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Hei-de cercar Vale Gouvinhas, Marião
Com trinta metros de fita, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
À porta do meu amor, Marião
Hei-de pôr a mais bonita, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Os meus olhos não são olhos, Marião
Sem estarem os teus de fronte, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Parecem dois rios de água, Marião
Quando vão de monte em monte, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Já corri os mares em volta, Marião
Com uma vela branca acesa, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião
Em todo o mar achei água, Marião
Só em ti perco a firmeza, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião"
(Letra e música popular)
colhido em Wikisource
Brigada...hoje pensarão que era uma forma mais rápida de agradecer ao Victor Jara ou uma variante do bolo brigadeiro, do Brasil...
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Histórias...de (en)cantar...
" (...)
Agora,
As cortinas têm rostos,
São fantasmas bem-dispostos,
Cuidado!
O Super-homem está a caminho,
Traz o Panda e o Soldadinho,
Fecha os olhos e verás.
(...)
Às vezes
Há dragões que têm medo
E é esse o seu segredo,
Cuidado!
Vivem debaixo da cama,
Brincam com o Homem-aranha,
Vais levá-los no teu sono.
(...)"
Pedro Abrunhosa, Capitão da Areia in Longe
(e até parece tocado no meu piano de brincar...)
Agora,
As cortinas têm rostos,
São fantasmas bem-dispostos,
Cuidado!
O Super-homem está a caminho,
Traz o Panda e o Soldadinho,
Fecha os olhos e verás.
(...)
Às vezes
Há dragões que têm medo
E é esse o seu segredo,
Cuidado!
Vivem debaixo da cama,
Brincam com o Homem-aranha,
Vais levá-los no teu sono.
(...)"
Pedro Abrunhosa, Capitão da Areia in Longe
(e até parece tocado no meu piano de brincar...)
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domingo, 29 de agosto de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
Picardia - Uma viagem estonteante
Ontem recebi um texto que, a determinada altura, falava em picardia. Estranhei a palavra...como uma palavra que não é comum de ouvir. Avaliei-a - como faço instintivamente - a ver ao que me soava, antes de a procurar no seu significado, presente num dicionário. Eu compreendia perfeitamente o que ela queria dizer no seu contexto, mas, queria explorar mais a palavra...
Para mim era algo associado a picadeiro...mas às cortesias dos cavalos também...ou aos movimentos dos cavalos...talvez picados por uma mosca ou um moscardo.
Procurei-a no dicionário, pois quando uma palavra me desafia gosto de a experimentar, procurar os seus múltiplos significados, ensaiar as suas aplicações. (Não sei desde quando faço isto, mas, desde que tenho este blogue faço-o consciente e deliberadamente, ou talvez tenha este blogue porque me apercebi de que o fazia...é irrelevante, agora).
Fiquei então a saber que existe uma região de França com este nome, recordei-me de um significado associado à literatura, que em tempos passou por mim em aulas de liceu e estacionei no significado «pirraça», que era o que se adequava ao texto que me era dirigido. Ficámos ontem por ali.
A sensação de associação com a picada da mosca ou moscardo na traseira do cavalo, que o faz mover-se rapida e contristadamente, não saía, no entanto do meu espírito.
Hoje de manhã, na costumeira conversa de esplanada, alguém refere uma relação marcada «por uma certa picardia»...Olhei-o por detrás das palavras, facto que lhe passou despercebido por estar eu óculos de sol. Desencadeou-se no meu espírito a relação que tanto procurava sem saber ao certo: Picardia é, para mim, uma palavra associada a uma música em especial: o voo do moscardo - uma das músicas mais visuais que conheço; e desafiante também, divertida, irrequieta, como se, ao ouvi-la, procurássemos livrar-nos de uma mosca (ou moscardo) que roda em volta de nós, criando movimento e instabilidade!
Recordei o voo do moscardo tocado pela Orquestra Sinfónica de Acordeãos, dirigida pelo Professor Vitorino Matono, numa época muito recuada em que também eu andava encantada por teclados.
Procurei na net e - surpresa das surpresas - encontrei várias versões e muito diferentes: desde o violino à vocalização. Deliciei-me agora a ouvir e seleccionar os vídeos que vou colocar aqui, de seguida, na primeira compilação musical temática deste blogue, desencadeada pela palavra Picardia.
Para o rigor histórico ser cumprido, devo dizer que este trecho musical foi composto pelo russo Nikolay Rimsky-Korsakov (1844-1908)e que é interpretado por diversos instrumentos e estilos até hoje. Vejam lá!
Para mim era algo associado a picadeiro...mas às cortesias dos cavalos também...ou aos movimentos dos cavalos...talvez picados por uma mosca ou um moscardo.
Procurei-a no dicionário, pois quando uma palavra me desafia gosto de a experimentar, procurar os seus múltiplos significados, ensaiar as suas aplicações. (Não sei desde quando faço isto, mas, desde que tenho este blogue faço-o consciente e deliberadamente, ou talvez tenha este blogue porque me apercebi de que o fazia...é irrelevante, agora).
Fiquei então a saber que existe uma região de França com este nome, recordei-me de um significado associado à literatura, que em tempos passou por mim em aulas de liceu e estacionei no significado «pirraça», que era o que se adequava ao texto que me era dirigido. Ficámos ontem por ali.
A sensação de associação com a picada da mosca ou moscardo na traseira do cavalo, que o faz mover-se rapida e contristadamente, não saía, no entanto do meu espírito.
Hoje de manhã, na costumeira conversa de esplanada, alguém refere uma relação marcada «por uma certa picardia»...Olhei-o por detrás das palavras, facto que lhe passou despercebido por estar eu óculos de sol. Desencadeou-se no meu espírito a relação que tanto procurava sem saber ao certo: Picardia é, para mim, uma palavra associada a uma música em especial: o voo do moscardo - uma das músicas mais visuais que conheço; e desafiante também, divertida, irrequieta, como se, ao ouvi-la, procurássemos livrar-nos de uma mosca (ou moscardo) que roda em volta de nós, criando movimento e instabilidade!
Recordei o voo do moscardo tocado pela Orquestra Sinfónica de Acordeãos, dirigida pelo Professor Vitorino Matono, numa época muito recuada em que também eu andava encantada por teclados.
Procurei na net e - surpresa das surpresas - encontrei várias versões e muito diferentes: desde o violino à vocalização. Deliciei-me agora a ouvir e seleccionar os vídeos que vou colocar aqui, de seguida, na primeira compilação musical temática deste blogue, desencadeada pela palavra Picardia.
Para o rigor histórico ser cumprido, devo dizer que este trecho musical foi composto pelo russo Nikolay Rimsky-Korsakov (1844-1908)e que é interpretado por diversos instrumentos e estilos até hoje. Vejam lá!
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domingo, 18 de julho de 2010
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