O tempo vai prescrevendo e proscrevendo certas palavras, começando então a reescrevê-las, num sentido mais apropriado aos novos tempos e grafias.
Não sei se actualmente a palavra proscrito se utiliza em algum contexto. Para mim ela era mesmo o sobrenome do Robin dos Bosques.
Mas aqui fica a tradução que encontrei no dicionário, sem saber se actualmente em terras de expressão inglesa, ainda terá algum significado que não esteja associado a evocações históricas: «exile», «outlaw». Proscrição tem a tradução de «prospription», «exile», «banishment».
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
Mostrar mensagens com a etiqueta Palavras Esquecidas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Palavras Esquecidas. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 27 de julho de 2010
Proscrito
Estou a chegar do cinema.
Recuperando um dos meus hábitos da capital, hoje, segunda-feira, é dia de cinema.
Já tenho referido por aqui que gosto de heróis. Robin Hood estava em cartaz em Leiria: lá fomos nós, para encontrar um Robin dos Bosques muito diferente do meu imaginário.
Não que o Russell Crowe não fique lá muito bem a substituir qualquer imaginário anterior, mas houve várias coisas que me agradaram e/ou intrigaram no filme.
Como quando se tem perguntas, actualmente, pergunta-se à net, lá vim eu indagar.
O guião comprado por Ridley Scott era completamente diferente. A personagem central da história era o Seriff de Nothingham. Ridley Scott resolveu transformá-lo fazendo de Robin Hood a personagem central, mas afastando-se na «história tradicional» de uma maneira bem interessante; anunciada como «o homem por detrás da lenda».
Num épico muito digno do que a dupla Russell Crowe/Ridley Scott já nos deu no Gladiador, o herói emerge de uma personagem comum, que se distingue dos outros pela fidelidade a ideais, a lealdade e o desinteresse pela vulgar «ascensão socio-económica» da sua época. Não completamente isento de defeitos e portador de um romantismo envolvente, Robin toma a identidade de outro e requalifica a sua imagem, num «upgrade» que nos faz esquecer a pequena «trapaça» realizada com as identidades. Em alguns pontos o filme fez-me lembrar «Somersby: o regresso de um estranho», pela questão, sobretudo, da paixão que desperta na mulher que pertencera a outro. Com um final bem mais feliz - e muito cinematográfico - que Somersby (ver a cena em que a guerra pára, momentaneamente, para que os dois protagonistas se beijem, num arrobo de paixão pouco plausível no meio de uma cena de batalha sangrenta), Robin Hood dá-nos uma versão simultaneamente humana e heróica de uma lenda.
No fim, neste filme, Robin é considerado fora da lei, assim mesmo, dito pelas personagens originais como «out of law».
E, curiosamente foi a característica que me fez mais confusão ser alterada. Na versão que me encantou na juventude - lida, claro - do livro «15 jovens como nós», Robin era proscrito. Proscrito. Uma expressão que não ouvi associada a mais nada. Robin Hood era um proscrito.
De repente dei-me conta que a palavra se colara ao herói de tal forma que, mesmo não sabendo o seu verdadeiro significado, sabia que era algo mais apropriado que fora da lei. Sentia que era «banido», «expulso», recusado por uma lei, acima de quem ele estava, pelas suas convicções - justamente o que faz dele um herói. Talvez um pouco semelhante à excomunhão de Lutero, que rasgou a bula do Papa em praça pública, porque não lhe reconhecia autoridade. O único que o podia excomungar era Deus; a única lei que podia considerar proscrito Robin era a própria ideia de Justiça, uma moral, escrita com letra grande, diferente do uso que lhes dão, frequentemente os que a exercem, em nome de um legitimidade unicamente institucional, circunstancial, efémera, falível, mesquinha, assente em interesses pessoais.
Robin Hood, legal ou legendariamente Robert de Loxeley (Losqueley,na minha versão escrita) era um proscrito. Uma palavra que lhe serve como a nenhum outro.
Poderão mudar tudo o que quiserem, menos a palavra que define o carácter, a história, a essência de Robin dos Bosques: Proscrito. Uma palavra que eu tinha que guardar, no lugar certo: colada ao Robin dos Bosques, eterna e heroicamente Proscrito.
Recuperando um dos meus hábitos da capital, hoje, segunda-feira, é dia de cinema.
Já tenho referido por aqui que gosto de heróis. Robin Hood estava em cartaz em Leiria: lá fomos nós, para encontrar um Robin dos Bosques muito diferente do meu imaginário.
Não que o Russell Crowe não fique lá muito bem a substituir qualquer imaginário anterior, mas houve várias coisas que me agradaram e/ou intrigaram no filme.
Como quando se tem perguntas, actualmente, pergunta-se à net, lá vim eu indagar.
O guião comprado por Ridley Scott era completamente diferente. A personagem central da história era o Seriff de Nothingham. Ridley Scott resolveu transformá-lo fazendo de Robin Hood a personagem central, mas afastando-se na «história tradicional» de uma maneira bem interessante; anunciada como «o homem por detrás da lenda».
Num épico muito digno do que a dupla Russell Crowe/Ridley Scott já nos deu no Gladiador, o herói emerge de uma personagem comum, que se distingue dos outros pela fidelidade a ideais, a lealdade e o desinteresse pela vulgar «ascensão socio-económica» da sua época. Não completamente isento de defeitos e portador de um romantismo envolvente, Robin toma a identidade de outro e requalifica a sua imagem, num «upgrade» que nos faz esquecer a pequena «trapaça» realizada com as identidades. Em alguns pontos o filme fez-me lembrar «Somersby: o regresso de um estranho», pela questão, sobretudo, da paixão que desperta na mulher que pertencera a outro. Com um final bem mais feliz - e muito cinematográfico - que Somersby (ver a cena em que a guerra pára, momentaneamente, para que os dois protagonistas se beijem, num arrobo de paixão pouco plausível no meio de uma cena de batalha sangrenta), Robin Hood dá-nos uma versão simultaneamente humana e heróica de uma lenda.
No fim, neste filme, Robin é considerado fora da lei, assim mesmo, dito pelas personagens originais como «out of law».
E, curiosamente foi a característica que me fez mais confusão ser alterada. Na versão que me encantou na juventude - lida, claro - do livro «15 jovens como nós», Robin era proscrito. Proscrito. Uma expressão que não ouvi associada a mais nada. Robin Hood era um proscrito.
De repente dei-me conta que a palavra se colara ao herói de tal forma que, mesmo não sabendo o seu verdadeiro significado, sabia que era algo mais apropriado que fora da lei. Sentia que era «banido», «expulso», recusado por uma lei, acima de quem ele estava, pelas suas convicções - justamente o que faz dele um herói. Talvez um pouco semelhante à excomunhão de Lutero, que rasgou a bula do Papa em praça pública, porque não lhe reconhecia autoridade. O único que o podia excomungar era Deus; a única lei que podia considerar proscrito Robin era a própria ideia de Justiça, uma moral, escrita com letra grande, diferente do uso que lhes dão, frequentemente os que a exercem, em nome de um legitimidade unicamente institucional, circunstancial, efémera, falível, mesquinha, assente em interesses pessoais.
Robin Hood, legal ou legendariamente Robert de Loxeley (Losqueley,na minha versão escrita) era um proscrito. Uma palavra que lhe serve como a nenhum outro.
Poderão mudar tudo o que quiserem, menos a palavra que define o carácter, a história, a essência de Robin dos Bosques: Proscrito. Uma palavra que eu tinha que guardar, no lugar certo: colada ao Robin dos Bosques, eterna e heroicamente Proscrito.
Etiquetas:
Palavras à Medida,
Palavras Cativas,
Palavras Esquecidas
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Figuras...por estimação
"- Boa tarde! Faz favor?...
- Queria dois bifinhos de perú e uns hamburguers, por favor.
- Ora cá está. Mais alguma coisa?
- Não, muito obrigada.
- E o Minhú, está bonzinho?
Estaquei, verdadeiramente espantada.
- Conhece o meu gato? - perguntei deliciada pela gentileza
- Qualquer pessoa que more nas redondezas sabe que a senhora tem um gato chamado Minhú! - o sorriso que exibia acentuava ainda mais a raiva do seu olhar.
Saí envergonhada do talho. Ainda não me tinha apercebido que, ao cair da noite, mais de meia cidade devia descobrir que eu tinha um gato e queria que ele voltasse para casa, são e salvo..."
- Queria dois bifinhos de perú e uns hamburguers, por favor.
- Ora cá está. Mais alguma coisa?
- Não, muito obrigada.
- E o Minhú, está bonzinho?
Estaquei, verdadeiramente espantada.
- Conhece o meu gato? - perguntei deliciada pela gentileza
- Qualquer pessoa que more nas redondezas sabe que a senhora tem um gato chamado Minhú! - o sorriso que exibia acentuava ainda mais a raiva do seu olhar.
Saí envergonhada do talho. Ainda não me tinha apercebido que, ao cair da noite, mais de meia cidade devia descobrir que eu tinha um gato e queria que ele voltasse para casa, são e salvo..."
terça-feira, 22 de junho de 2010
Poder Temporal e Poder Espiritual
Ainda imbuída do espírito da reconstituição histórica de domingo e do choque pela reacção da Igreja (a Santa Sé!) à morte de Saramago, mas sem tempo para escrever muito, lembrei-me que tinha aqui na estante um livro de trovas populares sobre a Gerra Civil, que acaba por versar estes temas todos ao mesmo tempo.
É a terceira edição do Cancioneiro Popular Político, de A. Tomás Pires, integrada na colecção Reaver (só sobre este título/tema apetecia-me falar tanto...) e comprada na Amadora uma Livraria que se chamava Abril/Abril (já fechou, claro!)
Trovas dos Liberais:
"O cheiro de um só corcunda
Enterrado na igreja,
É capaz de empestar
Quanta gente nela esteja
(...)
Até os próprios pastores,
Encostados ao bordão,
Gritam todos à porfia:
Liberal Constituição
(...)
Senhor padre, largue a moça,
Não seja tão maganão,
Pegue nas contas e reze:
Liberal Constituição.
(...)
Com carne, pão e vinho
Sustenta-se o Miguelinho
Sem carne, vinho e pão
Sustenta-se a Constituição."
(este último merecia umas observaçõezitas, mas pode ser que alguém as faça por mim...)
Trovas dos Miguelistas:
"(...)
Ando triste pelos montes,
Nem por isso passo mal,
Antes triste realista,
Que alegre const'cional.
(...)
Quando o Silveira se viu
Entre o meio dos liberais,
Prantou as mãos ao céu:
«Ó meu Deus, que determinais?»
Os anjos lhe responderam:
«Silveira, não tenhas medo,
Podem mais as Cinco Chagas,
Que as constituições de Pedro.»
(...)"
Eu sei, eu sei, sou parcial: coloquei uma trovazita a mais nos liberais...
É a terceira edição do Cancioneiro Popular Político, de A. Tomás Pires, integrada na colecção Reaver (só sobre este título/tema apetecia-me falar tanto...) e comprada na Amadora uma Livraria que se chamava Abril/Abril (já fechou, claro!)
Trovas dos Liberais:
"O cheiro de um só corcunda
Enterrado na igreja,
É capaz de empestar
Quanta gente nela esteja
(...)
Até os próprios pastores,
Encostados ao bordão,
Gritam todos à porfia:
Liberal Constituição
(...)
Senhor padre, largue a moça,
Não seja tão maganão,
Pegue nas contas e reze:
Liberal Constituição.
(...)
Com carne, pão e vinho
Sustenta-se o Miguelinho
Sem carne, vinho e pão
Sustenta-se a Constituição."
(este último merecia umas observaçõezitas, mas pode ser que alguém as faça por mim...)
Trovas dos Miguelistas:
"(...)
Ando triste pelos montes,
Nem por isso passo mal,
Antes triste realista,
Que alegre const'cional.
(...)
Quando o Silveira se viu
Entre o meio dos liberais,
Prantou as mãos ao céu:
«Ó meu Deus, que determinais?»
Os anjos lhe responderam:
«Silveira, não tenhas medo,
Podem mais as Cinco Chagas,
Que as constituições de Pedro.»
(...)"
Eu sei, eu sei, sou parcial: coloquei uma trovazita a mais nos liberais...
Etiquetas:
Palavras Cativas,
Palavras Esquecidas,
Palavras repetentes
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Paisagens...
Professoras chegadas à terra de novo, víamos-lhe mais defeitos que qualidades. Sobretudo aos fins-de-semana, quando a vila ficava deserta perante a debandada da população para a beira-mar, ali tão perto.
Sem carro, passeávamos frequentemente as duas, tentando encontrar substitutos para as palavras monotonia e marasmo, congratulando-nos por não haver poluição, buzinadelas constantes e quase não ser preciso olhar para a estrada, na segurança da passadeira.
Claro, isso eram vantagens, mas, lá no fundo, ficava por dizer, o medo de nos estarmos a perder, enterradas na pacatez, felizes com a ausência dos bulícios em que havíamos sido criadas: ela em Coimbra, eu, perto de Lisboa.
O Verão sumiu-se pelo Outono dentro e as folhas começaram a cair, a cair, num tapete muito mais fofo do que os de lá, nas nossas terras de asfalto. Aos fins-de-semana, percorríamos os mesmos caminhos, mas passeávamos no meio das folhas, com ruído; os sapatos desapareciam no amarelo-castanho e, no fim das calças de ganga só se via o mar de folhas, estaladiças…a nossa neve outonal crocante! Tinha a sua graça.
Depois o vento ficou cada vez mais frio e as folhas desapareceram, deixando as árvores nuas contra o céu cinzento, frio, de chumbo…tétrico.
Por essas alturas eu também já tinha percebido que as nossas conversas estavam a ficar tão nuas como as árvores e os silêncios eram cada vez maiores, dando um ar ainda mais soturno aos nossos passeios de fim-de-semana. Para mais eu não a considerava propriamente confidente e não me apetecia falar-lhe da minha vida. Íamos arrastando os cafezinhos de fim-de-semana pontuados por uns «cá estamos…», «os putos estão cada vez piores…», «a papelada da escola é cada vez mais…», «quando eu era aluna achava que os professores tinham as mesmas férias que nós…» e outras trivialidades, no mesmo tom, que, quem me conhece sabe bem que não é nada meu. A rapariga deprimia-me. Via sempre o lado pior de tudo e eu estava a ficar sem paciência para ela (sentimento que se calhar era recíproco, sei lá eu…)
Naquele sábado, depois de almoço, ela lá telefonou, como acontecia sempre, quinzenalmente, no fim-de-semana em que não ia a Coimbra. “Pois que sim…estava…podíamos tomar café…desço já.”
O dia estava particularmente invernoso: era final de Novembro, o frio era cortante, o céu opressivo, as árvores nuas de dar pena.
Lá íamos nós, no passo manso que me irritava, ainda por cima porque eu, interiormente, estava num alvoroço!... Mas não era nada que fosse partilhar com aquela personagem sorumbática, que passeava comigo por falta de opções.
Parámos no meio do parque de estacionamento, agora vazio, com as raízes das árvores a rebentar o alcatrão e preparávamo-nos para nos despedirmos. Instalou-se um daqueles silêncios enervantes… E eu, fixo o olhar nos galhos da árvore e nunca tinha visto paisagem tão bonita. Salta-me do peito para a voz: “Esta árvore é tão linda, não é?”
O olhar que a outra levantou dos sapatos, rapidamente passou de assombrado e incrédulo a uma das raras expressões risonhas que lhe vi: “Tu estás apaixonada!” – gritou-me com uma força que eu não sabia que ela tinha.
Corei. Baixei os olhos. Balbuciei qualquer coisa…
E ela, com uma energia que eu desconhecia, sacudia-me insistentemente: “Quem é? Quem é? O que foi que aconteceu? Deixa-te de coisas: só um coração apaixonado acharia esta árvore bonita.”
Acabei por confessar: “Eu e o Vítor beijámo-nos ontem…”- confusa de não conseguir esconder os sentimentos e confusa por não compreender…eu só tinha dito que a árvore era bonita…e era…a árvore mais bonita que eu já vi! Não sabia como é que a minha colega não via a beleza da árvore…
Aliás, essa árvore deve ter sido removida, pois já passou tanto tempo e nunca mais a vi, assim tão linda!
Sem carro, passeávamos frequentemente as duas, tentando encontrar substitutos para as palavras monotonia e marasmo, congratulando-nos por não haver poluição, buzinadelas constantes e quase não ser preciso olhar para a estrada, na segurança da passadeira.
Claro, isso eram vantagens, mas, lá no fundo, ficava por dizer, o medo de nos estarmos a perder, enterradas na pacatez, felizes com a ausência dos bulícios em que havíamos sido criadas: ela em Coimbra, eu, perto de Lisboa.
O Verão sumiu-se pelo Outono dentro e as folhas começaram a cair, a cair, num tapete muito mais fofo do que os de lá, nas nossas terras de asfalto. Aos fins-de-semana, percorríamos os mesmos caminhos, mas passeávamos no meio das folhas, com ruído; os sapatos desapareciam no amarelo-castanho e, no fim das calças de ganga só se via o mar de folhas, estaladiças…a nossa neve outonal crocante! Tinha a sua graça.
Depois o vento ficou cada vez mais frio e as folhas desapareceram, deixando as árvores nuas contra o céu cinzento, frio, de chumbo…tétrico.
Por essas alturas eu também já tinha percebido que as nossas conversas estavam a ficar tão nuas como as árvores e os silêncios eram cada vez maiores, dando um ar ainda mais soturno aos nossos passeios de fim-de-semana. Para mais eu não a considerava propriamente confidente e não me apetecia falar-lhe da minha vida. Íamos arrastando os cafezinhos de fim-de-semana pontuados por uns «cá estamos…», «os putos estão cada vez piores…», «a papelada da escola é cada vez mais…», «quando eu era aluna achava que os professores tinham as mesmas férias que nós…» e outras trivialidades, no mesmo tom, que, quem me conhece sabe bem que não é nada meu. A rapariga deprimia-me. Via sempre o lado pior de tudo e eu estava a ficar sem paciência para ela (sentimento que se calhar era recíproco, sei lá eu…)
Naquele sábado, depois de almoço, ela lá telefonou, como acontecia sempre, quinzenalmente, no fim-de-semana em que não ia a Coimbra. “Pois que sim…estava…podíamos tomar café…desço já.”
O dia estava particularmente invernoso: era final de Novembro, o frio era cortante, o céu opressivo, as árvores nuas de dar pena.
Lá íamos nós, no passo manso que me irritava, ainda por cima porque eu, interiormente, estava num alvoroço!... Mas não era nada que fosse partilhar com aquela personagem sorumbática, que passeava comigo por falta de opções.
Parámos no meio do parque de estacionamento, agora vazio, com as raízes das árvores a rebentar o alcatrão e preparávamo-nos para nos despedirmos. Instalou-se um daqueles silêncios enervantes… E eu, fixo o olhar nos galhos da árvore e nunca tinha visto paisagem tão bonita. Salta-me do peito para a voz: “Esta árvore é tão linda, não é?”
O olhar que a outra levantou dos sapatos, rapidamente passou de assombrado e incrédulo a uma das raras expressões risonhas que lhe vi: “Tu estás apaixonada!” – gritou-me com uma força que eu não sabia que ela tinha.
Corei. Baixei os olhos. Balbuciei qualquer coisa…
E ela, com uma energia que eu desconhecia, sacudia-me insistentemente: “Quem é? Quem é? O que foi que aconteceu? Deixa-te de coisas: só um coração apaixonado acharia esta árvore bonita.”
Acabei por confessar: “Eu e o Vítor beijámo-nos ontem…”- confusa de não conseguir esconder os sentimentos e confusa por não compreender…eu só tinha dito que a árvore era bonita…e era…a árvore mais bonita que eu já vi! Não sabia como é que a minha colega não via a beleza da árvore…
Aliás, essa árvore deve ter sido removida, pois já passou tanto tempo e nunca mais a vi, assim tão linda!
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Batalha de Flores
A minha mãe era uma excelente narradora. Coloria de tal forma as histórias que narrava (para o melhor e para o pior) que nos sentíamos lá, vivenciávamos as cenas; éramos envolvidos na sequência dos acontecimentos.
Graças a isso há algumas memórias da minha infância que eu desconfio fortemente que resultam da sua narrativa viva e repetida e não de uma memória verdadeira. Mas isso agora não vem ao caso. Atesta só as qualidades de narradora da minha mãe: a voz, que assumia modulações diferentes, os olhos que ora se esbugalhavam ora se semicerravam e as mãos: as inimitáveis mãos narradoras da minha mãe.
Nunca se conseguia ficar indiferente a uma história narrada pela minha mãe. Arrancava exclamações de maravilhamento e gritos de horror, mas nunca, nunca, nos deixava na indiferença ou aborrecimento.
Hoje ela entrou-me pela memória em toda a sua plenitude narrativa, quando eu, fotografando flores nos jardins da Batalha, disse «de mim para comim»: "Ah! Que lindo! As Flores da Batalha! Faz-me lembrar as batalhas de flores que eram um espectáculo magnífico e que é uma pena terem deixado de se fazer!..."
E, de repente, travo às quatro rodas e digo: "Escrivaninha Maria: tu nunca viste uma batalha de flores! Como podes recordar e ter pena?"
Pois é: foram as narrativas da minha mãe, que lamentava o fim das «batalhas de flores», iniciativa que vivenciou várias vezes e narrou muitas, a ponto de eu sentir a falta de algo que nunca vivi.
Aqui ficam, portanto, algumas flores da Batalha, invocando, a propósito, as «falsas memórias» das «Batalhas de Flores»:
Graças a isso há algumas memórias da minha infância que eu desconfio fortemente que resultam da sua narrativa viva e repetida e não de uma memória verdadeira. Mas isso agora não vem ao caso. Atesta só as qualidades de narradora da minha mãe: a voz, que assumia modulações diferentes, os olhos que ora se esbugalhavam ora se semicerravam e as mãos: as inimitáveis mãos narradoras da minha mãe.
Nunca se conseguia ficar indiferente a uma história narrada pela minha mãe. Arrancava exclamações de maravilhamento e gritos de horror, mas nunca, nunca, nos deixava na indiferença ou aborrecimento.
Hoje ela entrou-me pela memória em toda a sua plenitude narrativa, quando eu, fotografando flores nos jardins da Batalha, disse «de mim para comim»: "Ah! Que lindo! As Flores da Batalha! Faz-me lembrar as batalhas de flores que eram um espectáculo magnífico e que é uma pena terem deixado de se fazer!..."
E, de repente, travo às quatro rodas e digo: "Escrivaninha Maria: tu nunca viste uma batalha de flores! Como podes recordar e ter pena?"
Pois é: foram as narrativas da minha mãe, que lamentava o fim das «batalhas de flores», iniciativa que vivenciou várias vezes e narrou muitas, a ponto de eu sentir a falta de algo que nunca vivi.
Aqui ficam, portanto, algumas flores da Batalha, invocando, a propósito, as «falsas memórias» das «Batalhas de Flores»:

domingo, 23 de maio de 2010
Fórmulas Epistolares
«Queridos Primos
Espero que estejam todos bem; nós cá vamos, na forma do costume.»
«Querida Mãe, querido Pai, então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre os dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer»
«Sou capaz de ir aí pelo Natal...»
Espero que estejam todos bem; nós cá vamos, na forma do costume.»
«Querida Mãe, querido Pai, então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre os dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer»
«Sou capaz de ir aí pelo Natal...»
sábado, 22 de maio de 2010
Mais Platão, menos Prozac
Às vezes compramos os livros pelos títulos.
Eu gostei deste, aqui há uns anos e comprei-o. Mas foi uma desilusão. Achei tudo muito básico e nem sequer estava bem escrito. Lamentei a compra e arrumei o livro em qualquer lado e já não o vejo há muito tempo.
Mas hoje, agora, lembrei-me deste título, por causa do poema/comentário que recebi. Que me recordou uma situação engraçada; ou invulgar, ou especial, não sei, mas um bom conselho certamente: Numa consulta médica receitaram-me um livro de poesia!
Aqui há uns tempos o meu médico começou a falar de vários assuntos - ele é um óptimo conversador - e pergunta-me se eu conheço os poemas de Baudelaire, traduzidos por Graça Moura, com ilustrações de Mário Botas. Disse-lhe que não e ele escreveu-me tudo isto num papel, como se fosse uma «receita», para eu aviar.
Achei uma situação muito bonita, muito invulgar e pensei que tinha muita sorte de ter um médico que receitava poesia.
Mas o que é certo é que aviei as outras receitas e fiz certinho o tratamento recomendado, mas guardei, por aí, a receita de poesia e só me lembrei dela agora ao ler o poema de Baudelaire.
Talvez devesse ter seguido todas as prescrições médicas e talvez se todos nós lêssemos mais coisas bonitas não precisássemos de tanta medicação.
Lembrei-me então do título do livro - que vale só pelo conselho que encerra - e da «receita médica» de ler coisas bonitas, de qualidade.
Há médicos que levam a sério a ideia de receitar o que cada doente precisa. Mas alguns doentes, palermas, não cumprem as instruções todas.
Eu gostei deste, aqui há uns anos e comprei-o. Mas foi uma desilusão. Achei tudo muito básico e nem sequer estava bem escrito. Lamentei a compra e arrumei o livro em qualquer lado e já não o vejo há muito tempo.
Mas hoje, agora, lembrei-me deste título, por causa do poema/comentário que recebi. Que me recordou uma situação engraçada; ou invulgar, ou especial, não sei, mas um bom conselho certamente: Numa consulta médica receitaram-me um livro de poesia!
Aqui há uns tempos o meu médico começou a falar de vários assuntos - ele é um óptimo conversador - e pergunta-me se eu conheço os poemas de Baudelaire, traduzidos por Graça Moura, com ilustrações de Mário Botas. Disse-lhe que não e ele escreveu-me tudo isto num papel, como se fosse uma «receita», para eu aviar.
Achei uma situação muito bonita, muito invulgar e pensei que tinha muita sorte de ter um médico que receitava poesia.
Mas o que é certo é que aviei as outras receitas e fiz certinho o tratamento recomendado, mas guardei, por aí, a receita de poesia e só me lembrei dela agora ao ler o poema de Baudelaire.
Talvez devesse ter seguido todas as prescrições médicas e talvez se todos nós lêssemos mais coisas bonitas não precisássemos de tanta medicação.
Lembrei-me então do título do livro - que vale só pelo conselho que encerra - e da «receita médica» de ler coisas bonitas, de qualidade.
Há médicos que levam a sério a ideia de receitar o que cada doente precisa. Mas alguns doentes, palermas, não cumprem as instruções todas.
Etiquetas:
Palavras à Medida,
Palavras Esquecidas,
Partículas de Felicidade
segunda-feira, 10 de maio de 2010
"Uma papoila
grito vermelho, num campo qualquer.
Como ela, somos livres
somos livres, de crescer
Uma criança dizia, dizia:
«Quando for grande,
não vou combater».
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer"
Música e letra de Ermelinda Duarte
Caminhava eu por S. Martinho do Porto, quando esta papoila me saltou ao caminho e me relembrou que eu sou livre de crescer e de dizer. Mas colocou-me uma pergunta a que eu não sei responder: O que é feito da Ermelinda Duarte, de quem conheço esta música - como toda a gente - mas de quem nada mais sei?
(Não se dão alvíssaras, mas agradece-se antecipadamente os possíveis esclarecimentos).
Etiquetas:
Dúvidas,
Palavras Cantadas,
Palavras Esquecidas
terça-feira, 20 de abril de 2010
Açafate
A minha mãe colocava a roupa impecavelmente passada a ferro num açafate. Era de verga clarinha, baixinho e com as malhas muito apertadinhas. Era bonito. E tinha um nome muito bonito.
Há tempos, em conversas daquelas tocadas a lazer, falei no açafate da roupa: ninguém sabia o que era...
Hoje precisei de comprar um tabuleiro novo para a roupa. Não me atrevi a solicitar pela designação desconhecida e trouxe-o para casa, mas dirigi-me então ao dicionário para confirmar.
Cá está: «Açafate», "provém da designação árabe de cesta e refere-se a um cesto baixo, redondo ou oval, sem tampa e sem asas, feito em verga fina."
O tabuleiro da minha mãe era rectangular e tinha asas...
Ah, cá está! «Açafata»: "moça fidalga incumbida de levar, em açafate, as peças de vestuário e de adorno das rainhas."
Bom, sempre tinha a ver com o transporte de roupa limpa e engomada.
O da minha mãe era de verga e recebia as peças impecavelmente passadas.
O meu é de plástico e recebe as peças passadas.
O tempo sempre vai aligeirando as palavras e os hábitos!
Há tempos, em conversas daquelas tocadas a lazer, falei no açafate da roupa: ninguém sabia o que era...
Hoje precisei de comprar um tabuleiro novo para a roupa. Não me atrevi a solicitar pela designação desconhecida e trouxe-o para casa, mas dirigi-me então ao dicionário para confirmar.
Cá está: «Açafate», "provém da designação árabe de cesta e refere-se a um cesto baixo, redondo ou oval, sem tampa e sem asas, feito em verga fina."
O tabuleiro da minha mãe era rectangular e tinha asas...
Ah, cá está! «Açafata»: "moça fidalga incumbida de levar, em açafate, as peças de vestuário e de adorno das rainhas."
Bom, sempre tinha a ver com o transporte de roupa limpa e engomada.
O da minha mãe era de verga e recebia as peças impecavelmente passadas.
O meu é de plástico e recebe as peças passadas.
O tempo sempre vai aligeirando as palavras e os hábitos!
segunda-feira, 22 de março de 2010
«Se Vier o coelho, o que é que eu lhe digo?»
A expressão que titula este post era usada pela minha avó quando via pessoas atrapalhadas com situações simples. Tornou-se um hábito e já todos a usávamos, mas um dia resolvi perguntar-lhe a razão da expressão e ela então contou-me:
O meu avô (um dos homens que partiu cedo, teria eu uns 7-8 anos) era caçador e tentava cativar para a actividade um amigo (creio, até, que compadre) que não se entusiasmava com o «desporto».
Mas um dia, aliciado certamente pelo passeio e pela «comezaina» que se seguiria, lá acompanhou o amigo.
Iam à caça ao coelho.
Quando estavam no campo, o meu avô teve uma aflição e pediu ao outro: "Segura aí na espingarda, que eu já volto."
O outro, atrapalhadíssimo, segurando na arma com uma evidente falta de jeito e receio, interpelou o meu avô, quando ele quase tinha alcançado o lugar para se aliviar: "Olha lá! Se vier o coelho, o que é que eu lhe digo?"
E assim era a história, que gerou uma frase que ficou na família, e que sempre arrancava à minha avó um riso genuíno.
O meu avô (um dos homens que partiu cedo, teria eu uns 7-8 anos) era caçador e tentava cativar para a actividade um amigo (creio, até, que compadre) que não se entusiasmava com o «desporto».
Mas um dia, aliciado certamente pelo passeio e pela «comezaina» que se seguiria, lá acompanhou o amigo.
Iam à caça ao coelho.
Quando estavam no campo, o meu avô teve uma aflição e pediu ao outro: "Segura aí na espingarda, que eu já volto."
O outro, atrapalhadíssimo, segurando na arma com uma evidente falta de jeito e receio, interpelou o meu avô, quando ele quase tinha alcançado o lugar para se aliviar: "Olha lá! Se vier o coelho, o que é que eu lhe digo?"
E assim era a história, que gerou uma frase que ficou na família, e que sempre arrancava à minha avó um riso genuíno.
Etiquetas:
Dúvidas,
Palavras Cativas,
Palavras Esquecidas
quinta-feira, 18 de março de 2010
Condão
Há palavras que ficam presas aos seus contextos: o condão aparece sempre junto da varinha. E a varinha, junto da madrinha, que era uma fada.
Porque é que a varinha era de condão? Porque dava muitas coisas? Porque concedia? Condão seria assim uma forma de conceder, de repente, muitas coisas; uma espécie de calão dos magos.
Condão era alguma coisa que se concedia, eram os desejos impossíveis realizados pela varinha, era a transformação da Cinderela em princesa por umas horas; era a reposição da justiça do mundo, era a moral da história...
Que pena que o condão tenha ficado preso lá atrás, na nossa infância, nas coisas nas quais já não temos o direito de acreditar, porque não somos como o Peter Pan e crescemos.
Sendo crescidos, temos que acreditar numa suposta justiça dos homens, que ainda por cima é cega, e que tenta equilibrar uma balança...sempre instável...e que sendo cega, depende no entanto de quem vê e de como vê.
Queria voltar a ser pequenina e esperar - com convicção - pela minha fada madrinha e o poder da sua varinha de condão.
Porque é que a varinha era de condão? Porque dava muitas coisas? Porque concedia? Condão seria assim uma forma de conceder, de repente, muitas coisas; uma espécie de calão dos magos.
Condão era alguma coisa que se concedia, eram os desejos impossíveis realizados pela varinha, era a transformação da Cinderela em princesa por umas horas; era a reposição da justiça do mundo, era a moral da história...
Que pena que o condão tenha ficado preso lá atrás, na nossa infância, nas coisas nas quais já não temos o direito de acreditar, porque não somos como o Peter Pan e crescemos.
Sendo crescidos, temos que acreditar numa suposta justiça dos homens, que ainda por cima é cega, e que tenta equilibrar uma balança...sempre instável...e que sendo cega, depende no entanto de quem vê e de como vê.
Queria voltar a ser pequenina e esperar - com convicção - pela minha fada madrinha e o poder da sua varinha de condão.
Etiquetas:
I Wish,
Palavras Cativas,
Palavras Esquecidas
sexta-feira, 5 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
Está esgotado...
Antigamente as pessoas tinham esgotamentos.
Esgotavam-se. Como os bons livros ou os produtos de supermercado muito requisitados; que todos querem, que são indagados com ar ansioso e que recebem a resposta: «Não temos, está esgotado, só lá pra quinta-feira...». Mas há uma esperança. Os fornecedores repõem o produto, o livro reaparece, por vezes até, numa edição revista e aumentada. Aquilo que se esgota é porque tem os requisitos de agradar, presume-se que tenha qualidade.
As pessoas esgotavam-se, de trabalhar muito (eram bons trabalhadores), de serem muito requisitadas (eram pessoas desejáveis), de estudarem muito (eram pessoas com vontade de saber). Um esgotamento poderia, assim, ser até, um rótulo de qualidade e uma esperança de renovação, nova edição, tiragem especial...
Já havia a palavra depressão, mas pertencia ao domínio da metereologia e estava de certa forma associada ao anti-ciclone dos Açores. E tinha um carácter passageiro: aproxima-se uma depressão, blá, blá, blá; aquelas linhas sobre o mapa tinham a dinâmica do movimento e não da estagnação. Se bem que, por vezes, o tio Anthímio referia «estão a sofrer uma depressão». Aí, já tinha um ar mais doloroso, mas não - nunca! - definitivo.
As pessoas tinham esgotamentos e tomavam suplementos e tudo tinha ar de ser por momentos.
Agora as pessoas entram em depressão! A palavra faz eco e lembra o fundo de um poço, onde a luz está muito longe e fora do alcance.
Para as depressões tomam-se anti-depressivos, um nome que lembra armas químicas e tropas especializadas.
E a causa das depressões tem um nome estrangeiro e intraduzível: stress.
E as pessoas deixaram de andar inquietas ou enervadas e passaram a andar stressadas, que deve ter a ver com o verbo stressar, que não encaixa em nenhuma das minhas gramáticas.
Esgotaram-se os esgotamentos, vulgarizou-se o stress; citadino, buzinante, dramático e mais definitivo. Contra o qual se inventaram armas químicas e tácticas militares...
Nunca mais teremos paz no fundo do poço!
Esgotavam-se. Como os bons livros ou os produtos de supermercado muito requisitados; que todos querem, que são indagados com ar ansioso e que recebem a resposta: «Não temos, está esgotado, só lá pra quinta-feira...». Mas há uma esperança. Os fornecedores repõem o produto, o livro reaparece, por vezes até, numa edição revista e aumentada. Aquilo que se esgota é porque tem os requisitos de agradar, presume-se que tenha qualidade.
As pessoas esgotavam-se, de trabalhar muito (eram bons trabalhadores), de serem muito requisitadas (eram pessoas desejáveis), de estudarem muito (eram pessoas com vontade de saber). Um esgotamento poderia, assim, ser até, um rótulo de qualidade e uma esperança de renovação, nova edição, tiragem especial...
Já havia a palavra depressão, mas pertencia ao domínio da metereologia e estava de certa forma associada ao anti-ciclone dos Açores. E tinha um carácter passageiro: aproxima-se uma depressão, blá, blá, blá; aquelas linhas sobre o mapa tinham a dinâmica do movimento e não da estagnação. Se bem que, por vezes, o tio Anthímio referia «estão a sofrer uma depressão». Aí, já tinha um ar mais doloroso, mas não - nunca! - definitivo.
As pessoas tinham esgotamentos e tomavam suplementos e tudo tinha ar de ser por momentos.
Agora as pessoas entram em depressão! A palavra faz eco e lembra o fundo de um poço, onde a luz está muito longe e fora do alcance.
Para as depressões tomam-se anti-depressivos, um nome que lembra armas químicas e tropas especializadas.
E a causa das depressões tem um nome estrangeiro e intraduzível: stress.
E as pessoas deixaram de andar inquietas ou enervadas e passaram a andar stressadas, que deve ter a ver com o verbo stressar, que não encaixa em nenhuma das minhas gramáticas.
Esgotaram-se os esgotamentos, vulgarizou-se o stress; citadino, buzinante, dramático e mais definitivo. Contra o qual se inventaram armas químicas e tácticas militares...
Nunca mais teremos paz no fundo do poço!
sábado, 9 de janeiro de 2010
Apanhada nas Palavras
Andava aqui eu à volta dos regimes de propriedade medieval: Honras, Coutos, Alódios e Reguengos - que sempre vou relacionando com actuais nomes de terras - quando leio a seguinte descrição:
"O couto – do latim «cautum», que significa «segurança» - era um privilégio outorgado a um território ou a um simples local, que assim ficava excluído da jurisdição régia. O «marco de couto», ou «lugar de couto», tanto podia ser uma casa ou uma simples porta, um acidente do terreno ou um curso de água, etc., que o fugitivo devia alcançar para se encontrar ao abrigo da justiça do rei." (Cocheril, Dom Maur, Alcobaça, Abadia Cisterciense de Portugal, p. 27)
E lembrei-me do jogo da apanhada. Lembram-se? Havia um lugar que era salvo, onde não nos podiam apanhar, quando lá chegávamos gritávamos: Coito!
Era demasiado semelhante para não ter uma relação! E lá fui eu à procura dela:
"Todos os outros jogadores terão de fugir do «apanhador», dentro de um determinado recinto, existindo no entanto um local previamente determinado, designado por «coito», dentro do qual os jogadores não podem ser apanhados."(Pereira, Patrícia, Brincar com Tradições, p. 26, Município de São Bras de Alportel)
A condição de alcançar um determinado local e ficar a salvo era mesmo demasiado similar para não ter a mesma origem. Continuando...
No dicionário online priberam, lá estava esclarecido que "Coito" pode ter como significado "o mesmo que couto", que "Couto" significa "Asilo, Refúgio" e que "Acoitar" é uma palavra antiga, que significa "dar couto ou guarida"
Pessoalmente, lembro-me desta última como sentido de esconder, de dar cobertura a algo de ilegal, de cumplicidade...o que também não está fora do contexto.
E pronto: foi uma viagem interessante de ligações entre palavras, esquecidas, estudadas, brincadas e nunca dantes pensadas. Mas, como sempre, uma viagem fascinante de descoberta entre as palavras, a sua evolução, os seus significados. E, além do mais,inesperada: Uma pausa para brincar...à apanhada das palavras!
"O couto – do latim «cautum», que significa «segurança» - era um privilégio outorgado a um território ou a um simples local, que assim ficava excluído da jurisdição régia. O «marco de couto», ou «lugar de couto», tanto podia ser uma casa ou uma simples porta, um acidente do terreno ou um curso de água, etc., que o fugitivo devia alcançar para se encontrar ao abrigo da justiça do rei." (Cocheril, Dom Maur, Alcobaça, Abadia Cisterciense de Portugal, p. 27)
E lembrei-me do jogo da apanhada. Lembram-se? Havia um lugar que era salvo, onde não nos podiam apanhar, quando lá chegávamos gritávamos: Coito!
Era demasiado semelhante para não ter uma relação! E lá fui eu à procura dela:
"Todos os outros jogadores terão de fugir do «apanhador», dentro de um determinado recinto, existindo no entanto um local previamente determinado, designado por «coito», dentro do qual os jogadores não podem ser apanhados."(Pereira, Patrícia, Brincar com Tradições, p. 26, Município de São Bras de Alportel)
A condição de alcançar um determinado local e ficar a salvo era mesmo demasiado similar para não ter a mesma origem. Continuando...
No dicionário online priberam, lá estava esclarecido que "Coito" pode ter como significado "o mesmo que couto", que "Couto" significa "Asilo, Refúgio" e que "Acoitar" é uma palavra antiga, que significa "dar couto ou guarida"
Pessoalmente, lembro-me desta última como sentido de esconder, de dar cobertura a algo de ilegal, de cumplicidade...o que também não está fora do contexto.
E pronto: foi uma viagem interessante de ligações entre palavras, esquecidas, estudadas, brincadas e nunca dantes pensadas. Mas, como sempre, uma viagem fascinante de descoberta entre as palavras, a sua evolução, os seus significados. E, além do mais,inesperada: Uma pausa para brincar...à apanhada das palavras!
Etiquetas:
Palavras Cativas,
Palavras Esquecidas,
Tradições
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Júlio Pereira está no Jornal 2
Dá um concerto amanhã no CCB.
Que delícia ouvi-lo falar outra vez. Tão ele!...
Não me tinha apercebido que tinha tantas saudades dele!...E com ele de tantas coisas que vivi na adolescência, concertos, músicas, vivências, tão...
Só a descontração tão dele - tão daquele tempo - de responder às perguntas: "Porque tu sentes a pressão dos amigos e familiares..." Não sei explicar...Foi aquele "tu sabes...", tão arredores de Lisboa no pós-25 de Abril.
(Pós mesmo pós, porque no pós continuamos, mas a poeira foi baixando e já se notam poucos pós daquele tempo).
Querido Júlio Pereira!
Que delícia ouvi-lo falar outra vez. Tão ele!...
Não me tinha apercebido que tinha tantas saudades dele!...E com ele de tantas coisas que vivi na adolescência, concertos, músicas, vivências, tão...
Só a descontração tão dele - tão daquele tempo - de responder às perguntas: "Porque tu sentes a pressão dos amigos e familiares..." Não sei explicar...Foi aquele "tu sabes...", tão arredores de Lisboa no pós-25 de Abril.
(Pós mesmo pós, porque no pós continuamos, mas a poeira foi baixando e já se notam poucos pós daquele tempo).
Querido Júlio Pereira!
Etiquetas:
Palavras Esquecidas,
Partículas de Felicidade
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
Porque Hoje é Sábado
"(...)
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
(...)
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
(...)
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
(...)
Porque era sábado."
O Dia da Criação, Vinicius de Moraes
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
(...)
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
(...)
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
(...)
Porque era sábado."
O Dia da Criação, Vinicius de Moraes
Etiquetas:
Palavras de Outros,
Palavras Esquecidas
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Morreu Claude Lévy-Strauss
Fundador da Antropologia Estruturalista, Lévy-Strauss era o único membro centenário da Academia Francesa - nasceu em 1908 e morreu em 2009.
Lévy-Strauss é um nome que eu tenho por referência desde o Liceu.
Numa época em que não havia «estudo acompanhado», eu estudei sozinha o Livro Raça e História de Claude Lévy-Strauss. Bem...sozinha, não. Foi a professora de Antropologia que me despertou o interesse pelo tema; pelo tema da Antropologia em geral, pelo autor em especial.
É muito bom, hoje, poder recordar uma boa professora, pois, atacados como estão os professores actualmente, parece que não haveria dos bons. Eu tive. Alguns foram de uma importância extraordinária na minha vida. Por vezes, na altura, não dei grande importância ao que alguns disseram, mas hoje reconheço como foi fundamental, como se reflecte na minha personalidade e na minha profissão.
O gosto pelo francês e por tudo o que diz respeito à cultura francesa também deve ter vindo do Liceu e depois foi muito aprofundada na Universidade, com muitos professores formados na Sorbonne.Eram os ecos do Maio de 68, quase 20 anos depois, nos corredores e nas bibliografias da Faculdade de Letras!
A Lévy-Strauss, nas minhas leituras, juntou-se André Leroi-Gourhan- que eu sempre confundo, talvez pelo som, pela grafia, pela afinidade de alguns temas antropológicos - que estudei nas aulas de Pré-História, na análise das gravuras rupestres.
A morte de Lévy-Strauss trouxe-me os ecos de épocas povoadas pelo prazer de aprender, pela descoberta e pela investigação, que foi tão bom recordar agora quando sinto a minha competência posta em causa por sistemas de avaliação burocratizados, pelo preenchimento de muitos e muitos formulários que procuram esmiúçar em múltiplos itens as trocas todas que se dão num grupo de aprendizagem.
Foi bom, muito bom, recordar o tempo em que eu estudava porque queria aprender; mais tarde em que eu aprendia porque queria ensinar e em que eu ensinava porque queria nunca parar de aprender...
Saudades da Liberdade de Aprender! Com pensadores como Lévy-Strauss; que nos deixou agora, mas ficará sempre na sua obra.
Lévy-Strauss é um nome que eu tenho por referência desde o Liceu.
Numa época em que não havia «estudo acompanhado», eu estudei sozinha o Livro Raça e História de Claude Lévy-Strauss. Bem...sozinha, não. Foi a professora de Antropologia que me despertou o interesse pelo tema; pelo tema da Antropologia em geral, pelo autor em especial.
É muito bom, hoje, poder recordar uma boa professora, pois, atacados como estão os professores actualmente, parece que não haveria dos bons. Eu tive. Alguns foram de uma importância extraordinária na minha vida. Por vezes, na altura, não dei grande importância ao que alguns disseram, mas hoje reconheço como foi fundamental, como se reflecte na minha personalidade e na minha profissão.
O gosto pelo francês e por tudo o que diz respeito à cultura francesa também deve ter vindo do Liceu e depois foi muito aprofundada na Universidade, com muitos professores formados na Sorbonne.Eram os ecos do Maio de 68, quase 20 anos depois, nos corredores e nas bibliografias da Faculdade de Letras!
A Lévy-Strauss, nas minhas leituras, juntou-se André Leroi-Gourhan- que eu sempre confundo, talvez pelo som, pela grafia, pela afinidade de alguns temas antropológicos - que estudei nas aulas de Pré-História, na análise das gravuras rupestres.
A morte de Lévy-Strauss trouxe-me os ecos de épocas povoadas pelo prazer de aprender, pela descoberta e pela investigação, que foi tão bom recordar agora quando sinto a minha competência posta em causa por sistemas de avaliação burocratizados, pelo preenchimento de muitos e muitos formulários que procuram esmiúçar em múltiplos itens as trocas todas que se dão num grupo de aprendizagem.
Foi bom, muito bom, recordar o tempo em que eu estudava porque queria aprender; mais tarde em que eu aprendia porque queria ensinar e em que eu ensinava porque queria nunca parar de aprender...
Saudades da Liberdade de Aprender! Com pensadores como Lévy-Strauss; que nos deixou agora, mas ficará sempre na sua obra.
Etiquetas:
Palavras Doridas,
Palavras Esquecidas,
Partículas de Felicidade
terça-feira, 27 de outubro de 2009
"Um vintém é um vintém e um cretino é um cretino"
Foram estas as palavras que saíram do aparelho de rádio, quando a ordem de despertar dada na véspera o fez accionar o som.
Abri os olhos intrigada: que estranhas palavras...
Afinal era uma polémica qualquer de treinadores de futebol, assunto que sempre me entedia e logo me desinteressa, a ponto de deixar de ouvir o que se diz.
De qualquer maneira, registo aqui, que há muito não ouvia palavras destas - vintém, é de outros tempos, cretino é intemporal, mas, embora se frequente bastante, a expressão é escassamente usada.
Abri os olhos intrigada: que estranhas palavras...
Afinal era uma polémica qualquer de treinadores de futebol, assunto que sempre me entedia e logo me desinteressa, a ponto de deixar de ouvir o que se diz.
De qualquer maneira, registo aqui, que há muito não ouvia palavras destas - vintém, é de outros tempos, cretino é intemporal, mas, embora se frequente bastante, a expressão é escassamente usada.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
